A ciência a partir de uma perspectiva socioantropológica. Entrevista especial com Rodrigo Ciconet Dornelles

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22 Agosto 2013

“As perspectivas socioantropológicas que têm a ciência como objeto de estudo, de forma geral, visam considerar o conhecimento científico a partir das práticas, comportamentos e ações concretos dos cientistas em cada situação, em cada laboratório, em cada instrumento, abandonando a distinção entre conteúdo e contexto e descolando o foco da abordagem sociológica da ciência para a descrição minimalista da pesquisa científica”, diz o antropólogo.

          Foto de info.abril.com.br

Confira a entrevista.

Um ramo da Antropologia que estuda o “fazer” científico, a “Antropologia da Ciência é uma das áreas de estudos mais prementes dos últimos 20 anos”, diz o antropólogo Rodrigo Ciconet Dornelles à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail. Segundo ele, a Antropologia “passou a dirigir seu olhar não somente para as outras sociedades e para os espaços não-hegemônicos da sociedade ocidental, mas também para os espaços em que decisões centrais de nossa sociedade são tomadas”. Nesse contexto, assinala, a Antropologia da Ciência se insere nas modificações “geopolíticas, culturais, econômicas e intelectuais - que colocaram em questão a hegemonia - política e epistemológica - da ciência ocidental moderna”.

De acordo com Dornelles, os Science and Techonology Studies – STS, dedicados a essa área do conhecimento, têm como “principal preocupação (...) descrever rotinas, materiais e técnicas da ciência, atribuindo ao laboratório um papel-chave no entendimento da construção e da legitimação do conhecimento científico”. A metodologia utilizada, conhecida como ANT (sigla em inglês para o termo Teoria Ator-Rede), considera “o conhecimento científico a partir das práticas” e “propugna percorrer a rede de relações que liga os diversos elementos envolvidos no processo de produção do conhecimento científico”. Percorrendo tais redes, aponta, “eles pretendem explicar a solidez do conhecimento científico por meio dos elementos que ela mobiliza e associa: a competência técnica dos cientistas que produziram o fato, a credibilidade dos instrumentos utilizados, a quantidade de fatos presentes na literatura e o interesse que manifestam as instâncias reais ou potenciais que se relacionam com a ciência”.

De acordo com o pesquisador, a metodologia ainda “coloca em cena uma questão relativamente recentemente no debate teórico-conceitual nas ciências sociais, que é a da agência dos não-humanos. Esta proposição está diretamente vinculada à proposta de se analisar a ciência enquanto uma rede que articula uma infinidade de atores, pois a ideia de que os não-humanos também têm agência recoloca o debate em torno da centralidade dos instrumentos, máquinas e reagentes químicos na prática científica”.

Rodrigo Ciconet Dornelles abordará este tema na próxima quinta-feira, às 17h30, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, com a palestra intitulada Entre amostras e cientistas: a genética desde uma perspectiva socioantropológica. Dornelles é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da mesma universidade.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Do que trata, exatamente, a antropologia da ciência?

Rodrigo Ciconet Dornelles - A Antropologia da Ciência é uma das áreas de estudos mais prementes da Antropologia, ao menos nos últimos 20 anos. No contexto acadêmico brasileiro, sobretudo a partir dos anos 2000, grupos de pesquisa e redes de pesquisadores têm sido formados. Contudo, ainda parecem ser poucos os estudos nesse campo que têm abordado a ciência em seu espaço mais imediato, o laboratório, especialmente a partir de uma abordagem etnográfica.

A Antropologia Social é uma disciplina científica que é (ou por muito tempo foi) comumente identificada como aquela dentre as Ciências Sociais que se ocuparia - ou deveria se ocupar - das sociedades ditas tradicionais. Contudo, esse cenário acabou se transformando especialmente no último quarto do século XX. Nesse período, a disciplina começou a invadir os centros urbanos das grandes cidades a fim de se debruçar sobre temáticas e contextos classicamente explorados pelos sociólogos.

É nesse contexto, de “volta para casa”, que a antropologia passou a dirigir seu olhar não somente para as outras sociedades e para os espaços não-hegemônicos da sociedade ocidental, mas também para os espaços em que decisões centrais de nossa sociedade são tomadas. Assim, os guetos, por assim dizer, começaram a compartilhar a condição de locais de estudo dos antropólogos com outros espaços, como os tribunais e os laboratórios. De forma que, como a respeitada antropóloga e feminista Sarah Franklin, os chamados Science and Techonology Studies - STS, do qual a Antropologia da Ciência é parte, se inserem em um contexto de modificações - geopolíticas, culturais, econômicas e intelectuais - que colocaram em questão a hegemonia - política e epistemológica - da ciência ocidental moderna.

Dessa forma, é na constituição dos chamados STS que este giro conceitual se realiza de fato, a partir do final dos anos 1960 e principalmente na década de 1970, influenciados pela principal obra de Thomas Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas”. Essa nova perspectiva vai apresentar uma redefinição do papel do contexto social na explicação do problema do conhecimento, retirando a ênfase dos aspectos internos de constituição da ciência e colocando em relevância o social como uma ferramenta de análise essencial para entender esse objeto sociologicamente. É um movimento em direção ao contexto da produção científica.

Nesse período, diversas correntes de pensamento começam a surgir com uma postura autocrítica, enfrentando, entre outras questões, a inibição do pensamento sociológico sobre o conhecimento científico frente às chamadas ciências naturais. Com isso, surge uma postura que procura mostrar que as ciências naturais não estão isentas dos mesmos impasses que marcam as Ciências Sociais. As ciências, “sociais” ou “naturais”, e seus produtos, deixam de ser concebidos, então, como resultado de um processo cognitivo extraordinário, como um fenômeno associal e passam a ser vistos, acima de tudo, como uma prática social.

Resumidamente, as perspectivas socioantropológicas que têm a ciência como objeto de estudo, de forma geral, visam considerar o conhecimento científico a partir das práticas, comportamentos e ações concretos dos cientistas em cada situação, em cada laboratório, em cada instrumento, abandonando a distinção entre conteúdo e contexto e descolando o foco da abordagem sociológica da ciência para a descrição minimalista da pesquisa científica. Descrever o conhecimento científico é percorrer a rede de relações que ligam o objeto/fato científico ao mundo, ou seja, observar as condições que devem ser reunidas antes mesmo que a investigação científica propriamente dita possa ser realizada.

IHU On-Line - Que relações podemos estabelecer entre essas práticas e o conceito de “ator rede” de Bruno Latour? Em que medida esta abordagem ajuda na pesquisa?

Rodrigo Ciconet Dornelles - Cabe pontuar, em primeiro lugar, que Bruno Latour é parte de um contexto de reflexão sociológica sobre o conhecimento científico. Pode-se dizer que a tal tradição é inaugurada, de alguma forma, pelo movimento que ficou conhecido como Programa Forte, que se debruça sobre as questões sociais da ciência, os determinantes sociais do conteúdo do conhecimento científico numa perspectiva macrossociológica. Esse movimento é uma primeira reação às restrições impostas pela abordagem tradicional dos estudos filosóficos e sociológicos sobre a ciência, sobretudo a tradição estabelecida pelo programa mertoniano, na qual o conhecimento científico é tratado como uma “caixa preta”. Em linhas gerais, o Programa Forte efetua, portanto, entre as décadas de 1970 e 1980, uma redefinição do papel dos fatores sociais e, consequentemente, do contexto social na explicação do problema do conhecimento.

Latour, aliado a outros pensadores como o também francês Michel Callon e o britânico John Law, apesar de produzirem uma visão crítica com relação aos fundamentos do Programa Forte, são seus herdeiros. Mas é com eles que os STS acabam se aproximando de vez da antropologia, e dos laboratórios. Pois, a principal preocupação deles é descrever rotinas, materiais e técnicas da ciência, atribuindo ao laboratório um papel-chave no entendimento da construção e da legitimação do conhecimento científico. Nesse sentido, pode-se afirmar que sua abordagem metodológica, a ANT (sigla em inglês para o termo Teoria Ator-Rede), se distancia das propostas sociológicas clássicas.

As propostas da ANT visam considerar o conhecimento científico a partir das práticas; de modo que, a ideia da ANT, quando utiliza o termo ator-rede para pensar a ciência, propugna percorrer a rede de relações que liga os diversos elementos envolvidos no processo de produção do conhecimento científico. Percorrendo tais redes, eles pretendem explicar a solidez do conhecimento científico por meio dos elementos que ela mobiliza e associa: a competência técnica dos cientistas que produziram o fato, a credibilidade dos instrumentos utilizados, a quantidade de fatos presentes na literatura e o interesse que manifestam as instâncias reais ou potenciais que se relacionam com a ciência. Assim, uma teoria será mais ou menos verdadeira de acordo com a quantidade e a qualidade de agentes que ela conseguir articular.

Cabe ressaltar que as proposições de Latour, bem como de Callon e Law, não pressupõem um fechamento no universo do laboratório, pois consideram, a princípio, todos os elementos e cenários aos quais os cientistas se conectam. Sendo assim, é uma abordagem que pretende transcender o espaço de produção, por excelência, do conhecimento científico, que é o laboratório, tentando dar conta, antes de tudo, das inúmeras articulações que são estabelecidas por aqueles que fazem as ciências.

Além disso, a ANT coloca em cena uma questão relativamente recentemente no debate teórico-conceitual nas ciências sociais, que é a da agência dos não-humanos. Esta proposição está diretamente vinculada à proposta de se analisar a ciência enquanto uma rede que articula uma infinidade de atores, pois a ideia de que os não-humanos também têm agência recoloca o debate em torno da centralidade dos instrumentos, máquinas e reagentes químicos na prática científica.

IHU On-Line - Como podemos pensar a realização do trabalho dos cientistas - o “fazer científico”, neste caso específico os geneticistas - a partir de uma perspectiva antropológica?

Rodrigo Ciconet Dornelles - A antropologia possibilita, em termos metodológicos e conceituais, que se direcione uma infinidade de olhares ao fazer científico. Isso significa que não existe uma antropologia, mas antropologias, no plural. Podemos dizer que os antropólogos que estudam a ciência têm como possibilidade abordarem desde aspectos mais amplos - que poderíamos chamar de contextuais, como as associações e as instituições profissionais que congregam os cientistas, os congressos frequentados por eles - até os aspectos mais ordinários do fazer científico - o cotidiano de pesquisa, entre instrumentos, laboratórios, artigos.

Para ser mais inteligível, permito-me explicar as pesquisas que realizei entre os anos de 2009 e 2012 em um laboratório de genética de populações, as quais resultaram em minha monografia de conclusão de curso de graduação em Ciências Sociais e minha dissertação em Antropologia Social. Em um primeiro momento, realizei algumas incursões no laboratório para tentar entender e explicar por que geneticistas daquele laboratório se intitulavam antropólogos biológicos, uma vez que na academia brasileira a antropologia existe somente - ao menos institucionalmente - como uma ciência social. O principal argumento desenvolvido foi no sentido de que isso era possível graças às redes e coletivos de pesquisa internacionais aos quais eles estavam vinculados.

Como um desdobramento, lancei luz sobre as práticas cotidianas de pesquisa, acompanhando os principais momentos de produção de uma pesquisa científica. Estrategicamente fiz uma delimitação que ajudou a dirigir meu olhar. Ao me interar da participação dos pesquisadores do laboratório em um consórcio internacional, que reunia outros coletivos e pesquisadores de diversos países, sobretudo da América Latina, abordei as escolhas práticas e conceituais desses geneticistas.

Quer dizer, desde uma perspectiva antropológica, é possível dar conta desde questões mais ordinárias da pesquisa científica, como as práticas levadas a cabo nos laboratórios em que são realizados os experimentos e as interações que acontecem nos escritórios, quando, por exemplo, são escritos os artigos e são realizados os contatos com os demais geneticistas e outros sujeitos que perpassam o cotidiano deles. Ao mesmo tempo, a antropologia fornece instrumentos para que abordemos as associações mais amplas e mesmo que se faça uma pesquisa com documentos.

IHU On-Line - É possível perceber ingerências e, por exemplo, embates de classes no trabalho de coleta de dados dos cientistas que o senhor pesquisa?

Rodrigo Ciconet Dornelles - No que diz respeito às pesquisas levadas a cabo pelos integrantes do laboratório em que pesquisei, eu não acompanhei mais diretamente os momentos de coleta de material genético. Na verdade, em função da negociação que estabeleci com a coordenadora do laboratório que também é a responsável local pelo consórcio que serviu como pano de fundo para minha etnografia, não abordei tanto a relação entre pesquisadores e pesquisados.

De qualquer forma, o que pude observar foi uma autonomia bastante grande por parte dos pesquisados, já que as coletas eram realizadas com pessoas que tinham interesse nos dados que seriam produzidos pelos pesquisadores e que, assim, se voluntariavam para participar da amostra. Isto acontecia porque o consórcio em questão tinha como objetivo dar conta da diversidade étnico-racial no continente latino-americano e, para isso, fornecia um retrato da ancestralidade genética aos voluntários. O que observei é que muitos dos voluntários eram estudantes e professores da universidade em que está localizado o laboratório, o que implicava em situações interessantes, já que alguns cientistas que integravam o consórcio e o laboratório também formaram parte da amostra.

Em função disso, parece-me que termos como “embates de classe” não são os mais apropriados para descrever a relação entre cientistas e seus sujeitos de pesquisa, porque não conseguem mostrar o quanto é complexa a relação entre eles. Quando uma pessoa é, ao mesmo tempo, pesquisador e pesquisado, a situação se mostra menos dicotômica do que poderíamos supor a priori. E mesmo mais interessante de um ponto de vista antropológico.

Como pontuei anteriormente, essa relação não foi algo que pude abordar de forma mais atenta e estruturada em minha pesquisa, mas essa me parece uma questão fundamental. Podemos pensar em certo constrangimento por parte de alguns voluntários em participar, mas devido à heterogeneidade da população pesquisada pelo consórcio, é difícil determinar algo como um “embate de classe”.

IHU On-Line - Que aspectos éticos estão imbricados nas relações entre cientistas e pesquisados e como cada um exerce o “seu papel”?

Rodrigo Ciconet Dornelles - As pesquisas em genética no Brasil há algum tempo obedecem a uma normatização estabelecida com a criação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP criada em 1996, com a função de implementar as normas e diretrizes regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, além de avaliar e acompanhar os protocolos de pesquisa em áreas como a genética. Essa regulamentação ajudou a garantir certos direitos aos sujeitos de pesquisa e a instituir certas práticas que não eram correntes antes disso. Um exemplo claro disso foi a instituição de documentos como o “termo de consentimento livre e esclarecido”, no qual constam as principais informações do projeto e que cumpre o papel de informar os direitos dos voluntários.

Mesmo assim, podemos perceber, muitas vezes, certa distância entre o que determina a norma e a prática científica diária. O que observei no laboratório em que etnografei foi uma atenção bastante grande com relação às demandas dos voluntários, além de uma disponibilidade para esclarecer eventuais dúvidas. Nesse sentido, o que me parece mais importante não é tanto o que determina a norma – apesar de ser esta ser bastante importante –, mas como são estabelecidas as relações entre cientistas e pesquisados no momento da coleta de dados e nos seus possíveis desdobramentos.

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