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''As rotas da morte no deserto são ainda mais aterrorizantes. Entrevista com Andrea Riccardi

Andrea Riccardi já iniciou a sua viagem. Não só para documentar as tragédias, mas para evitá-las. O ex-ministro italiano para a Cooperação Internacional e a Integração, e fundador da Comunidade de Sant'Egidio está pronto para voltar à África para contribuir para remover as causas de um êxodo de custos humanos devastadores.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 12-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Como se explicam os "desembarques da morte"?

Eles são o resultado de conflitos e misérias no Sul do mundo. É preciso intervir nas situações de crise e lutar contra os traficantes de seres humanos. Fala-se do holocausto no Mediterrâneo (35 mil mortes em 15 anos), mas não do holocausto ainda mais aterrorizante no deserto. Por isso, eu fiz uma série de viagens à África: também sensibilizar a população para não correr riscos no deserto e no mar. Há situações dramáticas como a dos refugiados eritreus que, através do Sinai, tentam alcançar Israel.

Em quais países você alertou os africanos contra as "viagens da esperança"?

Burkina Faso, Guiné, Costa do Marfim, Etiópia, Senegal. Lá, tanto como ministro e como um amigo desses países, falei à opinião pública sobre o risco das travessias do Saara e do Mediterrâneo. A próxima etapa será a região dos Grandes Lagos: Ruanda, Burundi, Kivu. A Europa se considera empobrecida, sem meios e incapaz de agir no mundo, mas não devemos nos acostumar com os cadáveres nas docas. A imigração não é só um problema europeu. O continente negro está dominado por fluxos rumo à África do Sul.

De quem é a culpa?

Falta uma visão geopolítica para se colocar o papel dos países europeus: a globalização faz com que tudo viva de modo descontínuo. Temos diante de nós homens, mulheres e crianças: não façamos deles monstros, nem nos tornemos monstros para eles. A Europa não pode resolver sozinha todos os problemas, mas também não pode se fechar na irrelevância. Significativamente, Francisco, em Lampedusa, denunciou a crueldade daqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconômicas que abrem o caminho para as tragédias dos desembarques.

O que a Itália deve fazer?

Envolver as instituições europeias e os outros países. Lampedusa deve ser considerada a porta da Europa. Até agora, apesar da coragem dos lampedusanos, fez-se pouco nessa ilha. É preciso concentrar aqui o esforço europeu. A Itália deve combater os mercadores da imigração clandestina, favorecer uma imigração legal e promover a integração dos imigrantes e a cooperação na África.

É um alerta vermelho?

No passado, enfrentamos situações mais pesadas. Em março de 1991, chegaram 28 mil albaneses e, em agosto, outros 20 mil. Em 1992, a guerra na Somália trouxe 12 mil somalis. Entre 1992 e 1996, chegaram 80 mil ex-iugoslavos. Em 1999, mais de 30 mil kosovares. Em 2000, quase 30 mil refugiados, especialmente curdos iraquianos. Hoje, eles vivem e trabalham conosco. Temos uma plateia de imigrantes que se estabiliza. Deve ser superada uma visão emergencial: é preciso um salto de compreensão do fenômeno.

Há uma transferência de responsabilidades com a Europa?

É necessária uma política europeia da imigração. Ao invés disso, os governos europeus não querem dar as mãos sobre esse tema que faz perder e ganhar consensos. Não é possível continuar usando a emergência dos imigrantes para fins eleitorais. É preciso explicar às pessoas, honestamente, que essa é uma realidade com a qual devemos lidar nos próximos anos. O passado pode ser útil. Podemos retomar experiências como a operação Pellicano de 1991, depois dos desembarques dos albaneses, isto é, o substancioso plano de ajuda do governo italiano com relação à Albânia.

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