Pepe, o padre “vileiro” da Argentina

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Por: André | 13 Agosto 2013

O trabalho de Silvina Premat, autora de “Pepe, o padre da vila”, foi interrompido imprevistamente pelos clamorosos fatos: a renúncia de Bento XVI e a eleição de Bergolgio, “com quem conversou duas vezes sobre o padre Di Paola”. Naturalmente, as afirmações de Bergoglio sobre o “padre vileiro”, estão refletidas na biografia. “Cinco meses depois ainda tenho dificuldades para acreditar”, confia a jornalista do jornal argentino La Nación, que destaca outra coincidência. “Bergoglio escolheu o nome do santo de Assis – inspirador da vocação de Di Paola – e começou seu pontificado desejando uma Igreja pobre e para os pobres que saia para buscar os que estão abandonados e sozinhos no meio da miséria material ou existencial. A mudança que o Papa está sugerindo a toda a Igreja tem muito a ver com o modo de ser cristão que o padre Pepe procura viver”, disse a jornalista.

A entrevista é de Alver Metalli e publicada no sítio Vatican Insider, 09-08-2013. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que a moveu a escrever este livro?

Em 2010, escrevi “Padres Vileiros”, sobre a presença da Igreja nas favelas de Buenos Aires. Para esse livro entrevistei cerca de 20 sacerdotes de oito favelas portenhas e fiquei fascinada com tudo o que se vivia na paróquia Virgem de Caacupé, na Villa 21, da qual Di Paola era pároco desde 1977. Para além da grande quantidade de obras que ele havia criado, me provocou curiosidade conhecer o método com que conseguiu transmitir a fé para milhares de crianças, jovens e adultos e fazer com que recobrem sua dignidade pessoas que pareciam derrotadas pelo abandono, pela miséria e pela violência. No final de 2010, quando ele optou por deixar a “vila” que considerava seu lugar no mundo, devido às novas ameaças que havia recebido, eu me decidi e comecei a pesquisar sobre sua vida.

E qual é esse método?

A obediência e a docilidade à realidade e não às suas ideias ou gostos; a valorização do melhor que cada pessoa pode ter e o convite para colocar essa capacidade/habilidade ou gosto a serviço dos outros. No livro, relato muitos exemplos que evidenciam esta maneira de ser e conduzir. Um deles é o fato que deu origem a um dos lares para homens sozinhos: ter encontrado dormindo na soleira da igreja três homens alcoolizados uma noite de frio e chuva. Nesse dia e nos dias seguintes o padre Pepe permitiu que os homens dormissem dentro do templo. Depois, rezando de joelhos diante do sacrário perguntou ao Senhor o que fazer com esses homens, onde abrigá-los ou onde alojá-los... A partir dali foi se configurando o Lar Casa Virgem de Itatí, dentro da Villa 21, uma das numerosas obras do padre Pepe que ainda hoje funciona.

O que lhe impacta na experiência de Di Paola?

A normalidade com que vive sua humanidade e a convicção e naturalidade com que vive sua fé. Não assume uma postura de pose. Entre as centenas de pessoas que entrevistei para sua biografia muitas me disseram a mesma coisa: “Quando não está celebrando missa o Pepe não parece um sacerdote. Fala com todos, não tem uma linguagem clerical e trata a todos da mesma forma”.

O que é específico, digamos contingente, ligado a uma determinada situação, na missão do padre Pepe e o que há de universal, que tenha validade para todos?

O “universal” nele são as características próprias de um homem de Deus: seu fervor sacerdotal, seu zelo pela “casa” do Senhor e a alegria, evidentemente fruto de uma relação íntima com o Mistério. “Específicas” são as circunstâncias históricas que lhe tocaram viver: aprendeu o serviço e a caridade de seus pais e avós; fascinou-se com a possibilidade de ser um missionário entregue aos mais necessitados quando tinha 15 anos e viu o filme Irmão Sol, Irmã Lua, de Zefirelli, sobre a vida de São Francisco de Assis; duvidou entre sua vocação ao sacerdócio e seu desejo de formar uma família e, por isso, depois de sete anos de sacerdócio, pediu licença, ficou noivo e trabalhou e poucos meses depois voltou a exercer o ministério. Chegou a viver entre os mais pobres a pedido da Igreja e ali parece ter se aproximado da possibilidade de que sua vida coincida com sua missão.

Ficou noivo, e voltou... Contou por que voltou?

Porque se deu conta de que nunca havia deixado de ser sacerdote.

Das ameaças que recebeu em abril de 2009 muito se sabe; a ida para Santiago del Estero alguns anos... o retorno a outra favela do subúrbio de Buenos Aires é outro capítulo, o mais recente. Trata isso em seu livro?

Sim, além de contar sua experiência na Villa 21; sua formação no seminário nos anos em que “explorou” a Teologia da Libertação, e seus primeiros tempos como sacerdote, abordo os dois anos – 2011 e 2012 – que ele considerou um “exílio” em seu próprio país. Nesse tempo trabalhou na área rural no meio do árido monte de Santiago del Estero, no norte da Argentina, e ali sentiu o desejo de retornar às favelas, para estar com os mais desprotegidos. “Pepe. O sacerdote da vila” chega até seus primeiros passos em La Cárcova, a vila onde vive atualmente, no subúrbio bonaerense, a cerca de 30 quilômetros da capital, em uma modesta casinha de madeira construída há alguns anos por religiosos franciscanos que depois deixaram o local.

O padre Pepe é o último elo de uma tradição de compromisso da Igreja argentina com os pobres, com os excluídos, que tem muitos antecedentes: Carlos Mugica, Jorge Vernazza, Hector Botàn, Rodolfo Ricciardelli... O que o padre Pepe acrescenta a esta cadeia? O que há de similar e o que há de diferente em sua presença nas favelas?

A similaridade com os sacerdotes que nos anos 1960 se propuseram a viver e atender a população das favelas portenhas é essa mesma decisão de ser um pobre entre os pobres e ser a voz desses que não têm voz na sociedade que os abandona. Ele e os outros padres “vileiros” de hoje buscam assisti-los e acompanhá-los em suas necessidades espirituais e materiais. O padre Pepe, como coordenador da equipe de padres “vileiros”, ajudou a integrar os católicos que optaram por se dedicar aos mais pobres com os quais trabalham em outros setores sociais sem ideologias nem sectarismos. A amizade e o diálogo permanente com quem era seu bispo, o então cardeal Jorge Bergoglio, foi fundamental para poder concretizar isso.

Falar do padre Pepe é um pouco falar do Papa, não é assim?

Mesmo quando possa parecer um exagero isso é verdade. Conhecer de maneira aprofundada a forma como o padre Pepe viveu e vive seu sacerdócio ajuda a entender o que o Papa está pedindo à Igreja. Por exemplo, Matute, um dos apadrinhados por Di Paola, que aos 20 anos vivia do roubo e do álcool, me disse: “O padre Pepe rompeu os esquemas de uma paróquia porque não é qualquer sacerdote que se interessaria por mim com a trajetória que eu tinha. Ele apostou em mim. Fez o que Jesus disse: veio a um lugar pobre para estar com os mais pobres e lutou pelo mais importante, que não é a pobreza material, mas a espiritual”.

O que o Papa pede à Igreja?

Que seja pobre, que não se feche em si mesma, que vá ao encontro dos necessitados, que ame e não reclame, que não dê como certo que os outros têm fé, mas que a proponha com o exemplo da própria vida e o contágio da alegria que Cristo doa a quem ele escolhe.

O Papa sabe do seu trabalho?

Sim. Durante a pesquisa para este livro falei com o então cardeal Bergoglio sobre as experiências e as trajetórias do padre Pepe em duas oportunidades e suas afirmações podem ser encontradas em diversas partes do livro.

Há herdeiros do padre Pepe?

Por que herdeiros se ainda está trabalhando?

Herdeiros no sentido de pessoas que o seguem, que assumem sua espiritualidade, sua maneira de agir...

Há, sim, muitos sacerdotes que, ao seu lado, se contagiaram com sua entrega total e sua forma de ser sacerdote 24 horas por dia. No livro, conto como vários jovens que chegaram à paróquia de Di Paola como voluntários e hoje são sacerdotes, por exemplo, assim como seu entusiasmo e preocupação com a formação dos seminaristas.

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