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15 Agosto 2013

A lógica da mídia jornalística nem sempre se rege pela rentabilidade. Ela pode se contentar com receitas que cubram o custo, ou nem isso: BBC, PBS, The Guardian, grandes instituições de mídia sem fins lucrativos, são exemplos.

A reportagem é de Mauro Malin, publicada no Observatório da Imprensa, 13/08/2013.

Em sua coluna no O Estado de S. Paulo de domingo (11/8), Renato Cruz disse que no Roda Viva da TV Cultura do dia 5 de agosto tanto os jovens na berlinda – Bruno Torturra, do Mídia Ninja, e Pablo Capilé, do coletivo Fora do Eixo – como os experientes jornalistas na bancada se saíram bem (veja o vídeo). Os entrevistadores, porque era preciso perguntar sobre o modelo de negócios, já que “fontes de financiamento estão longe de ser uma questão menor”. Os entrevistados, porque se mostraram muito bem articulados.

Cruz validou a curiosidade a respeito da maneira como se sustenta o Mídia Ninja. E comentou: “Pelo que responderam no Roda Viva, as pessoas praticamente trabalham de graça”.

Pode ser. E por que não? Há pessoas que trabalham de graça em ONGs, são voluntárias em hospitais, compram, preparam e distribuem comida para moradores de rua; há pessoas – bilhões de pessoas – que, além de frequentar cultos religiosos, dão dinheiro para igrejas. Há os que doam para partidos políticos.

Nem é preciso ir longe: quem compra e lê jornais e revistas não só trabalha de graça (dando aos veículos seu tempo de leitura, que é vendido aos anunciantes; sob a forma de espaço, o que se vende é tempo presumido de atenção), como paga para fazer isso.

A mesma coisa se dirá da mídia eletrônica. O indivíduo compra o aparelho, paga a eletricidade e doa seu tempo. O tempo coletivo dado ao canal de TV e à emissora de rádio, batizado no Brasil como ibope, é o critério de precificação da publicidade.

Nos países em que o voto não é obrigatório (a imensa maioria), o cidadão doa à sociedade e ao Estado o ato de votar, que pressupõe uma série de outros empenhos não monetizados: atenção à propaganda dos partidos, conversas com amigos e familiares, etc.

Os verdadeiros militantes de partidos políticos, espécie em extinção no Brasil de hoje, doam seu trabalho e doam financeiramente (isso também fazem os militantes interessados em bocas e boquinhas; é o pedágio).

Os espectadores financiam o cinema, o teatro e os concertos, os visitantes ajudam no custo dos museus e exposições. Pais de alunos frequentam conselhos nas escolas e não deduzem essa doação das mensalidades. Existem países em que o Corpo de Bombeiros é formado por voluntários (era assim no Chile, não sei se ainda é).

Dezenas de milhões de jovens morreram e morrem em guerras, como conscritos ou voluntários, outros tantos saem mutilados ou psicologicamente afetados para o resto da vida, e não fazem isso pelo soldo, fazem isso por uma pátria que só existe no imaginário coletivo.

Por que, se o jornalismo é uma atividade essencial para o funcionamento das sociedades democráticas, não poderia ele receber contribuições voluntárias? A testemunha de um acidente cobra ao repórter pelo relato do que viu ou pensa ter visto?

A lógica da mídia jornalística nem sempre se rege pela rentabilidade. Ela pode se contentar com receitas que cubram o custo, ou nem isso: BBC, PBS, The Guardian, grandes instituições de mídia sem fins lucrativos, são exemplos.

Colaboradores de Opinião, Movimento, Versus, O Pasquim e outros jornais alternativos eram movidos a dinheiro ou eram movidos por convicções e pela vontade de derrotar ideológica, cultural e politicamente a ditadura? Esses jornais foram tão influentes que se tornaram um divisor de águas na imprensa do país.

Colaboradores não remunerados deste Observatório da Imprensa contam-se às centenas. No Brasil de hoje, em que a mídia deixou de ser recebida passivamente, essa não é uma forma de participar do universo jornalístico?

Quem faz parte da diretoria de um sindicato não trabalha de graça? (Infelizmente, em muitos casos atualmente, para enriquecer e dar poder a alguns.)

A Constituição não diz, por exemplo, que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família? A família não é um bicho de oito pernas. É uma unidade social formada por pelo menos dois indivíduos. Jovens, para começar a conversa.

Outro argumento que é preciso levar em conta estava nas entrelinhas do discurso de Pablo Capilé e Bruno Torturra: o mundo capitalista atual não oferece aos jovens uma perspectiva muito brilhante. No Brasil, a famosa “janela demográfica” está sendo desperdiçada pelos insucessos econômicos, a incapacidade de poupar (a sociedade é muito pobre para isso), o descaso reiterado com a educação, a saúde, a infraestrutura.

O jovem que se interessa por essas coisas, e muitíssimos o fazem, olha para o futuro e pensa: se eu sobreviver economicamente em condições razoáveis às próximas crises (já entenderam que elas são inevitáveis, são da natureza do sistema, haja ou não uma regulação melhor de bancos e mercados financeiros), eu e minha família teremos que nos defrontar com:

1. A necessidade de sustentar com pesadas contribuições as gerações precedentes, que dependerão da previdência social e viverão cada vez mais;

2. A perpetuação da desigualdade, que nem governos tidos e havidos como progressistas conseguiram enfrentar a contento;

3. Se, numa hipótese extremamente otimista, a desigualdade interna for seriamente reduzida durante meu tempo de vida (afinal, ela levou séculos para se tornar crônica), a necessidade demográfica de importar trabalhadores para as tarefas que os brasileiros não vão mais querer realizar criará bolsões de opressão, mal-estar social, conflitos irremissíveis dentro da mentalidade vigente não no país, mas na espécie humana;

4. A degradação do ambiente para deixar como legado aos descendentes.

Mais imediata é a pressão numa sociedade em que o consumo, dada sua centralidade para o modo de produção, é estressante e não hedonista (no sentido etimológico da palavra, que remete a prazer).

Quando um jovem filosofa, a busca de valores é uma necessidade implícita. Que valores buscar? Os da manada? Esses são valores ou recalques?

Se nada disso faz tanto sentido quanto querem me fazer crer, se o próprio papa diz que não gosta de jovens conformistas, vale a pena abrir minha cabeça, meu tempo, meus braços para fazer alguma coisa solidária. Se não vai melhorar o país e a humanidade, ao menos dá mais sentido à minha vida.

E os mais velhos dirão: mas vai melhorar, sim. Mandem brasa.

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