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"Passamos dos meios de massa para a massa de meios"

"Estamos diante da transformação da outrora passiva audiência nas atuais redes ativas de pessoas conectadas 24 horas", diz Rosental Calmon Alves, professor de jornalismo na Universidade do Texas em Austin e diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Americas. Ex-editor do "Jornal do Brasil" na década de 1990, onde criou o primeiro serviço de notícias em tempo real do país, Calmon Alves vê no Mídia Ninja um exemplo do novo tipo de jornalismo baseado na abundância de informação provida na rede.

A entrevista é de Cláudia Schüffner e Guilherme Serodio e publicada pelo jornal Valor, 31-07-2013.

Eis a entrevista.

Qual sua opinião sobre o jornalismo do Midia Ninja?

Nesta nova era em que estamos entrando, qualquer pessoa comete atos de jornalismo. O jornalismo não é mais monopólio de jornalistas. O que estamos vendo é a possibilidade de qualquer pessoa se transformar em mídia, capaz de falar para milhares de outras pessoas, criando audiência e praticamente todas as características do jornalismo. O Midia Ninja é um exemplo de um novo gênero de jornalismo alternativo, militante, radical e inovador que nasce diretamente das facilidades de comunicação oferecidas pelas tecnologias digitais.

É possível falar de obsolescência da mídia?

A velha mídia ficará obsoleta se não acordar para as amplas, profundas e radicais mudanças que estão ocorrendo. Algumas empresas jornalísticas ou mesmo jornalistas entenderão as mudanças e irão prosperar no novo ambiente. Outros resistirão às mudanças, se tornarão obsoletos e morrerão. O jornalismo será bem diferente do que tínhamos antes. Passamos da era dos meios de massa para a era da massa de meios. Mas isso não quer dizer que todos os meios de comunicação são iguais, que uma pessoa que se transforma em meio tenha o mesmo peso dos meios organizados, profissionalizados. Os dois convivem e se complementam.

Na massa de meios, quem filtra e processa a informação?

O contador de histórias sempre foi um especialista, uma função específica em qualquer grupo humano, desde os primórdios da humanidade. Mesmo num ambiente em que qualquer pessoa pode cometer atos de jornalismo, o jornalista profissional, que atua com base em uma metodologia específica, em princípios éticos e deontológicos específicos continuará sendo necessário. Estamos diante da transformação da outrora passiva audiência nas atuais redes de pessoas conectadas 24 horas por dia, mas, em meio à cacofonia criada neste processo, a voz das organizações jornalísticas ainda é importante. Talvez ganhe até mais importância.

O que o Ninja põe em xeque?

O jornalismo tradicional não percebeu ainda que o mundo não se resume às informações processadas, editadas, filtradas. Agora podemos circular com enorme velocidade e a custo quase zero informações brutas, não filtradas, não editadas. Uma coisa não elimina a outra. O novo ecossistema de mídia ainda está em mutação. Mas se o anterior era baseado na escassez de informacoes, o novo se baseia na abundância. Uso a metáfora do deserto, com seus cactus, arbustos secos e poucos animais para definir o ambiente de mídia da era industrial, do quais estamos saindo. E uso a floresta amazônica como a metáfora para explicar o que se está formando depois do dilúvio digital: uma selva úmida, cheia de água, sol e vida, com uma enorme biodiversidade, onde qualquer ser minúsculo tem uma chance de sobreviver.

A prisão de jornalistas do Ninja fere a liberdade de expressão?

Daqui dos Estados Unidos, eu assisti ao vivo a cobertura desse episódio pela própria Midia Ninja. Foi um fenômeno para ser estudado. As câmeras dos telefones celulares do Midia Ninja e de outros cidadãos que transmitiam ao vivo a prisão do colega eram como os olhos virtuais de milhares de pessoas que estavam, como eu, à distância. Quando os celulares mostraram o nome do tenente que prendia o Ninja, muitos da audiência começaram a investigar. Em minutos, no chat ao lado da tela do Twitcasting (serviço na web para transmissão de vídeo ao vivo) começaram a aparecer informações sobre o tenente, inclusive fotos e a página no Facebook.

Nas manifestações a mídia tradicional é hostilizada.

Fico muito preocupado com essa hostilidade, principalmente com os ataques aos jornalistas profissionais. Existe uma paranoia muito grande que leva muita gente a achar que tudo o que a grande midia faz é parte de alguma conspiração, que qualquer erro da imprensa foi proposital e responde a interesses escusos. Essa hostilidade, essa demonização generalizada da imprensa é perigosa e não leva a nada.

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