04 Setembro 2013
"Se ninguém aqui no Vaticano me defende de quem me chamou de corrupto, é melhor acabar aqui". O cardeal Tarcisio Bertone disse isso com grande firmeza durante o almoço de meados de agosto na residência pontifícia de Castel Gandolfo, na presença do Papa Francisco, do cardeal Angelo Sodano, seu antecessor e atual decano do Colégio Cardinalício, e do bispo Marcello Semeraro, secretário da comissão dos oito cardeais instituída por Bergoglio para estudar a reforma da Cúria.
A reportagem é de Orazio La Rocca, publicada no jornal La Repubblica, 03-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Bertone, no entanto, segundo os rumores que vazaram dos Sagrados Palácios, durante o almoço de meados agosto, tinha pouca vontade de falar de reformas, porque, há dias, na imprensa, circulam os conteúdos de alguns tuítes virulentos publicados nos meses anteriores por Francesca Immacolata Chaouqui, 30 anos, nomeada por Bergoglio, surpreendentemente, no dia 19 de julho passado, como membro da Comissão de Inquérito sobre as finanças vaticanas.
Nomeação que logo levantou irritação no Vaticano, assim que os jornais lembraram que, naqueles tuítes – publicados nos dias 28 e 29 de fevereiro de 2012 –, o secretário de Estado era duramente atacado: "Bertone é um corrupto – defendia a neocomissária pontifícia –, parece que o arquivo secreto e uma empresa vêneta estão no meio".
Palavras pesadas como pedras que atingiram o então secretário de Estado, não só pelo conteúdo – indicou-se aos comensais no almoço do dia 15 de agosto –, mas principalmente por terem sido "ditas por uma pessoa nomeada pelo papa". Julgamentos que, confidencia o cardeal, "me feriram profundamente".
Mas o que jogou sal na ferida do cardeal também foi – segundo ele – a reação "morna" das fontes vaticanas e da imprensa católica. Com exceção de uma breve intervenção do porta-voz da Sala de Imprensa da Santa Sé, o padre Federico Lombardi: "Não há nenhum comentário particular sobre o que foi publicado. Não me parecem ser coisas que já não se soubessem. Mas é preciso verificar se são todas verdadeiras".
Intervenção que, evidentemente, Bertone julgou como bastante "fraca" e "pouco convincente". Daí o pedido de ver antecipados os tempos da nomeação do sucessor "se ninguém me defende da acusação de ser corrupto". E talvez justamente por causa dessas queixas, o papa anunciou, com um mês e meio de antecipação, o novo secretário de Estado, Pietro Parolin. Confirmando, porém, todos os outros membros da mesma Secretaria de Estado que trabalham com o cardeal.
Um gesto visto no Vaticano como mais um insulto a Bertone, que, talvez não por acaso, no domingo passado em Siracusa, se queixou de ser "vítima de corvos e víboras, mesmo tendo trabalhado positivamente a serviço da Igreja".