As opções fundamentais de Monsenhor Proaño

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Por: André | 04 Setembro 2013

“Opção pela pobreza e pelos pobres e luta contra a pobreza, opção pelos povos indígenas, pela Pachamama, pela libertação e luta contra o cativeiro, pelas comunidades de base, por uma espiritualidade evangélica e uma teologia vivida no seguimento de Jesus, pela diversidade cultural e pelo pluralismo religioso: estas foram as grandes opções de dom Leonidas Proaño, que me atrevo a converter em virtudes cardeais e que convido a seguir não apenas a todos vocês, mas os homens e mulheres de boa vontade, sob a ética do SumakKawsay.” A reflexão é de Juan José Tamayo, em artigo publicado no sítio Redes Cristianas, 01-09-2013. A tradução é de André Langer.

 
Fonte: http://bit.ly/1a3daRb  

Juan José Tamayo é secretário-geral da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII e diretor da Cátedra de Teologia e Ciências da Religião da Universidade Carlos III de Madri. Seu último livro é Cincuenta intelectuales para una consciencia crítica (Barcelona: Fragmenta, 2013), onde aparece um perfil de dom Proaño.

Eis o artigo.

No 25º aniversário de seu falecimento

Aos povos originários de Abya Yala de ontem, de hoje e de amanhã, adoradores do Sol como fonte de vida e primeiros ecologistas da história, em memória da experiência indígena-fraterna-sororal de dom Proaño, sempre presente na minha memória e na minha vida, com respeito, agradecimento e emoção.

A memória subversiva das vítimas

O 25º aniversário de morte e ressurreição de dom Leonidas Proaño (1910-1988), bispo dos índios de Abya Yala, que estamos celebrando de 28 a 31 de agosto de 2013 no Equador, não podia passar despercebido. E não porque queiramos honrá-lo como herói da pátria, colocá-lo em um nicho, ou declará-lo servo de Deus, beato ou santo. Como tampouco homenageá-lo ou entoar panegíricos de sua pessoa. Menos ainda celebrar pompas fúnebres por sua alma. Nenhuma destas coisas lhe agradaram em vida, nem agradam aos seus amigos e seguidores. Quanto menos por ocasião da celebração da sua ressurreição!

Por que, então, a dedicação tão generosa da Fundação do Povo Índio do Equador ao celebrar este evento? Por que a participação das comunidades indígenas de todo o continente, de ativistas sociais, líderes dos povos originários, de comunidades eclesiais de base, de movimentos sociais, de organizações cívicas e de direitos humanos, de teólogos e teólogas, de pessoas e organizações de muitos países do mundo nesta efeméride?

A resposta é muito simples: para fazer memória da passagem pela história de um homem que deixou marcas, fazer o longo itinerário que ele fez durante os fecundos 78 anos de sua vida, recordar as vítimas da dominação colonial e seguir seu exemplo criativamente praticando as grandes opções que Proaño assumiu.

Opção pela pobreza e pelos pobres e luta contra a pobreza

A opção fundamental de mons. Proaño foi sem dúvida a pobreza. Pobre nasceu e pobre viveu. Pobre morreu. A pobreza é a única herança que ele nos deixou, mas entendida e vivida como dom e valor, a austeridade como estilo de vida, a partilha como forma de realização. Por que tomar a pobreza como um valor? Porque, graças a ela, podemos viver de maneira austera e em liberdade diante do consumismo. Mas também a opção pelos pobres, tomando como própria a sua causa, participando ativamente das suas lutas libertadoras, compartilhando sua vida, e a luta contra a pobreza como realidade injusta e situação indigna e a denúncia de suas principais causas.

Opção pelos pobres indígenas

O compromisso que dom Proaño com mais radicalidade assumiu foi a defesa dos direitos dos indígenas. Um compromisso que lhe foi conatural. De seu pai e de sua mãe aprendeu a acolher os indígenas como iguais em dignidade, irmãos e irmãs e filhos e filhas de Deus. Proaño se identificou com os povos indígenas até fazer-se um com eles e corresponsabilizar-se pelos cinco séculos de injustiças para com os índios e pela cumplicidade da Igreja com esta injustiça. Seguindo o método jocista ver-julgar-agir, Proaño constatou que duas terças partes da diocese de Riobamba eram indígenas e descobriu sua deplorável situação econômica, cultural, política, social, educativa e religiosa.

A Igreja de Riobamba era dona de grandes extensões de terra, herança de sistemas pós-coloniais. A resposta de Proaño foi solidarizar-se com suas lutas reivindicativas e a entrega gratuita de centenas de hectares, propriedade da Igreja, a famílias que se constituíram em cooperativas.

Opção pela Pachamama

A experiência da compaixão e da solidariedade marcou a vida de dom Proaño. Uma experiência que se dirigia às pessoas e à natureza, aos excluídos do sistema, à Pachamama, ameaçada de destruição. Acreditou no ser humano e na comunidade como fermento de transformação social, amou e respeitou a natureza até identificar-se com a terra, a água, os animais, as plantas.

Seu programa era “voltar às fontes para redimir a vida”, convencido que estava de que não existe redenção fora da Pachamama, da Terra, da Natureza. Para conseguir a libertação integral é necessário voltar à Natureza. Aí está a fonte, o manancial, a origem da vida. A Natureza pode viver sem nós. E de fato viveu sem nós durante milhões de anos. Nós, ao contrário, não podemos viver sem ela.

Opção pela libertação e luta contra o cativeiro

Para dom Proaño, a história é cativeiro e libertação. Cativeiro, sim, sobretudo a história do Equador, que contava então com uma alta porcentagem de habitantes analfabetos, especialmente na província de Chimborazo, com o maior grau de analfabetismo do país, já que a maioria da população indígena não havia frequentado a escola. Cativeiro foi também sua vida ao identificar-se com os sofredores da história e viver na própria pele a repressão militar e o controle detetivesco do Vaticano.

Exatamente porque viveu com os indígenas a dupla experiência do cativeiro – a política e a eclesiástica –, dom Proaño optou pela libertação. E o fez seguindo a pedagogia da conscientização através do lento processo da educação popular com a criação das Escolas Radiofônicas Populares e do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS) para toda a província do Chimborazo, que contribuíram para o despertar dos indígenas de um sonho de séculos.

Opção pelas comunidades de base

A experiência da pobreza foi, para Proaño, o lugar privilegiado para viver a comunidade, praticar a solidariedade, aprender a fraternidade e sentir a amizade. O Concílio Vaticano II (1962-1965), do qual ele participou sendo um jovem bispo, o ajudou a descobrir a dimensão comunitária da Igreja. A partir dos textos conciliares tomou consciência da necessidade de transformar radicalmente a Igreja renunciando ao seu caráter piramidal e assumindo sua dimensão comunitária. Sua participação na Conferência Episcopal de Medellín (Colômbia), em 1968, contribuiu sobremaneira para mudar o rumo da Igreja latino-americana e para orientá-la pelo caminho da libertação. Imediatamente depois do Concílio Vaticano II, dom Proaño foi um dos pioneiros na criação das comunidades eclesiais de base.

E a estruturação comunitária da diocese de Riobamba influiu decisivamente na centralidade que o documento de Medellín reconhece às comunidades eclesiais de base como princípio de organização da Igreja, espaço privilegiado de evangelização e leito de promoção. “A vivência da comunhão a que foi chamado –, afirma Medellín – o cristão deve encontrá-la na sua ‘comunidade de base’: uma comunidade local ou ambiental, que corresponda à realidade de um grupo homogêneo e que tenha uma dimensão tal que permita a convivência pessoal e fraterna entre seus membros... Ela é, pois, célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e, atualmente, fator primordial da promoção humana e do desenvolvimento”.

O ideal expressado tão nitidamente em Medellín já se havia tornado realidade na diocese de Riobamba no Lar de Santa Cruz, maravilhosa experiência de vida comunitária forjada durante quase 30 anos a partir de uma amizade autêntica e profunda, indispensável para uma vida e uma pastoral comunitárias, não sem dificuldades que foi preciso vencer e de conflitos que foi preciso represar.

Opção por uma espiritualidade evangélica e uma teologia vivida no seguimento de Jesus

A espiritualidade do seguimento de Jesus de Nazaré, o Cristo Libertador, foi o alimento cotidiano para o compromisso de dom Proaño com os pobres. Seu compatriota e irmão no episcopado Fray Alberto Cuenca Tobar, arcebispo de Cuenca (Equador), o definia como “um contemplativo não enclausurado”. E continuava: “Se poderia dizer que sua timidez, sua simplicidade, sua primitiva e rústica humanidade o enclausuravam. Mas sua coragem, sua ação apostólica, sua paixão pela verdade, o emanavam de si mesmo e revelava o que a contemplação lhe havia dado...”.

A forma de Proaño de apelar em tudo ao Evangelho era revelação de seu permanente estado de reflexão evangélica

A sua espiritualidade era evangélica, cristológica, comunitária: “Para que o homem mude – escrevia o bispo dos índios em 1977 – é necessário viver a Teologia. Em outras palavras, é necessário viver o Evangelho... experimentar Cristo... experimentar Deus em Cristo, experimentar Deus através de Cristo... experimentar esta vivência entre os discípulos de Cristo, no seio da Igreja em seu sentido mais concreto”.

Opção pela diversidade cultural e pelo pluralismo religioso

Dom Proaño foi especialmente sensível à diversidade cultural e ao pluralismo religioso. “Não era um bispo. Era um índio entre os índios”: assim o define Ana María Guacho, colaboradora de Proaño desde 1982 no Movimento Indígena do Chimborazo. Sua imersão nas tradições religiosas e culturais indígenas o ajudaram a relativizar a Igreja romana inculturada na tradição ocidental e a valorizar as dimensões libertadoras das culturas e religiões indígenas como fontes de sabedoria, caminhos de salvação, lugares de libertação integral e espaços de rico simbolismo.

Opção pela pobreza e pelos pobres e luta contra a pobreza, opção pelos povos indígenas, pela Pachamama, pela libertação e luta contra o cativeiro, pelas comunidades de base, por uma espiritualidade evangélica e uma teologia vivida no seguimento de Jesus, pela diversidade cultural e pelo pluralismo religioso: estas foram as grandes opções de dom Proaño, que me atrevo a converter em virtudes cardeais e que convido a seguir não apenas a todos vocês, mas os homens e mulheres de boa vontade, sob a ética do Sumak Kawsay.

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