Papa Francisco e o paradoxo do papado. Artigo de Massimo Faggioli

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12 Julho 2013

É preciso se perguntar quantos dos cardeais que elegeram Francisco no dia 13 de março o reelegeriam hoje, se soubessem dos extraordinários atos do papa desses primeiros meses. Mas também precisamos estar certos de que uma parte do catolicismo mundial já está enfileirando as armas para deslegitimar este pontificado.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal Europa, 10-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco deu forma ao seu ato magisterial mais forte, depois de quase quatro meses de pontificado, com a missa em Lampedusa. Intérprete de uma ideia teologicamente forte, segundo a qual a celebração da eucaristia é o ato mais público e mais solene de todas as outras possíveis ações e documentos da Igreja, Francisco colocou no cenário da periferia da Europa o próprio centro da vida da Igreja, com uma inversão de perspectiva típica de um papa que veio da Argentina.

Mas a missa celebrada em Lampedusa também é a representação do momento particular na história do papado contemporânea, nesta fase de transição entre Bento XVI e Francisco: uma transição ainda em curso, imperfeita e incompleta. Faz parte da descrição do trabalho do papa uma certa "solidão institucional", da qual João XXIII também pagou o custo. Assim como o Papa João XXIII, o Papa Francisco também desempenha o papel de um papado de reconstrução: reconstrução do tecido eclesial diante das incompreensões (às vezes alimentadas artisticamente) dos meios de comunicação, de uma linguagem teológica que não seja acadêmica, mas pastoral. De uma imagem do papa como pastor, mais do que como príncipe.

Nesse sentido, o paradoxo de Francisco é semelhante ao de Roncalli, ou ao "mistério Roncalli": um papado destinado a restaurar na Igreja os saudáveis e tradicionais instrumentos da comunhão eclesial (a colegialidade entre os bispos e o papa, a sinodalidade em todos os níveis da Igreja) deve contar com as forças de uma única pessoa, com as intuições do bispo de Roma, com a sua capacidade de governar etsi Curia non daretur – como se não houvesse a Cúria Romana, ainda inteiramente formada por homens nomeados pelo antecessor, muitos dos quais evidentemente pertencentes a outra era teológica.

Cada pontificado, na sua fase de rodagem e de transição, está sujeito a mecanismos de adaptação ao ambiente circunstante. Esses mecanismos dependem das contingências internas da Igreja, assim como de variáveis externas, e cada novo papa sabe que a gestão da transição não pode contar com o puro apelo ao poder primacial: em outras palavras, o novo papa deve negociar a saída de cena da velha comitiva e das velhas palavras de ordem, para dar lugar gradualmente ao seu próprio programa e aos homens com os quais irá pô-lo em prática.

Com as extraordinárias circunstâncias da transição entre Bento XVI e Francisco, há elementos que falam dessa negociação em termos de compromisso (a firme aposta na encíclica escrita por Bento XVI, a confirmação de alguns homens-chave do pontificado Ratzinger como o liturgista Guido Marini), juntamente com a firme declaração de intenções de Bergoglio sobre as novas trajetórias do pontificado (o estilo e os conteúdos da pregação matutina, a iniciativa de Lampedusa).

O elemento particular é o fato de que a solidão institucional de Francisco é dada pela ausência em Roma, hoje, daquela constituency que o elegeu papa em um conclave celebrado em situação de emergência. É preciso se perguntar quantos desses cardeais que o elegeram no dia 13 de março o reelegeriam hoje, se soubessem dos extraordinários atos do Papa Francisco destes primeiros meses. Mas também precisamos estar certos de que uma parte do catolicismo mundial, a mais órfã de um ratzingerismo expresso em termos de ideologia neoconservadora, já está enfileirando as armas para deslegitimar este pontificado ou para desclassificar o magistério ao de um "papa pastor" de perfil teológico insignificante.

As reações de Giuliano Ferrara (no jornal Il Foglio do dia 9) e de Fabrizio Cicchitto ("deve ser afirmada uma séria e real autonomia do Estado por parte da Igreja") são apenas as mais públicas, mas não as mais sutis nem as mais insidiosas: mas representam bem as reações do mundo político diante de um católico social como Bergoglio, para cuja compreensão ideias como laicidade, autonomia entre Estado e Igreja, liberdade e direitos requerem uma complexa operação de tradução com relação ao período de Ratzinger-Bento XVI.

Com o Papa Francisco, deve radicalmente ser repensada a vulgata bipartidária sobre o catolicismo como coluna de um mundo liberal-liberalista: o custo será bem mais alto do que destruir livros já no prelo – livros que, depois do dia 13 de março de 2013, não têm mais muito a dizer.

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