O mosteiro entre as montanhas que fala a todas as fés

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17 Agosto 2013

Em uma noite no mosteiro de São Moisés, o Abissínio, um peregrino estrangeiro perguntou: "Mas se a minha crença em Deus é diferente da sua, não é inevitável entrar em conflito?". O padre Dall'Oglio pensou alguns segundos, esfregando a barba. Depois respondeu: "Não pretendo saber o que é verdadeiro, em absoluto. No entanto, você e eu estamos unidos pelo fato de caminhar juntos por um caminho comum".

A reportagem é de Gabriel Bertinetto, publicada no jornal L'Unità, 13-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Isso aconteceu em janeiro de 2010. A Síria ainda não havia mergulhado nos horrores da guerra civil. Esse mosteiro, no deserto montanhoso ao norte de Damasco, era um centro de diálogo entre as fés, lugar de encontro para os seguidores de todos os cultos. Cristãos e os muçulmanos em particular. Era esse o objetivo que o padre Dall'Oglio tinha definido para si, desde 1982, quando, ali em Deir Mar Musa al-Habashi, tinha começado a restaurar os restos de um antiquíssimo santuário bizantino em ruínas, dando vida a uma comunidade de oração e de trabalho.

Dall'Oglio chegou na Síria no fim dos anos 1970. Jesuíta, pretendia estudar árabe, língua que dominaria perfeitamente. Descobriu as ruínas de São Moisés, o Abissínio, quase por acaso. Ficou impressionado com a atmosfera de desolação que reinava naqueles ambientes, que, antigamente, haviam sido um santuário e que, há muitos séculos, eram apenas espaços vazios, expostos às intempéries, enquanto os magníficos afrescos descoloriam nas paredes descascadas.

Grito de angústia

Como os eremitas medievais, Dall'Oglio passou 10 dias sozinho no local, rezando e meditando. No fim, a decisão estava tomada. O mosteiro renasceria. Reconstruído e restaurado, não para torná-lo abrigo de um grupo de reclusos em fuga da vida associada, mas, ao contrário, um centro aberto para o encontro e para o confronto entre homens e mulheres de todas as fés.

"Dizem que a Igreja se assemelha a uma mesquita", dizia o jesuíta. "Eu me orgulho disso". Ele organizava congressos de teologia, colaborava com líderes muçulmanos locais em projetos educacionais e ecológicos. E escrevia livros cujo sentido estava inequivocamente expresso no título: Credere in Gesù, amare l’Islam [Crer em Jesus, amar o Islã].

Dialogava com os muçulmanos, mas também entre as diversas comunidades cristãs da Síria, católicos e ortodoxos, que, somados, representam cerca de 8% da população. Dois milhões de um total de 23 milhões, divididos na atitude com relação ao regime. Alguns temem que a derrubada da ditadura possa levar a perseguições anticristãs. Outros acreditam que isso não pode ser motivo para fechar os olhos diante dos atos criminosos do poder político e militar.

O padre Dall'Oglio pertencia a esta última categoria, e, não por acaso, em junho de 2012, o governo o tinha expulso. A solicitação com a qual havia promovido a reaproximação entre pessoas de orientações diferentes em tempo de paz, o tinha levado a alcançar o mesmo objetivo nas circunstâncias modificadas e bem mais difíceis em que essas diferenças haviam se tornado razão ou pretexto de violência e abuso.

Ele tentava mediar entre as facções em luta, colocando em risco a própria vida para obter a libertação de reféns que corriam o risco de serem mortos.

"Nós tentamos inserir uma voz positiva nesse grito coletivo de angústia", dizia ele em janeiro de 2010, recebendo os visitantes de São Moisés, o Abissínio. E ele não estava se referindo, então, à guerra civil síria, que ainda não havia começado, mas sim às inúmeras cenas de confronto e de intolerância no mundo. Ele aludia aos cenários bélicos e terroristas do terceiro milênio.

Mas os riscos inerentes à incompreensão entre etnias e culturas diferentes estavam presentes na mente de Dall'Oglio desde que ele tinha começado a restaurar o velho e dilapidado esqueleto de muros de Deir Mar Musa. Então, em 1982, estava em pleno andamento o conflito libanês, e a crise israelense-palestina estava atravessando uma das fases mais complicadas e perigosas.

Em uma capela escavada na rocha, cerca de 20 visitantes passaram uma hora imersos em silenciosa meditação naquela noite de janeiro de 2010. Depois, o padre Dall'Oglio entrou, recitou orações em árabe e aramaico, e pediu que os presentes contribuíssem com o rito com as suas próprias considerações pessoais. Havia indianos, japoneses, europeus, palestinos, norte-americanos. Ele pediu que todos participassem da janta, cozinhando ou lavando os pratos. Os peregrinos eram acolhidos livremente no santuário, mas como membros temporários da comunidade, não como hóspedes ou turistas.

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