Assim inicia verdadeiramente o papado de Francisco

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02 Setembro 2013

Com uma hipérbole significativa, diz-se que o papado de Francisco só começou realmente nesse sábado. É uma homenagem ao poder incômodo representado nos últimos anos pelo secretário de Estado de Bento XVI, Tarcisio Bertone, e a confirmação de que, sem a sua remoção, o divisor de águas entre passado e presente permanecia nebuloso, incompleto.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 01-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Provavelmente, o "Arci-Tarci" [de "arcebispo Tarcisio", em italiano], o apelido afetuoso que lhe foi dado pelos familiares no tempo em que ele era arcebispo de Gênova, começava a pressentir isso. No entanto, ele se iludiu. Não quis, ou talvez não foi capaz, de entender que a sua época tinha acabado: tinha se concluído no dia 28 de fevereiro, com a renúncia de Bento XVI e tinha sido enterrada com a eleição de Jorge Mario Bergoglio.

Os amigos o aconselharam a apresentar sua renúncia imediatamente depois da chegada do novo pontífice: os mesmos que agora sugerem que o secretário de Estado cessante encontre um apartamento bem dentro dos Sagrados Muros. Busca nada simples: no Vaticano, as portas também se fecham para os poderosos que caem em desgraça. "Mas ele tem que encontrá-lo. Do lado de fora, ele está em perigo. Por causa da imagem que ele criou para si, um personagem como ele poderia sofrer alguma descortesia...".

"Descortesia": o termo é gentil, assemelha-se a um eufemismo curial. A dura verdade é que Bertone, às vésperas dos seus 80 anos, provavelmente deve se preparar para um longo purgatório. Aquele Vaticano onde ele dominou por mais de sete anos como "primeiro-ministro" de Joseph Ratzinger, ou, para os seus detratores, como "vice-papa", se transformou em um lugar mais do que hostil, alheio.

Quem o temia, espera nas margens do outro lado do Tibre a sua jubilação definitiva: formalmente, no dia 15 de outubro, para dar tempo ao substituto para deixar a sede diplomática de Caracas. Mas as peças da sua rede de poder sabem que, com a sua queda, eles também estão em desequilíbrio.

Revistas agora, as suas raras imagens ao lado do Papa Francisco na recente viagem ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, relatam uma relação quase inexistente. Bertone pensava em continuar desempenhando um papel ao menos semelhante ao que lhe havia sido concedido por Bento XVI. A sua última tentativa foi de resistir à cúpula da comissão cardinalícia que controla o IOR. Ele propôs isso ao papa porque, no fundo, argumentou, a prorrogação também foi concedida ao seu antecessor, o cardeal Angelo Sodano.

Isso pode até acontecer, mas vai ter pouca serventia. A conversa com Francisco em meados de agosto teria sido uma espécie de diálogo breve, embaraçoso entre surdos. De fato, o pedido de Bertone agravou as suspeitas daqueles que se perguntam se ele quer acompanhar a problemática operação de transparência financeira do IOR só pelo bem da Igreja ou porque há interesses encorpados e incômodos para defender.

Quando se fala de "contas de religiosos", tudo se fecha como uma ostra. Mas, da couraça de um mundo assustado com os seus próprios segredos, vazam rumores de somas ingentes que, mais cedo ou mais tarde, vão exigir uma explicação: seja no Vaticano, seja com a magistratura italiana. Nisso, Francisco demonstrou que não quer recuar um centímetro.

O declínio de Bertone, portanto, não será indolor, porque não é só o de um alto prelado, mas também de um sistema de governo e de uma mentalidade dos quais, apesar dele, ele se tornou há muito tempo o símbolo e a metáfora. Não existem problemas pessoais com o novo pontífice. Mas o ex-arcebispo jesuíta de Buenos Aires é a expressão de um conclave que queria e conseguiu eleger um papa chamado para eliminar aquilo que o agora ex-secretário de Estado representou, para além das suas reais responsabilidades.

A litigiosidade e as intrigas do "partido italiano" eclesiástico. As relações opacas com um submundo financeiro que produziu escândalos e brigas judiciárias até para os salesianos como ele. O vazamento de documentos do Apartamento de Bento XVI. Nomeações que exacerbaram um italocentrismo curial alheio aos equilíbrios do catolicismo mundial.

E, finalmente, chegou a renúncia de Ratzinger. Corre em câmera lenta uma série de forçações que só a relação especial com Bento XVI podia permitir, mas que Bertone se iludiu que poderia perpetuar, ao menos em parte, com o sucessor. A verdade é que o abandono do papa alemão pulverizou qualquer posição de rendição. E ofereceu uma mão livre para Francisco redesenhar o governo da Igreja. No seu papado, a Secretaria de Estado não será mais a mesma.

O chamado "G8 do Vaticano", os oito cantos do mundo chamados para aconselhar o pontífice de modo permanente, já prefiguram uma espécie de governo colegial da Igreja, que torna o "primeiro-ministro" uma figura mais técnica e de serviço. E o retorno a Roma do "jovem" Pietro Parolin, o diplomata da escola de Agostino Casaroli, que ainda não é nem cardeal, soa como a derrota total do modelo anterior. Indica sobretudo a vontade do Vaticano de voltar a fazer política externa, depois de uma fase de imobilismo e improvisação.

Que fique claro: Bertone não foi a causa do ataque do coração do poder vaticano; no máximo o revelou. Mas, certamente, a sua figura controversa assinalou e tornou extremas as suas contradições e o seu anacronismo. E a renúncia de Bento XVI pareceram ser um ato de acusação implícito aos colaboradores mais próximos.

Nesse ponto, ficou ainda mais claro para os episcopados mundiais que o sistema devia ser radicalmente reformado, a fim de evitar desvios e guerras internas devastadoras.

No fim de julho, quando Timothy Dolan, arcebispo de Nova York e presidente do episcopado dos EUA, disse ao National Catholic Reporter que esperava de Francisco uma renovação mais rápida, ele pensava principalmente em Bertone. E, de fato, ele acrescentou que, se nada acontecesse, ele ficaria surpreso.

Há ao menos um mês falava-se de substituições no início de setembro. E há algumas semanas sabia-se que o papa tinha decidido. O nome do Parolin circulava no Vaticano há dias. E, em algumas embaixadas da América Central e do Sul, tinha chegado informalmente a notícia da promoção do núncio na Venezuela, com detalhes sobre a data.

Um dos seus grandes defensores foi o cardeal hondurenho de Tegucigalpa, Óscar Rodriguez Maradiaga, coordenador do "G8 vaticano", e, atrás dele, entrevê-se a poderosa fileira dos episcopados latino-americanos. Por outro lado, tinha-se a impressão de que, enquanto Bertone permanecesse no seu posto, embora reduzido, ainda faltava alguma coisa à "revolução" de Bergoglio. Mas havia a necessidade de não humilhar Bento XVI mandando para casa de modo brusco o seu braço direito.

O problema é que a resistência de Bertone impede que se fale de substituição fisiológica. A sua saída de cena soa como o fim de uma época. À renúncia voluntária e desesperada de Bento XVI, acrescentam-se, depois de seis meses, a renúncia forçada e em câmera lenta de Bertone. O rosto do "cardeal do sorriso", título de uma velha e benevolente biografia escrita por Bruno Viani, hoje parece estar marcado por uma careta de surpresa: como se, de repente, o seu mundo tivesse desabado sobre ele.

Mas o universo autorreferencial de Bertone já estava periclitante. Francisco e o conclave apenas reconheceram isso, com tempos lentos, mas inexoráveis, de uma igreja que voltou a olhar para a frente.

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