Padre Helmut Schüller, da Iniciativa dos Párocos, visita 15 cidades dos EUA

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10 Julho 2013

O padre Helmut Schüller deveria estar em suas férias de verão agora. Ao contrário, o padre austríaco, que ganhou atenção internacional em 2011 pelo seu "Apelo à desobediência", optou por passar o seu tempo fora do ministério paroquial oferecendo uma apresentação intitulada "O ponto de virada católico: conversações", em 15 cidades norte-americanas.

A reportagem é de Jamie Manson, publicada no sítio National Catholic Reporter, 17-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A turnê começou na noite dessa terça-feira na Judson Memorial Church, de Manhattan, uma histórica comunidade em Greenwich Village filiada à Igreja Unida de Cristo e à Igreja Batista Norte-Americana.

Na noite de terça-feira, no entanto, o espaço estava ocupado por 230 católicos de inclinação reformadora que enfrentaram perigosamente o alto calor e umidade para ouvir a visão de Schüller sobre a reforma da Igreja e um sacerdócio renovado.

Schüller deixa logo claro que ele é apenas um padre dentre uma grande comunidade de clérigos e apoiadores leigos que estão pedindo à Igreja institucional reformas desesperadamente necessárias.

Estudos sugerem que para cada 100 padres católicos que se aposentam, apenas 30 estão disponíveis para substituí-los. Até hoje, a resposta da hierarquia a essa crise tem sido a de fechar e fundir paróquias, em vez de abrir a ordenação a todos os que estejam dispostos e aptos a servir.

Em 2006, Schüller e um grupo de colegas clérigos fundaram a Iniciativa dos Párocos austríacos como uma forma de ir a público com as suas preocupações sobre o encolhimento do sacerdócio, sobre a fusão de paróquias e sobre as excessivas pressões que são postas sobre o número cada vez menor de párocos.

Desde o lançamento do "Apelo à desobediência", Schüller tem sido claro ao afirmar que a Iniciativa dos Párocos austríacos não acredita na desobediência em prol da contradição. Em vez disso, eles promovem uma "obediência gradual", em primeiro lugar a Deus, depois às suas consciências e, por fim, à ordem eclesial.

Ao menos 425 dos 3.800 padres da Áustria endossaram o apelo da Iniciativa dos Párocos austríacos, e a organização estima que 70% dos católicos austríacos concordam com as suas plataformas.

"Pelo fato de, como padres, sermos membros da hierarquia, ela ficou nervosa", disse Schüller à multidão. Mas ele insiste que o movimento "teve início a partir da profunda tristeza diante do futuro das comunidades paroquiais".

Schüller, que anteriormente atuou como presidente da Cáritas Áustria, foi nomeado vigário-geral em 1995 pelo cardeal austríaco Christoph Schönborn, atuando simultaneamente como pároco eclesial.

Ambos os papéis, segundo ele, deram-lhe intuições sobre o estado atual da Igreja institucional. Como vigário-geral, ele percebeu que a estrutura da Igreja "não permite muito espaço para a reforma ou para o questionamento", enquanto, como pároco de uma paróquia, ele percebeu que, uma vez aposentado, "eu vou deixar a minha comunidade por um futuro incerto".

Schüller disse que a sua preocupação mais grave é que a falta de padres católicos está privando os católicos batizados do acesso à Eucaristia, que é o "centro espiritual das nossas comunidades".

"É o pão do céu, e devemos comê-lo juntos", afirmou.

Os fiéis são ainda mais privados por causa das fusões paroquiais que resultam da escassez do clero.

"Esse é o maior fardo para os padres", disse Schüller à multidão. "Eles têm a impressão de que eles não podem mais cumprir o seu serviço. Eles são forçados a correr de uma base à outra".

Ele disse que a afirmação mais dolorosa que os padres ouvem dos paroquianos é: "Eu sei que você não tem muito tempo, padre".

"Isso é horrível", insiste Schüller, "porque esse é o centro de nosso ministério". Se um sacerdote é obrigado a dar a impressão de que não pode estar presente na sua comunidade, "esse é o fim do seu ministério", afirmou.

As realidades da vida paroquial, disse Schüller, demonstram uma necessidade urgente de abrir o sacerdócio a qualquer pessoa que tenha os dons para liderar, inspirar e criar confiança, especialmente mulheres.

"Espera-se que nós promovamos a mensagem bíblica de que os homens e as mulheres são feitos à imagem de Deus", disse Schüller. "Como podemos promover essa mensagem sem representá-la nas nossas estruturas? Essa não é uma questão sobre as demandas da sociedade moderna, mas sim a questão da nossa mensagem original. Devemos redescobrir essa imagem comum de Deus".

Na Áustria, as paróquias de inclinação reformadora praticaram intencionalmente a reforma no âmbito das suas próprias comunidades. Isso inclui a permissão de que leigos façam as homilias e liderem os serviços de comunhão quando os párocos não estão. Católicos que estão divorciados e novamente casados fora da Igreja são autorizados a comungar, assim como os protestantes. Casais gays e lésbicas também são bem-vindos na comunidade e à mesa eucarística.

"A Eucaristia não deve ser um instrumento de sanções", disse Schüller. "O mais alto símbolo da Comunhão é a aceitação".

Como sacerdotes, disse Schüller, "nós temos poder, o que significa que somos responsáveis por usar esse poder". Os movimentos de reforma da Igreja não devem ser deixados apenas para os leigos, afirmou. "Nós devemos ser companheiros desses movimentos".

Enquanto Schüller viajar pelo país durante as próximas três semanas, ele também terá encontros privados com sacerdotes para ouvir as suas preocupações e encorajá-los a se unirem entre si e com os leigos.

Schüller gostaria que especialmente as comunidades de inclinação reformadora encontrassem solidariedade umas com as outras. Um dos objetivos da turnê "O ponto de virada católico" é construir uma rede internacional de grupos de reforma. Dez organizações católicas progressistas, incluindo Future Church, Call to Action, DignityUSA e Voice of the Faithful, estão promovendo a turnê.

Uma das mais profundas esperanças de Schüller é que a Igreja institucional crie um sistema de direitos fundamentais para todos os batizados. "Devemos falar não sobre leigos, mas sobre 'cidadãos da Igreja'", disse ele ao público. "A palavra 'leigo' sugere 'sem competência ou experiência'".

"A compreensão cristã dos seres humanos é de que eles têm direitos e responsabilidades, e uma dignidade especial que deve ser respeitada", afirmou Schüller. "Portanto, eles têm o direito de participar na tomada de decisões da Igreja".

"A participação plena dos cidadãos da Igreja é uma questão de respeito ao ser humano", disse. "A democracia foi um passo à frente na sociedade moderna, mas a nossa Igreja lutou contra ele durante séculos".

A falta de direitos fundamentais na Igreja, defendeu Schüller, foi a base para o "Apelo à desobediência". "Nós temos tanto a suspeita quanto a experiência de que a nossa obediência está sendo abusada pelos líderes da Igreja, a fim de limitar a reforma da Igreja", disse.

"É problemático prestar obediência a líderes que não são responsáveis por aquilo que estão fazendo com o seu poder", acrescentou.

Para alguém que tem estado associado com a desobediência, o estilo de Schüller é extremamente terno e suave. No entanto, isso não impediu que o Vaticano o privasse, em 2012, do seu título de monsenhor, recebido em 1991.

"Não foi a tragédia da minha vida", brincou Schüller durante as perguntas do público.

Pelo fato de Schüller estar mais interessado em aprender sobre as lutas dos católicos de inclinação reformadora dos Estados Unidos, a sua apresentação de 30 minutos foi seguida de quase uma hora de diálogo com os participantes.

Um membro das Roman Catholic Womanpriest (RCWP), Gabriella Velardi Ward, perguntou a Schüller o que ele e a Iniciativa dos Párocos austríacos pensavam do seu movimento, que começou na Europa.

Schüller disse que, embora a sua organização respeite a RCWP e a veja como um movimento corajoso, o seu desejo é ver toda a Igreja se abrir à ordenação de mulheres, e não apenas um pequeno segmento.

"Nós nos vemos fazendo o caminho e vivendo a mudança que queremos ver. Estamos entrando pela porta dos fundos, para que um dia as mulheres possam entrar pela porta da frente", respondeu Velardi Ward.

Schüller, engajando-se no tipo de escuta respeitosa que ele quer da hierarquia, respondeu: "Então talvez nós devamos respeitá-las como um movimento profético".

Outro membro da plateia perguntou se essa discussão é relevante para a Igreja Católica Romana para além da Europa e dos EUA.

"Disseram-nos que a Igreja na Europa e nos EUA é uma Igreja doente ou uma Igreja em diminuição", e que a Igreja na África e na América Latina e do Sul é a prova de que uma Igreja conservadora tem sucesso, disse Schüller. "Mas as perguntas que a nossa sociedade moderna enfrenta acabarão surgindo nessas partes do mundo também, e em alguns lugares, especialmente nas megacidades, elas já sugiram".

Schüller vê a Igreja na Europa e nos EUA como um "laboratório do futuro", onde a Igreja pode se envolver com as questões e os desafios da sociedade moderna.

Finalmente, surgiu a questão que provavelmente está nas mentes de muitos: Schüller se sente esperançoso com relação ao Papa Francisco?

"Há uma sensação de alívio, eu acho, com relação ao novo papa", disse. Mas a pergunta permanece: "Ele pode tornar esses gestos em mudanças sistêmicas, ou ele vai ser marginalizado pelo sistema vaticano?".

"A mudança real vai acontecer quando ele começar a praticar a colegialidade mediante novos sínodos e o poder papal descentralizado", disse Schüller. "A esperança existe. Vamos ver se ele poderá continuar fazendo em todo o sistema o que ele está fazendo como indivíduo".

A próxima parada de Schüller na sua turnê "O ponto de virada" será em Boston, onde o cardeal Sean O'Malley o impediu de falar em ambientes católicos.

Refletindo sobre o incidente, Schüller concluiu: "Há bispos neste país que proibiram que eu possa falar com pessoas como vocês. Não é triste que eu deva ser proibido de falar. O que é triste é que vocês devam ser proibidos de ouvir".

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