"Economia do tijolo". Itália investe em grandes obras apesar da recessão

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Por: Darli | 29 Julho 2013

Ao chegar ao pequeno povoado de Giaglione, no Alto Vale de Susa, no noroeste da Itália, o céu de chumbo e carregado de água não parece ser motivo de preocupação. Uma multidão se concentra em um vasto estacionamento, localizado nas imediações de um pequeno caminho que se perde entre as montanhas, e se apressa para fazer uma nova marcha.

A reportagem é de Giorgio Trucchi, publicada pelo sítio Opera Mundi, 10-02-2013.

Homens e mulheres, jovens, meninos e meninas, anciãos, vários deles e delas com bandeiras e faixas que reproduzem o logo do Movimento NO TAV. Megafones e alto-falantes difundem música misturada com palavras de ordem, sob uma chuvinha fina e ligeira que, pouco a pouco, vai crescendo em intensidade.

A marcha pacífica se inicia e, depois de vários quilômetros sob intensa chuva, consegue chegar até as redes de metal e arame farpado que cercam o lugar das escavações.

Milhares de pessoas se aproximam da zona da Maddalena de Chiomonte, dispersando-se embaixo das altas árvores que sobreviveram às retroescavadeiras que têm feito estragos no bosque de bétulas. Sob seus guarda-chuvas, gritam seu sentimento de rechaço e, em uníssono, atingem com pedras a estrutura metálica atrás da qual se veem os uniformes de militares e policiais que protegem um dos megaprojetos mais polêmicos das últimas décadas.

O primeiro estudo de factibilidade sobre os quase 240 quilômetros da rota ferroviária Turin-Lyon para a implementação do TAV (Trem de Alta Velocidade) tem mais de 20 anos (1991). O projeto dessa linha ferroviária que atravessa a fronteira entre Itália e França prevê também um maxi túnel de 57 km (12,5 km em território italiano).

O custo previsto para a realização da Fase 1 da obra, isto é, a parte transfronteiriça, é de 8,5 bilhões de euros, dos quais a Itália terá que garantir 2,7 bilhões, já que o acordo prevê uma repartição de gastos entre a União Europeia (40%), a França (42,1%) e a Itália (57,9%). O custo total poderia ultrapassar os 25 bilhões de euros e ninguém no momento sabe dizer de onde sairá essa quantidade, que equivale a quase 1,6% do PIB (Produto Interno Bruto) italiano.

Segundo os planos da União Europeia, a linha Turin-Lyon será parte do megaprojeto “Prioritário 6”, que se propõe a unir essa cidade francesa com a fronteira da Ucrânia no marco da Rede Transeuropeia de Transporte (TEN-T), um conjunto planejado de redes de transporte pensadas para facilitar a comunicação de pessoas e mercadorias por toda a União Europeia. As obras se estenderiam para além do ano 2030, com um custo total de cerca de 230 bilhões de euros.

O que as máquinas estão escavando na Maddalena de Chiomonte é uma galeria exploratória de quase 8 km para levar a cabo estudos geognósticos. O custo ultrapassa os 145 milhões de euros e, para proteger o início desse investimento público-privado dos incessantes protestos, a zona foi totalmente cercada e militarizada.

Também nesse caso, o custo da segurança do investimento é por conta do Estado, isto é, dos mesmos cidadãos que sofrem com a crise econômica e de quem são exigidos sacrifícios para sanar a dívida pública.

“Mais uma vez estamos aqui, como sempre temos feito nos últimos anos. Estamos jogando nosso futuro no Vale de Susa e nossa luta já é um símbolo de esperança para todos aqueles e aquelas que acreditam que um mundo diferente é possível. Eu lhes agradeço por todo o apoio que me deram nesses dias tão difíceis. Nunca irão nos deter”, diz Luca Abbà diante da multidão.
Em fevereiro de 2012, Abbà, figura histórica do movimento NO TAV, havia subido em uma torre de alta tensão para protestar contra a colocação das cercas de metal e denunciar o despejo violento de centenas de ativistas. Enquanto alguns policiais subiam na torre para apreendê-lo, Abbà foi pego por uma descarga elétrica e caiu ao chão de uma altura de 10 metros, sofrendo fraturas graves e queimaduras em todo o corpo.

"Economia do tijolo"

O movimento NO TAV, dizem os integrantes dos Comitês que surgiram por todo o território nacional, luta em defesa dos bens comuns, rechaçando sua mercantilização. Dessa forma, se opõe a um modelo que pretende dar resposta à crise econômica por meio da implementação e aprofundamento de uma “economia do tijolo”, baseada na construção de infraestruturas e grandes obras.

Com o intuito de fomentar um suposto maior crescimento econômico, estabilizar os índices macroeconômicos, mostrar um aumento, ainda que mínimo, do PIB e, sobretudo, investir os excedentes financeiros, na Itália, através da “ideologia” das grandes obras, perdem-se 244 mil hectares de território a cada ano, isto é, 688 hectares por dia.

“O TAV não tem sentido. Já existe uma linha Turin-Lyon que está subutilizada e que registra uma diminuição do tráfico ferroviário. Além disso, nunca será sustentável economicamente e os impactos ambientais serão desastrosos”, explica o jornalista especializado em economia Roberto Cuda a Opera Mundi, citando dados do estudo realizado pela Comissão Técnica da Comunidade Montana do Vale de Susa e Vale Sangone, junto com vários especialistas externos.

Contra o projeto, que foi repetidamente modificado no curso das últimas décadas, foi mobilizado um leque muito amplo de setores, que envolve não apenas os diferentes Comitês de cidadãos dos vales afetados, mas também a imensa maioria de prefeituras da área e um sem-número de organizações radicadas em todo o território nacional.

“O Movimento NO TAV é muito diverso, inclusivo e intergeracional. Cresceu, estendeu-se geograficamente e até tem se solidarizado e trocado experiências com outros movimentos e frentes de luta. Em que pese a criminalização da luta e a violenta repressão, as mobilizações têm sido massivas, constantes e não serão detidas”, pontua Cuda.

Segundo o jornalista, as pessoas estão cansadas e não toleram mais o abuso e o desperdício de recursos públicos. Além disso, estão tomando consciência de que não se pode continuar devastando o território. “Existe uma crescente demanda por melhor qualidade de vida e de sustentabilidade ambiental que motivou e continua motivando o movimento”, afirma.

A despeito dessa situação, o aparato político e econômico do país não parece estar disposto a ceder. A manobra financeira, batizada pelo ex-primeiro-ministro Mario Monti de “Salva Itália”, impôs um reajuste orçamentário de 30 bilhões de euros, que custou a cada família italiana uma média de 635 euros a mais em impostos. No entanto, manteve o financiamento de 2,2 bilhões de euros para o trem de alta velocidade.

“O TAV se tornou algo simbólico. Ceder ante a pressão popular poria em risco a mesma ideologia das grandes obras, alimentando os protestos contra outros projetos”, conclui Cuda.

Para Eugenio Cantore e Bruno Teghille, ativistas do Comitê NO TAV de San'Ambrogio, o movimento não vai ceder. “Estão devastando nosso território, afetando nossa saúde, atacando nossa economia. É uma obra que não tem nenhum sentido e que nunca será levada a cabo. Vamos continuar a luta apesar da militarização e da criminalização”, asseguram.

Teghille evidencia também os grandes interesses que estariam por trás tanto dessa, como de muitas outras obras. “Não interessa aos lobbies financeiros a utilidade coletiva, mas sim o lucro pessoal. E a política tem desempenhado um papel vergonhoso e indigno”.

Apesar da forte chuva e dos fortes jatos de água lançados por caminhões da polícia, uma jovem ativista assinala a todos os presentes a grande força moral que caracteriza a luta do Movimento NO TAV. “Eles têm as retroescavadoras, as máquinas perfuradoras, os blindados, as armas e as prisões, mas nós temos nossa luta para garantir um futuro digno. Temos nossa vontade, nossa esperança e alegria”, concluiu.

Mais cimento

No marco das grandes obras, está prevista a construção de 33 novas rodovias na Itália – isto é, dois mil quilômetros a mais de uma rede veicular que já está entre as maiores da Europa.

Apenas na região Lombardia, no norte da Itália, pretendem-se construir oito novas rodovias (400 km), com um aumento de 80% da atual rede de pistas. Entre elas, destacam-se os projetos da Pedimontana, a Brebemi (Bréscia-Bérgamo-Milão) e a TEM (Tangenziale Esterna Milano), com um custo não inferior a 10 bilhões de euros.

Apesar de, na Itália, o mercado de automóveis estar em crise, com uma redução das vendas em 20% durante 2012, e com uma perda de faturamento de 7 bilhões de euros, e o preço dos combustíveis continuar aumentando, o setor público-privado prefere perseguir a miragem das grandes obras.

“Em vez de potencializar e melhorar os serviços de transporte existentes, como, por exemplo, as linhas ferroviárias que diariamente transportam milhares de trabalhadores aos seus locais de trabalho, continuam investindo dinheiro público em obras que ninguém vai financiar e que, com muita probabilidade, nunca serão concluídas”, reitera Cuda.

Segundo o jornalista, na Itália é imprescindível forjar uma nova política nacional de transporte, reduzindo a mobilidade e facilitando o acesso dos cidadãos ao trabalho, ao estudo e aos serviços em geral, mediante diversos modos de transporte. “É preciso romper esse conluio da política com a indústria e os negócios. Só assim poderão mudar as coisas, deixando de promover obras que não apenas são inúteis, mas que são fortemente danosas para a sociedade e o futuro do país”, concluiu

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