Mandato do Vaticano sobre a LCWR é ''inaceitável'', afirma superiora das Irmãs da Misericórdia

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09 Agosto 2013

Um ano e meio depois que o Vaticano ordenou que o principal grupo representante de irmãs católicas dos Estados Unidos se colocasse sob o controle de três bispos norte-americanos, muitas lideranças religiosas femininas ainda consideram "inaceitável" o cumprimento completo da ordem, disse a superiora da maior ordem de irmãs do Hemisfério Ocidental.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 02-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Muitos membros da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) não acham que elas podem dar o controle completo do seu grupo aos bispos, disse a Ir. Pat McDermott, superiora das Irmãs da Misericórdia.

"Eu acho que os pontos de direção para o futuro são inaceitáveis – que os bispos poderiam olhar os nossos materiais, as nossas publicações, direcionar a assembleia", disse McDermott, que, como presidente do Instituto das Irmãs da Misericórdia das Américas, lidera cerca de 4.000 irmãs que atuam nos Estados Unidos e em outros 11 países.

"Essa não é a conferência da qual a maioria das lideranças querem pertencer".

Os comentários de McDermott foram feitos enquanto a LCWR, que representa cerca de 80% das 57 mil irmãs norte-americanas, está se preparando para a sua assembleia anual, que será realizada neste ano entre os dias 13 a 16 de agosto, em Orlando, na Flórida. Cerca de 900 religiosas são esperadas para o encontro.

Quem irá discursar para elas será o arcebispo de Seattle, Dom J. Peter Sartain. Um ano e meio atrás, o Vaticano nomeou Sartain como "arcebispo delegado" da LCWR, dando-lhe amplo controle sobre os estatutos e os programas da conferência.

Lideranças da LCWR e de institutos individuais de irmãs norte-americanas expressaram dor e confusão acerca da medida do Vaticano, feita em uma "avaliação doutrinal" publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé.

Enquanto algumas lideranças religiosas inicialmente expressaram a esperança de que o Papa Francisco pudesse adotar uma linha mais suave sobre a situação do que o Papa Bento XVI, uma declaração da Congregação doutrinal de abril disse que Francisco reafirmava "as conclusões da avaliação e o programa de reforma".

Em sua entrevista, McDermott disse que ela e outras lideranças religiosas estão à procura de uma "terceira via" para lidar com a medida do Vaticano. Ela também disse que elas estão esperando que o papa leve em consideração um encontro pessoal com as lideranças da LCWR para ouvir as preocupações sobre o assunto, semelhante ao seu encontro com os membros da Conferência Latino-Americana de Religiosos (Clar) em junho.

"Eu acho que é uma expectativa justa da nossa parte", disse McDermott.

"Parece razoável, e eu acho que seria um passo positivo, não apenas para a LCWR e para as religiosas, mas também para a nossa Igreja se ele se sentasse conosco e apenas ouvisse a experiência da avaliação doutrinal e o que ela tem significado para nós".

McDermott também mencionou as conversas que ela teve com lideranças religiosas femininas mundiais sobre a questão da LCWR durante a sua participação em Roma, em maio, da assembleia da União Internacional das Superioras Gerais (UISG), uma organização de cerca de 1.800 lideranças de congregações religiosas femininas de todo o mundo.

Eis a entrevista.

Qual a situação, neste momento, das religiosas e da LCWR? O que vocês estão pensando enquanto se encaminham para a assembleia deste ano?

A LCWR tem feito alguns encontros nos últimos meses. Eu estava em um encontro regional justamente na semana passada, na região de Baltimore. Eu acho que é muito amplo tentar estabelecer onde os membros se situam, em geral. Eu acho que o que eu ouvi muito fortemente é que as pessoas querem encerrar tudo isso. Mas como fazer isso com a integridade que a LCWR detém – esse é o desafio ainda em andamento. O mandato tem tomado uma enorme quantidade de energia – certamente das presidentes e das lideranças do escritório em Silver Spring. E eu acho que as pessoas questionam como poderemos manter esse tipo de atenção constante a isso.

Eu acho que há uma forma pela qual eu espero que possamos colocar tudo isso na sua posição correta. Eu não acho que será resolvido nesta assembleia. Eu acho que podemos continuar dando direção às lideranças no sentido de que os princípios que nós queremos – diálogo honesto e aberto, responsabilidade mútua, fidelidade à nossa missão – nós os queremos confirmados. Então, como você pode fazer isso e levar a avaliação doutrinal ao seu fim?

Eu acho que uma das oportunidades desta assembleia é envolver o arcebispo Sartain. Esse é um fator-chave. E eu acho, no entanto, que o que ele apresentar – e, especialmente, porém, ele apresenta o que ele aprendeu este ano no envolvimento com as lideranças da LCWR – será crucial. Estou muito interessada em ouvi-lo e em ouvir o que ele aprendeu. Qual é a percepção dele sobre a LCWR neste momento? Como ele vê a nossa fidelidade à nossa missão? Eu sei que se trata de um processo de cinco anos, mas não podem ser cinco anos desse tipo de energia intensa. Eu não acho que isso esteja a serviço da nossa missão.

Ao sair daquele encontro em Baltimore, você sentiu que havia uma necessidade, de alguma forma, de encerrar isso – mesmo que seja um mandato de cinco anos?

Certamente esse um forte sentimento comum nas lideranças que estiveram presentes lá. Mas não se trata de encerrar isso, mas sim de encerrar com integridade. E eu acho que uma das incógnitas nisso é o Papa Francisco. Ele será uma pessoa que irá acolher o diálogo? Ele estará disposto a se sentar com as lideranças da LCWR? Eu acho que essa é uma expectativa justa da nossa parte – que ele, sim, o faria. Ele fez isso com a Clar há alguns meses. E isso parece razoável, e eu acho que seria um passo positivo, não apenas para a LCWR e para as religiosas, mas também para a nossa Igreja que ele se sentasse conosco e apenas ouvisse a experiência da avaliação doutrinal e o que ela tem significado para nós. E por que ela continua sendo um documento que não é fiel à nossa experiência.

Você disse que quer saber como o arcebispo Sartain vê a LCWR. Entre as suas irmãs ou as lideranças da LCWR com quem você fala, o que vocês querem que ele saiba sobre vocês? Como vocês querem que seja esse momento com ele?

Bem, certamente eu espero que seja um momento mútuo, em que ele apresente as suas observações, a sua aprendizagem a partir deste ano de – eu presumo – conversas intensas com as lideranças da LCWR. Eu presumo também que ele irá receber de nós as nossas observações sobre a forma como temos tentado ser fiéis à vida religiosa. Sobre a forma como vivemos o espírito do Evangelho e, certamente, os princípios do Vaticano II.

Sobre a forma como temos tentado renovar a vida religiosa à luz do que a nossa Igreja pediu de nós a partir do Vaticano II. Eu acho que ele receberia uma mensagem muito consistente de nós, se isso faz parte do diálogo: de que temos sido fiéis, de que temos tentado, à luz do que a nossa Igreja nos pediu no Vaticano II, nos renovarmos. E sermos fiéis não apenas às doutrinas e aos princípios da Igreja, mas fiéis à nossa própria experiência sobre o que aprendemos sobre a vida religiosa, sobre o que aprendemos sobre as necessidades do mundo. E que estamos nos engajando com essas necessidades do mundo a partir da perspectiva de sermos mulheres da Igreja – fiéis ao Evangelho, fiéis à Igreja.

Eu não posso imaginar que as lideranças da Congregação na assembleia da LCWR diriam outra coisa, a não ser isso. Tentar apenas explicar e realçar para ele como tem sido a nossa experiência. E essa tem sido uma experiência de fidelidade, tem sido uma experiência de riqueza da nossa parceria com as lideranças da Igreja, com os nossos irmãos e irmãs leigos. Tem sido uma jornada muito rica de renovação em que nos encontramos mais vivas, mais vibrantes, mais atentas ao Evangelho, mais engajadas com as necessidades das pessoas e as necessidades do mundo, mais em parceria com a nossa Igreja.

Essa é a nossa história. E tem sido uma história maravilhosa. E eu acho que as lideranças da Congregação são pessoas que amam a vida religiosa. E eles amam a missão com a qual eles são abençoados, e eles amam o privilégio e a oportunidade de liderar essa missão com fidelidade. Eu só espero que possa ser esse tipo de momento de engajamento, em que ele [o arcebispo] vem com o seu aprendizado, mas também recebe de nós a energia e o compromisso que temos.

Vocês já sabem se ele vai responder a perguntas ou como isso pode funcionar?

Eu não sei. Eu acho que é um momento tanto da sua apresentação, quanto de engajamento.

Eu sei que as presidentes da LCWR se reuniram com os três bispos norte-americanos depois da última assembleia. Você ouviu alguma coisa sobre quando foi a última vez que eles se encontraram ou sobre o que está acontecendo?

Nós recebemos uma atualização, mas foi uma atualização verbal e bastante geral. Mas os tons foram muito positivos. Eu não posso entrar em detalhes, mas, pelo tom do engajamento da presidência com o arcebispo Sartain e os bispos, parece que este último encontro foi uma experiência muito positiva. O que isso significa, eu realmente não sei.

Você disse que uma coisa que continua vindo à tona é como ou se a LCWR pode continuar dedicando energia para isso.

O tipo de energia, eu acho. É uma grande agenda para nós e é importante. Precisamos permanecer nela até que, esperançosamente, a resolução seja positiva, mutuamente para a nossa Igreja, assim como para nós mesmas. E que seja marcada pelas características da conversa honesta e aberta e por um senso de mutualidade.

Mas eu acho que é um fardo pesado para a presidência. É um fardo pesado para a Conferência. E ainda vivemos na sombra de que essa era uma avaliação doutrinal imprecisa. Ela não disse toda a verdade. Assim, os pontos de desacordo, que eu saiba, ainda não foram resolvidos definitivamente. E isso precisa acontecer. E eu acho que os pontos de direção para o futuro são inaceitáveis – de que os bispos olhariam os nossos materiais, as nossas publicações, direcionando a assembleia. Essa não é uma conferência da qual a maioria das lideranças gostaria de pertencer.

As lideranças da LCWR têm sido fiéis. Elas realmente trabalharam junto com a Igreja, elas atualizaram a Congregação para a Doutrina da Fé e os diferentes dicastérios em Roma anualmente. Não é que as comunicações não tenham ocorrido, mas os julgamentos não foram os esperados. E os resultados desses julgamentos não são os tipos de práticas sobre as quais a avaliação doutrinal fala. Eles não são razoáveis. Então, em algum lugar, eu acho que existe a esperança de que haja um caminho do meio em que o arcebispo Sartain, com as nossas presidentes e a Janet Mock [irmã de São José e diretora executiva da LCWR] irão encontrar um caminho que realmente tenha integridade – certamente para a nossa Igreja, mas principalmente para a LCWR.

Mas você acha inaceitável a atual situação de ter bispos revisando e supervisionando?

Sim.

É algo que muitas irmãs ainda estão dizendo?

Ah, absolutamente. Esse não é um caminho que nós achamos que seja o nosso futuro.

Então, está é a questão: como responder a isso ou como trabalhar em algum tipo de compromisso?

Eu não sei se haverá um compromisso. Eu presumo que o arcebispo Sartain e os outros bispos, em sua constante conversa com as lideranças da LCWR e conosco na assembleia, podem chegar a uma nova compreensão da avaliação doutrinal em si mesma. Eu mantenho aberta essa possibilidade, porque, se isso não acontecer, eu não sei qual engajamento poderá haver no futuro. Eu acho que sempre há uma terceira via, e essa via ainda não é conhecida, mas eu acho que é uma via que pode ser mutuamente satisfatória.

E poderia ser ajudada se o Papa Francisco estivesse disposto a se sentar com as lideranças da LCWR e ouvir as preocupações e as imprecisões que foram feitas na avaliação doutrinal. Essa história precisa ser contada, e as lideranças da nossa Igreja precisa acolhê-la. Se eles vão concordar com ela, eu não sei. Mas eles precisam acolhê-la. E eu não sei se, no engajamento com o arcebispo Sartain, essa história foi contada e acolhida.

Isso foi algo que outra irmã com quem eu falei me disse. A primeira coisa que precisa ser dita na assembleia, durante o momento com o arcebispo Sartain – antes que alguém comece com as questões mais profundas –, é que a avaliação é incorreta e que as irmãs devem pedir que o arcebispo explique o que aconteceu, ou como os investigadores chegaram às suas conclusões.

Isso é absolutamente verdade. Essa não é apenas uma pedra de tropeço. Isso é algo que absolutamente tem que acontecer. Precisamos ouvir do arcebispo Sartain como ele vê isso. Eu não sei se as conversas durante o ano passado foram significativas o suficiente a ponto de ele ter a oportunidade de repassar a avaliação doutrinal com as lideranças para que elas apresentassem por que essas imprecisões são tão perturbadoras para nós.

Você estava no encontro mundial de irmãs com a UISG este ano. A partir da perspectiva do encontro com essas irmãs de todo o mundo, o que você traz para a LCWR? Como você vê isso em uma perspectiva global agora?

Eu acho que o encontro me disse que as lideranças da Congregação em todo o nosso globo estão sendo tensionadas por algumas das mesmas questões. E nós queremos ser um recurso uns para os outros, mas eu não acho que nós temos os âmbitos propícios. É uma tarefa assustadora descobrir como isso pode acontecer.

Mas muitas das nossas congregações são internacionais e, por isso, elas estão encontrando formas de compartilhar a história da LCWR em todo o mundo. Certamente, a [irmã franciscana] Pat Farrell e a [irmã franciscana] Florence Deacon [respectivamente, ex e atual presidentes da LCWR] tiveram inúmeras oportunidades no ano passado para visitar outros países e, eu acho, encontrar um ambiente acolhedor. Não tanto sobre a história da LCWR, mas sim sobre a mesma jornada de renovação desde o Vaticano II.

Muitos de nós, como religiosas, religiosos, padres e os nossos irmãos e irmãs leigos, entramos nessa jornada juntos, e isso nos levou a novas compreensões e novas formas de ser Igreja. Eu acho que esse é o ponto de interseção para a LCWR com as lideranças religiosas femininas globais. É esse novo senso de identidade como Igreja. Onde estão os bolsões de esperança e os bolsões de frustração com relação a isso? E como podemos nos ajudar uns aos outros?

Quando você estava falando em Roma com as outras lideranças ou na sua própria ordem, as pessoas expressaram medo com relação ao que isso significa para as religiosas, em nível mundial?

Eu não chamaria de medo. Eu acho que é uma preocupação. Há uma preocupação de que, como Igreja, não estamos lidando bem com o diálogo. Um dos princípios que surgiu na assembleia da LCWR do ano passado foi que iríamos manter conversas entre nós mesmas que seriam reflexo do tipo de conversas que toda a nossa Igreja deveria ter – que pudéssemos abordar questões morais, éticas, teológicas em um diálogo honesto umas com as outras, de uma forma que toda a nossa Igreja deveria fazer.

No fim, para mim, não se trata tanto de saber se a doutrina vai mudar – e, talvez, ela irá. Mas sim de atitudes. Trata-se do seguinte: podemos ter conversas uns com os outros que sejam ricas e que se estendam sobre o que está acontecendo no nosso mundo? No fim das contas, é disso que se trata a vida religiosa. Trata-se de atender às necessidades do nosso mundo. Como fazemos isso com integridade? Como fazemos isso com novos entendimentos de como a mensagem do Evangelho pode estar presente nas necessidades mais sérias do nosso mundo?

Essa é a linha de fundo. A nossa Igreja é um lugar para isso. A vida religiosa é um lugar para isso. Esse é o coração da missão em que estamos: como nos engajamos com as necessidades do mundo? Como a nossa relação com a Igreja irá nos ajudar nisso? E onde estarão as pedras de tropeço? Como vamos negociá-las através da mutualidade e de uma boa conversa?