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Por: André | 02 Agosto 2013

No Brasil, embora entre luzes e sombras, o Papa Francisco deu um formidável impulso missionário à Igreja. Mas no Vaticano encontra todos os obstáculos de antes, vindos da cúria ou dos lobbies. À vista uma “solução Ratzinger” para a comunhão dos divorciados em segunda união.

 
Fonte: http://bit.ly/18VY2YC  

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa.it, 31-07-2013. A tradução é de André Langer.

Sabiamente, o Papa Francisco deixou a conversa com os jornalistas para o final da viagem, no voo já de volta a Roma.

Se a tivesse feito no voo de ida, temas como os lobbies, os gays, os divorciados, a cúria e o IOR teriam inexoravelmente monopolizado a atenção dos meios de comunicação. Dessa maneira, assim que aterrissou no Rio, a primeira coisa à qual puderam se dedicar foi ao veículo do Papa, que acabou erradamente em um engarrafamento de trânsito e na avalanche de fãs que se submergiam dentro do carro, pois o vidro da janela estava aberto sem que o Papa manifestasse medo.

Do primeiro dia em diante, a cobertura da viagem ao Brasil do Papa Jorge Mário Bergoglio foi um crescendo ininterrupto de sucessos, que culminaram no acontecimento recorde constituído pela vigília e pela Missa na praia de Copacabana. O diretor da reconhecida La Civiltà Cattolica, o jesuíta Antonio Spadaro, declarou ao Corriere della Sera:

“Ver os bispos de todas as idades, provenientes de todas as partes do mundo, participar do ‘flasmob’ do Livro Guiness de recordes foi um momento muito importante porque proporcionou, inclusive visivelmente, a imagem de uma Igreja unida e que age em uníssono”.

Naturalmente, a coreografia da Vigília Eucarística e da Missa papal em Copacabana pode ser lida também em termos diametralmente opostos, como a imagem de uma Igreja decorada com modelos alheios, com o “musical” que se fez irromper no centro mesmo da liturgia, com solistas, coros e ritmos dançantes, típicos do “Gospel” pentecostal. Uma Igreja, que longe de trabalhar na “contracorrente” – como continuamente o Papa exorta que faça –, imita as formas expressivas dos movimentos carismáticos protestantes que, na América Latina e particularmente no Brasil, erodem partes significativas da sua base popular.

É arriscado dizer que o que se inaugura em Copacabana representa o início de um novo curso litúrgico do atual pontificado. Mas a pergunta está colocada sob o olhar do mundo inteiro.

No voo de volta a Roma, Francisco tocou no tema quando disse, a propósito dos movimentos carismáticos presentes também dentro da Igreja católica:

“No final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 eu não tinha nenhuma simpatia por eles. Certa vez eu disse que eles confundem uma celebração litúrgica com uma escola de samba! Depois eu os conheci melhor e mudei de opinião”.

Assim como afirmou o contrário, quando manifestou sua admiração pelas liturgias orientais: “As Igrejas ortodoxas conservaram sua liturgia, que é muito bonita. Nós perdemos um pouco o sentido da adoração”.

Os pontos marcantes

Em todo o caso, os pontos marcantes da viagem de Francisco foram os dois discursos nos quais definiu o caminho que quer fazer percorrer a Igreja da América Latina e do Caribe.

O primeiro, quando se encontrou, no dia 27 de julho, com os bispos brasileiros no arcebispado do Rio de Janeiro. O segundo, quando se encontrou, no dia 28 de julho, com o comitê de coordenação do Conselho Episcopal Latino-Americano.

Especialmente o segundo foi um verdadeiro e autêntico discurso programático, que acabou por imprimir um decisivo giro missionário à ação da Igreja no continente. Um discurso rico em anotações analíticas muito pessoais, além de propositivas. Por exemplo, estas duas definições que Bergoglio gosta de aplicar a duas tendências opostas, uma progressista e outra tradicionalista, presentes na Igreja:

“A proposta gnóstica. Costuma ser encontrada em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por desembarcar em posturas pastorais de ‘quaestiones disputatae’. Foi o primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são denominados de ‘católicos ilustrados’ (por serem atualmente herdeiros da cultura do Iluminismo).”

“A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente sob a forma da restauração. Diante dos males da Igreja, trata-se de buscar uma solução exclusivamente na disciplinar, na restauração de condutas e formas ultrapassadas que, mesmo do ponto de vista cultural, não têm capacidade de existência significativa. Na América Latina, costuma ser encontrada em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências exageradas de ‘segurança’ doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente ela é estática, mesmo que possa prometer-se uma dinâmica ‘ad intra’, que constitui uma regressão. Busca ‘recuperar’ o passado perdido”.

Sobre a Cúria Vaticana

Voltando à coletiva de imprensa no avião, entre as muitas coisas que o Papa Francisco disse em uma hora e vinte minutos de perguntas e respostas, havia uma que dizia respeito à investigação sobre a cúria romana encomendada por Bento XVI aos três cardeais Jozef Tomko, Julián Herranz e Salvatore De Giorgi:

“Quando fui me encontrar com Bento XVI em Castel Gandolfo, vi que sobre a mesinha havia uma caixa e um envelope. Bento XVI me disse que na caixa estavam todos os testemunhos das pessoas ouvidas pela comissão de três cardeais sobre o caso Vatileaks, ao passo que no envelope estavam as conclusões, o resumo final. Bento XVI sabia tudo de memória. É um enorme problema, mas não me assustei”.

Sobre como vê o atual estado de saúde da cúria, o Papa se expressou deste modo: “Creio que a cúria está um pouco empobrecida em relação ao nível que tinha há algum tempo, quando havia alguns velhos curiais fiéis que faziam seu trabalho. Temos necessidade do perfil dos veteranos. Gosto de pessoas que me dizem: ‘não estou de acordo’. Estes são os colaboradores leais. Depois há aqueles que, na tua frente, sempre dizem: ‘Que bonito!’, e depois talvez, quando saem, dizem o contrário”.

Sobre o caso Ricca e o “lobby gay”

Outro bloco de respostas referiu-se ao “lobby gay” no Vaticano e ao caso do monsenhor Battista Ricca, nomeado pelo Papa como prelado do IOR antes que viessem à tona seus antecedentes escandalosos.

Nenhum pré-julgamento contra os homossexuais, mas não ao lobby gay, não é bom. Esta é a síntese do que Francisco disse aos jornalistas.

Em geral, sobre os homossexuais e sobre os lobbies, o Papa se expressou deste modo: “Escreveu-se muito sobre o lobby gay. Até agora, não encontrei no Vaticano quem tenha escrito ‘gay’ em seu documento de identidade. É necessário distinguir entre o ser gay, ter esta tendência, e fazer lobby. Os lobbies, todos os lobbies, não são bons. Se uma pessoa é gay e com boa vontade busca o Senhor, quem sou eu para julgá-lo? O Catecismo da Igreja Católica ensina que não se deve discriminar as pessoas gays, mas que se deve acolhê-las. O problema não é ter esta tendência, o problema é fazer lobby e isto vale para este como para os lobbies de negócios, os lobbies políticos, os lobbies maçônicos”.

Sobre o caso específico de Ricca, disse: “No caso do monsenhor Ricca fiz o que o Direito Canônico indica que se deve fazer: uma investigação prévia. Não se encontrou nada do que está sendo acusado. Não encontramos nada. Muitas vezes na Igreja se busca os pecados da juventude e depois procura-se publicá-los. Não estamos falando de crimes, como os abusos contra menores (que são outra coisa), mas de pecados. Mas se um leigo, sacerdote ou uma religiosa cometeu um pecado e depois se converteu e se confessou, o Senhor perdoa e esquece. Por isso nós não temos o direito de não esquecer, porque, caso contrário, corremos o risco de que o Senhor não se esquece dos nossos pecados. Eu penso tantas vezes em São Pedro, que cometeu o pecado mais grave: renegou Cristo. No entanto, tornou-se Papa. Mas, repito, sobre Mons. Ricca não encontramos nada”.

O Papa Francisco não acrescentou mais nada. Não disse que os fatos atribuídos a Mons. Ricca sejam falsos. Simplesmente disse que sobre esses fatos “não se encontrou nada” na documentação que lhe apresentaram no Vaticano.

Mas dado que – como o Papa sabe bem agora – sobre esses fatos se encontra tudo na documentação da nunciatura pontifícia de Montevidéu, documentação que foi enviada no seu devido tempo também a Roma, a dedução é óbvia: um lobby agiu no Vaticano fazendo desaparecer todas as pistas.

Tampouco o Papa confirmou sua confiança em Mons. Ricca nem declarou o caso encerrado. Pelo contrário. Os “pecados da juventude” podem ser perdoados, disse o Papa. Mas somente a quem os confessa sinceramente e se arrepende, como fez São Pedro. Não a quem fez e fez de tudo para ocultá-los, desfigurá-los, eliminá-los, com o auxílio de um lobby poderoso que até agora não se deu por vencido. Um destes lobbies, o adjetivo não importa, que o Papa Francisco disse uma vez mais que quer extirpá-lo da cúria vaticana.

No último número do L’Espresso, o semanário que revelou o caso, não se havia escrito nada diferente:

“Na Igreja não existe em absoluto uma hostilidade preconcebida contra os homossexuais que vivem em castidade, quer sejam sacerdotes, bispos, cardeais; isto é tão certo que, de maneira pacífica, vários deles ocuparam e ocupam cargos importantes. O que a Igreja não aceita é que pessoas consagradas, que se comprometeram publicamente ao celibato e à castidade ‘para o Reino dos Céus’, traiam esta promessa. Quando a traição é pública, converte-se em escândalo. E para saná-lo a Igreja exige um percurso penitencial, que começa com o arrependimento, não com a falsificação, a ocultação, o engano, pior ainda quando se realiza com a cumplicidade de outros, em um ‘lobby’ de interesses cruzados, lícitos e ilícitos”.

Sobre a comunhão aos divorciados em segunda união

Por último, o tema mais inovador da coletiva de imprensa do Papa Francisco foi o da comunhão aos católicos divorciados e que se casaram novamente:

“É um tema que sempre volta. Creio que este é o tempo da misericórdia. Os divorciados podem receber a comunhão; são os divorciados em segunda união que não podem. É necessário considerar o tema no contexto geral da pastoral matrimonial. Abro um parêntese: os ortodoxos, por exemplo, seguem a teologia da economia e permitem uma segunda união. Meu predecessor em Buenos Aires, o cardeal Quarracino, sempre dizia: ‘Para mim, a metade dos casamentos são nulos, porque se casam sem saber que é para sempre, porque o fazem por conveniência social’. Estes casos não podem ser resolvidos no plano jurídico da nulidade: os tribunais eclesiásticos não são suficientes para isto”.

Ao dizer que este ponto “deve ser examinado a fundo”, o Papa Francisco anunciou que “quando o grupo dos oito cardeais se reunir, nos três primeiros dias de outubro, veremos como avançar na pastoral matrimonial”.

E o mesmo acontecerá no Sínodo dos Bispos: “Há 15 dias me reuni com monsenhor Eterovic, secretário do Sínodo, para escolher o tema da próxima assembleia, que será sobre como a fé ajuda a família”.

Nas palavras do Papa Francisco há uma referência transparente a uma solução posta em prática por seu predecessor, Joseph Ratzinger.

Bento XVI falou disso em um colóquio com os sacerdotes de Aosta, em 2005, durante suas primeiras férias de verão como Papa.

Mas antes também o havia apresentado de maneira profunda em um ensaio de sua autoria redigido em 1998, que foi publicado novamente de forma destacada pelo L’Osservatore Romano de 30 de novembro de 2011.

As inovações projetadas por Bento XVI são duas.

A primeira é a possível ampliação dos reconhecimentos canônicos de nulidade dos matrimônios celebrados “sem fé” por ao menos um dos cônjuges, mas batizado.

A segunda é a possível apelação a uma decisão ‘de foro interno’ de aceder à comunhão, por parte de um católico divorciado e em segunda união, se o fracassado reconhecimento da nulidade de seu casamento anterior (por efeito de uma sentença considerada errônea ou da impossibilidade de provar a nulidade pela via processual) contrasta com sua firme convicção de consciência que esse matrimônio era objetivamente nulo.

Em outro artigo, de 5 de dezembro de 2011, se faz uma minuciosa referência a toda a argumentação de Bento XVI.

O Papa Francisco disse agora que quer levar a bom termo este caminho aberto por seu predecessor.

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