''Papa Francisco, venha à Síria trazer a paz'', pede grão-mufti da Síria

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08 Agosto 2013

"Eu gostaria muito de falar com o Papa Francisco, porque ele é um homem do povo e não um homem de poder. Gostaria de exortá-lo, através do seu jornal, a vir aqui à Síria. E também ao Egito, Jordânia e Palestina. Eu gostaria de pedir a ele que se encontre com os muftis muçulmanos, as autoridades cristãs e judaicas, para buscar uma solução para a guerra que nos divide", pede a mais alta autoridade religiosa da Síria.

A reportagem é de Gian Micalessin, publicada no jornal Il Giornale, 05-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Nós, muçulmanos, e vocês, cristãos, construímos mesquitas e igrejas. Mas agora é preciso sair de mesquitas e igrejas para ouvir a voz do povo. Para isso, o Papa Francisco poderia nos ajudar a pôr fim às guerras".

O grão-mufti da Síria, Ahmad Badreddin Hassou, conhece bem a guerra. Ele tem 64 anos, há 13 anos é o grão-mufti da Síria. Há dois anos – depois de declarar seu apoio ao regime – suportou o assassinato do filho de 22 anos, morto a sangue frio por vingança, às portas de Aleppo. No entanto, ele nunca exortou ao ódio ou à vingança.

"Eu sempre expliquei – contra ele nesta entrevista ao Il Giornale – que, se Maomé tivesse pedido para matar, ele não teria sido um Profeta do Senhor. Fui criticado por muitos intelectuais muçulmanos, mas a verdade é essa. O Profeta, aos que lhe pediam para punir os assassinos com a morte, sempre respondeu que Deus é que irá condená-los pelas suas culpas. Por isso, eu perdoei quem matou o meu filho. E peço a todos aqueles que sofrem a mesma tragédia que façam o mesmo".

O grão-mufti é a mais alta autoridade religiosa dos sunitas na Síria. Ele emite pareceres legais e editos, fatwas e interpretações da lei islâmica, se solicitado por indivíduos privados ou pelos juízes no âmbito de um litígio. As opiniões reunidas pelo grão-mufti servem como fonte de informação para a aplicação prática da lei islâmica.

Ahmad Badreddin Hassoun ocupa o cargo desde julho de 2005. Convidado antes da guerra civil a inúmeros encontros inter-religiosos, ele sempre defendeu a necessidade do diálogo entre as fés. Ele também sempre defendeu o regime e repudiou os rebeldes que combatem contra o governo como muçulmanos apoiados e pagos pelo exterior.

Eis a entrevista.

Mas o senhor apoia um governo acusado de massacrar o seu povo...

Se a Síria tivesse feito a paz com Israel hoje ela seria considerada o melhor país do Oriente Médio. Eu sempre repeti aos Estados Unidos e Israel: façam a paz ao invés de contar mentiras.

As acusações também vêm da Europa.

Em 2008, o Parlamento Europeu me convidou para ir a Bruxelas. Quando eu pedi para que enviassem uma delegação para ver o que acontece na Síria, eles me responderam que só virão quando Assad for embora. Como é possível aceitar este diktat de quem está longe e se recusa a ver a verdade? Estou pronto para ir até vocês e encontrar todos os membros da oposição. O grande crime da Europa é cortar os canais diplomáticos com a Síria, esconder a verdadeira imagem desta guerra. O embaixador francês, no início do caos, tentou fazer isso, mas Paris lhe lembrou que ele era embaixador da França, não da Síria.

Por que acreditar nisso?

Vocês viram o que aconteceu no Iraque? Havia um Saddam Hussein, e agora há 30 deles. Na Tunísia, havia um presidente, e agora há o caos. Na Líbia, vocês tiraram Gaddafi, e reencontraram outros 100. O Egito já está fora de controle. Vocês querem que isso aconteça também na Síria? Se aqui surgir um Estado islâmico, a guerra chegará ao coração da Europa.

No Oriente Médio, temem-se novos ataques da Al-Qaeda. Por que tanto ódio contra o Ocidente?

O problema são os Estados Unidos. Olhem as manifestações em favor dos Irmãos Muçulmanos e dos militares no Egito. O ponto comum é o ódio de ambos contra os Estados Unidos. A Al-Qaeda e essas ameaças são as filhas dos mesmos erros. Os Estados Unidos criaram os talibãs, e eles criaram a Al-Qaeda.

Paolo Dall'Oglio, um padre italiano muito conhecido aqui na Síria, também acabou entre as garras da Al-Qaeda.

Eu espero que ele volte vivo para a Itália. Eu o conheço bem o Paolo. Ele entrou em apuros porque se lançou para uma terra sem leis. Deus ensina a entrar nas casas pela porta. Ele entrou por trás. Quando chegou à Síria, eu o acolhi como um irmão, não como um estrangeiro. Eu o defendi contra as acusações da própria Igreja Católica síria. Mas quando o vi caminhando com os rebeldes, entendi que ele não tinha uma verdadeira vocação de paz. Eu sinto muita angústia pelo destino do bispo sírio Yohanna Ibrahim e do bispo grego ortodoxo Boulos Yazij, sequestrados pela Al-Qaeda em abril. Eles realmente buscavam a reconciliação.

Na Síria, também desapareceu o jornalista Domenico Quirico, que entrou no país com os rebeldes.

Essas coisas acontecem porque os meios de informação de vocês se deixam induzir pela propaganda.

Da Europa, partiram 600 voluntários muçulmanos que vieram para combater contra o regime que o senhor defende.

Eu sei. E sei que, entre eles, também havia um jovem italiano que morreu por estas bandas. A todos esses muçulmanos eu gostaria de dizer que não vendam as suas mentes. A nossa religião ensina a paz, não a guerra. A esses jovens, eu peço que estudem bem o Alcorão e não acreditem em quem os exorta a combater no exterior. Um bom muçulmano viaja para construir a paz, não para combater.

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