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03 Julho 2013

Na próxima segunda-feira, o Papa Francisco irá realizar a sua primeira viagem desde que é pontífice. O Papa Bergoglio irá a Lampedusa, no sul da Itália. Dizer que a notícia é importante é banal: desde sempre, ou ao menos desde que os papas começaram a se mover pelo mundo, a visita papal é um evento significativo.

A opinião é de historiador italiano Adriano Prosperi, professor da Universidade de Pisa e membro da Accademia Nazionale dei Lincei, a principal academia científica da Itália. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 02-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Foi assim quando Pio VI mereceu a definição de "peregrino apostólico" fazendo uma longa e cansativa jornada de Roma a Viena em 1782 para deter as reformas do imperador Giuseppe II. E tristemente importante para o papado foi a viagem do seu sucessor, Pio VII, quando foi para o exílio em Fontainebleau, prisioneiro de Napoleão. Viagens cansativas, amargas, decididas por outros.

Somente no final do século XX é que começou a série de viagens livre e atentamente programadas. Foi Paulo VI quem deu ao título de "peregrino apostólico" um conteúdo novo, dirigindo-se com uma escolha estratégica para Jerusalém em janeiro de 1964. Daí em diante houve uma verdadeira inflação de viagens papais: somente Wojtyla fez mais de 100.

Os holofotes e o investimento de todo o poder dos meios de comunicação multiplicaram a eficácia da presença física do pontífice, que se tornou um verdadeiro astro do mundo globalizado. Parecia, então, que o caminho estava marcado para todos os seus sucessores, embora fosse evidente a dificuldade de competir nesse campo. Não é por nada que Ratzinger preferiu lugares familiares para um homem de estudo, como a sua Regensburg.

Mas hoje a escolha do papa argentino subverteu a tradição e abriu uma tradição totalmente nova. Francisco escolheu um lugar periférico, uma pequena ilha, um lugar de vicissitudes extremas de pobreza e abandono. E assim fez como quem abaixa a voz para se fazer ouvir melhor. A campanha de criminalização da imigração irregular na Itália, sobre a qual Luigi Manconi apresentou há poucos dias, no Senado italiano, um relatório abrangente e assustador, é subitamente silenciada pelo destino escolhido pelo Papa Bergoglio.

Lampedusa: aqui, há mais de 20 anos, tocam-se os extremos da cada vez menos rica Europa e do cada vez mais deserdado povo dos condenados da terra. Só em 2011 lá desembarcaram mais de 50 mil pessoas. Aqui, na desatenção geral, chegam os barcos e registram-se tragédias de naufrágios e assassinatos. Esse braço de mar que se abre a partir do porto de Lampedusa é um cemitério de refugiados, sobretudo idosos, mulheres e crianças.

Na realidade, desta vez, não é a notícia da viagem papal, mas é o nome do lugar que fala. Assim como falava aquela cadeira vazia no concerto da Sala Paulo VI do dia 23 de junho. Virando as costas para os ritos da mundanidade vaticana, deixando os monsenhores envergonhados e silenciosos, o Papa Bergoglio irá a Lampedusa e subirá no barco para chegar ao trecho de mar próximo de Cala Pisana: jogará  ao mar uma coroa de flores em memória dos muitos mortos que caíram em vista da ilha, aqueles pelos quais não havia necessidade de abrir espaço no cemitério cada vez mais lotado de Lampedusa.

Esses são fatos que falam e dizem algumas coisas elementares. Dizem que a Igreja do Papa Francisco tem a intenção de recordar àqueles que se acreditam cristãos quem são os "próximos" no sentido evangélico da palavra. E aqueles que pensam que a União Europeia é filha o ideal revolucionário do século XVIII da fraternidade e dos direitos humanos têm a obrigação de constatar que o empobrecimento do projeto europeu encontra no drama do qual Lampedusa é o palco a sua mais evidente e grave manifestação.

A escolha papal é um lembrete suave, mas firme, do dever da solidariedade entre todos os seres humanos: ele diz respeito à Europa dos banqueiros, mas se refere principalmente a nós, italianos. E devemos esperar que o gesto papal ajude um país que foi de emigrantes a recuperar a sua memória e a negar finalmente todo crédito ao racismo generalizado, ao leghismo [referente à Liga Norte italiana] como ideologia e como prática que permeou tantos ambientes e tantas formações políticas.

Aqui na Itália, com leis como a Bossi-Fini e com a sucessiva selva de decretos, regulamentos e atos administrativos, disseminou-se o país com miseráveis campos de concentração onde os sobreviventes da travessia do Mediterrâneo são condenados a pagar, com longuíssimas reclusões nos CIE [Centros de Identificação e Expulsão italianos], pelo crime imperdoável da pobreza: um país onde bastou o tímido convite da ministra Kyenge para modificar uma lei racista sobre o direito de cidadania que remonta a 1912 para nos fazer ouvir obscenidades intoleráveis.

Seria bom se essa viagem a Lampedusa de um bispo que veio do fim do mundo conseguisse fazer com que o mundo surdo e mudo da política italiana entenda que acabou o tempo em que o consenso popular se conquistava enviando mensagens de medo e de rejeição. Redescobrir o fio que liga a esperança dos desesperados de Lampedusa à nossa esperança de uma Itália melhor é hoje uma tarefa de máxima urgência.

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