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22 Julho 2013

"O pontificado de Francisco está ainda bem no início, mas as atitudes tomadas até agora, num jeito jesuíta e paciente, mostram uma dinâmica que faculta a esperança", avalia Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPCIR-UFJF, em entrevista concedida ao jornal Em Tempo. Trechos da entrevista foram publicado pelo jornal no dia de ontem, 21-07-2013. Aqui publicamos a íntegra da entrevista concedida a Litza Mattos.

Eis a entrevista.

Você considera a vinda o papa Francisco em um momento oportuno no Brasil, uma vez que o número de católicos no país vem caindo?

Acredito que não se deva pensar em sua vinda como uma questão de estratégia da igreja católica. Isso vem reforçado pelo carisma mesmo do papa Francisco, que é movido mais por dinâmica pastoral e profética. Ele não vem ao Brasil com a função de recuperar o dado quantitativo da igreja católica, mas de sublinhar para os católicos que vivem aqui o potencial crítico do evangelho e o desafio fundamental de uma igreja que busca recuperar o fermento da simplicidade e da opção pelos excluídos e empobrecidos. Ele traz consigo o carisma franciscano que está envolvido no próprio nome que escolheu para o seu novo ministerio como bispo de Roma.

E em relação aos protestos. Acha que a igreja pode ser alvo?

Não creio. A presença de Francisco deu um novo alento à Igreja Católica. Marca uma presença muito distinta com respeito aos dois últimos papas e vem movido por uma sede de mudança na vida eclesial, que traduz também uma indignação profética contra determinadas situações que maculavam o tecido católico. O que se vê nas ruas hoje no Brasil é também a expressão de uma insatisfação e uma sede de justiça e verdade, também de “afirmação de força e fé no futuro”. São vocalizações distintas, mas que convergem na busca de um mundo melhor e numa representação mais digna e autêntica. Creio que Francisco será acolhido entre nós com muita alegria e hospitalidade, e saberá também dizer uma palavra de alento e de esperança para esses jovens que hoje tomam conta de nossas ruas por todo o Brasil em busca de um horizonte menos sombrio e mais justo.

O que a Igreja está fazendo para se renovar e conquistar os jovens? O papa Bento XVI inaugurou o twitter e o papa Francisco também criou uma conta própria , mas a igreja como um todo está ligada a esse desenvolvimento tecnológico?

Essa sintonia com o mundo jovem é um desafio em aberto para a Igreja Católica. Ela se distancia desse mundo quando não consegue ser envolvida pelos sinais dos tempos, pelos grandes temas que tocam o coração dessa gente. Os jovens, com sua vitalidade e despojamento, conseguem ouvir lindamente o canto das coisas e o apelo inarredável da realidade. A Igreja romana ainda permanece meio ensimesmada, esquivando-se de enfrentar com coragem os grandes temas e questões de nosso tempo. O papa Francisco parece trazer um novo alento e uma nova esperança de sintonia com esse tempo. Veio com a disposição de se colocar em escuta, de captar os desafios mais candentes que se expressam também na voz desses jovens, brasileiros e de tantas partes do mundo. E não vai desprezar os diversos recursos, também tecnológicos, para entrar no compasso do tempo.  

Como a igreja deve se modernizar para combater perda de fieis e o crescimento das outras igrejas?

Mais uma vez repito, a questão hoje não é tanto a de “modernizar para combater a perda de fiéis”, mas de encontrar uma voz singular que saiba dialogar com um mundo que se apresenta cada vez mais diverso e plural, também no campo das religiões. Passou o tempo de uma evangelização de conquista e dominação. A concepção mais rica de evangelização que se firma hoje com vigor é aquela postulada pelo papa Paulo VI, nos desdobramentos do Concílio Vaticano II (1962-1965). Evangelizar é “tornar nova a própria humanidade” (EN 18), favorecer um novo alento vital, de alegria e esperança para um mundo que corre o risco de morrer de apatia ou pelo desgaste da compaixão. O testemunho fala hoje muito mais forte do que qualquer proselitismo. É o testemunho de vida, simples e solidário, que traduz o traço mais essencial da evangelização. As religiões são hoje desafiadas ao exercício da partilha de dons, de compromisso comum em favor de uma sociedade mais humana e justa, de uma terra mais habitável.

Qual foi a Igreja Católica que o sucessor de Bento XVI, recebeu? Qual a sua avaliação das atitudes tomadas por ele até agora?

Diria que o papa Francisco recebeu uma Igreja em profunda crise, com problemas internos gravíssimos e também com fraturas na sua dinâmica relacional com o mundo e com as diversas tradições religiosas. Francisco veio com o propósito pastoral de reconstruir esse tecido dilacerado com o fermento evangélico de Assis. O nome que escolheu para seguir essa trajetória – Francisco - é muito significativo: fazer renascer a esperança e facultar uma nova fragrância da vida eclesial. Na minha avaliação, o pontificado está ainda bem no início, mas as atitudes tomadas até agora, num jeito jesuíta e paciente, mostram uma dinâmica que faculta a esperança.

Em uma entrevista você disse que o novo papa deveria ser disposto a abrir a Igreja ao debate dos temas polêmicos. O papa Francisco já mostrou que tem uma facilidade de quebrar alguns tabus, porém tem uma postura conservadora em outros aspectos. Acredita que o pontificado do papa Francisco será de mudança na igreja?

Não tenho ainda condições precisas para avaliar o pontificado de Francisco. Estamos ainda numa fase inicial de trabalhos, mas que já se revela auspiciosa. Não há como afirmar, peremptoriamente, que ele tem uma “postura conservadora” em aspectos específicos. Isso até pode ocorrer, e diria com todos nós. Podemos sinalizar que ele tem uma preocupação de abertura e constância: dois aspectos importantes para o crescimento de qualquer organismo. Como diz o profeta Isaías, há que alargar o espaço da tenda, estender as cortinas, alongar as cordas, mas também reforçar as estacas (Is 54,2). Não tenho dúvida alguma sobre a dinâmica transformadora que sera empreendida por Francisco na Igreja Católica, mas sempre apoiada no chão firme do espírito evangélico mais nobre.

Quais as grandes questões que igreja vai/deve resolver (escândalo financeiro, uso da camisinha, o sexo sem procriação, a ordenação de mulheres e a reinclusão dos padres casados, pedofilia)?

O papa Francisco tem diante de si inúmeras tarefas e desafios, entre os quais restabelecer a credibilidade da comunidade ecclesial, abalada por inúmeros escândalos em vários campos, como os abusos comprovados no âmbito da pedofilia e de corrupção explicitada no Vatileaks. Com seu jeito peculiar, de traço jesuíta, vai criando as condições para a reforma da cúria romana, sem a qual não há mudança possível em outros diversos campos. Exerce também um papel singular na retomada do valor da colegialidade e de sua prática efetiva; bem como da valorização do laicato e seu protagonismo na missão eclesial.

Quais as perspectivas futuro da igreja. Como vê a igreja daqui pra frente?

Tenho em mim um lado otimista que agora fala mais forte com a presença de Francisco. Ele trouxe uma esperança que estava faltando, com seus gestos simples, seu sorriso largo,  e sua ênfase na humildade e no despojamento. Muito curioso tudo isso: quando deixamos o evangelho falar mais forte, o que vigora é essa simplicidade, que brota da dinâmica do nazareno. O que busca fazer Francisco, e não sei se conseguirá, dadas as inúmeras resistências que já se anunciam, é deixar falar o Jesus menino que habita em nossa aldeia, a “Criança Nova” que acolhe a nossa dor e desperta o nosso olhar para as coisas do tempo, como tão bem assinalou Alberto Caeiro no Guardador de rebanhos.

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