R$ 0,20 e a renúncia de bandeiras pelo PT

Revista ihu on-line

Renúncia suprema. O suicídio em debate

Edição: 515

Leia mais

Lutero e a Reforma – 500 anos depois. Um debate

Edição: 514

Leia mais

Bioética e o contexto hermenêutico da Biopolítica

Edição: 513

Leia mais

Mais Lidos

  • A notícia mais triste do Brasil nesta semana

    LER MAIS
  • Papa nomeia brasileiro para Relator Geral do Sínodo dos Jovens e um jesuíta e salesiano como Secretários Especiais

    LER MAIS
  • Fim da vida: tratar sem obstinação. Discurso do Papa Francisco

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

Por: Cesar Sanson | 17 Junho 2013

"É uma indignação já antiga, que começou a brotar quando o PT chegou ao poder, em 2002, e passou a substituir o verbo 'lutar' de suas origens por 'acochambrar' – em nome da tal governabilidade, uma palavra cada vez mais suja". O comentário é de Cynara Menezes, jornalista, em artigo na Carta Capital, 15-06-2013.

Eis o artigo.

Por que tantos jovens aderiram à campanha contra o aumento de tarifas de ônibus e não às manifestações convocadas, com o apoio maciço da mídia, contra a corrupção e os réus do mensalão? A resposta é simples: porque esse é um protesto de esquerda, com reivindicações caras à esquerda. A direita não está nem aí para o aumento das tarifas do transporte público, até porque ela anda de SUV. “São só 20 centavos”, foi a reação mais comum que vi deles nas redes sociais. Condenaram o movimento desde a primeira hora, e vão condenar ainda mais daqui para a frente, porque, em minha opinião, o aumento da tarifa em São Paulo foi apenas o detonador de uma insatisfação crescente nos últimos anos e que agora parece prestes a explodir. E que diz respeito não à direita, mas ao PT.

É uma indignação já antiga, que começou a brotar quando o PT chegou ao poder, em 2002, e passou a substituir o verbo “lutar” de suas origens por “acochambrar” – em nome da tal governabilidade, uma palavra cada vez mais suja. Em 2010, a esquerda brasileira se uniu em torno de Dilma Rousseff porque não queria que chegasse ao poder a corja de fundamentalistas que apoiava o outro candidato. Mas, para nosso espanto e asco, eles estão hoje do lado do PT, influindo nos destinos da Nação. Pior ainda, junto com os ruralistas que sempre abominamos. Imaginem, quando poderíamos pensar que a direita ficaria feliz com o PT no poder, e a esquerda, contrariada? Parece um pesadelo.

No poder, o PT abandonou praticamente todas suas bandeiras históricas –a única que se mantém verdadeiramente de pé é a diminuição da pobreza, da desigualdade social e étnica. Todos aplaudimos as conquistas inegáveis neste setor. Mas a gente não quer só comida, lembram? Queremos todas as outras bandeiras de volta, também. Abandoná-las tem um custo eleitoral e, se o partido não resolver fazer algo a respeito, a fatura será cobrada em 2014.

As bandeiras que o PT abandonou:

A moralidade. Não importa que seja caixa 2 ou outra coisa, o mensalão representou uma mancha num partido que se construiu em cima de um discurso ético e não para fazer “o que os outros também fazem”. Não houve mea culpa por parte do PT até hoje, e nem sequer uma reflexão conjunta sobre o ocorrido, apenas críticas à mídia e ao Supremo.

Os direitos humanos. Este ano, o PT, ao optar pela presidência de outras comissões “mais importantes”, deixou de estar à frente de uma comissão que tradicionalmente sempre prezou, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Isso deu espaço para que se instalasse na presidência da Comissão, para horror da sociedade civilizada, um pastor fundamentalista com histórico de homofobia e racismo, Marco Feliciano. Esta semana, diante da selvageria da PM nas manifestações de quarta-feira em São Paulo, o governo federal, em vez de denunciar a violência policial, fazendo jus à história do PT, ofereceu “ajuda” a Geraldo Alckmin, do PSDB, contra um protesto de jovens. O prefeito petista da capital, Fernando Haddad, em lugar de se portar ao lado dos manifestantes como seria digno de um membro do partido que tem greves no DNA, se colocou ao lado do governador tucano e da truculenta polícia.

A reforma agrária. Dilma Rousseff conseguiu ser pior que o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso em famílias assentadas: apenas 21,9 mil, o menor número desde 1995. São dados do MST (Movimento dos Sem-Terra), velho parceiro de lutas do PT, não do “PIG”. É o MST quem diz que o governo de Dilma é um dos piores nos últimos 20 anos em desapropriação de terras para assentamentos. Não é à toa que a líder ruralista e senadora Kátia Abreu chegou a declarar que se sente próxima à presidenta “pela concordância de ideias” e por sua “compreensão da agropecuária brasileira”. Por favor, respondam: quem, na esquerda, votou no PT esperando ver uma ruralista contente?

Os direitos LGBTs. A bandeira da diversidade, tão cara ao PT desde os seus princípios, inexiste hoje em dia no partido, que cedeu inteiramente à pressão dos pastores evangélicos. Os petistas se encontram tão reféns do fundamentalismo em nome da “realpolitik” – surrealpolitik, melhor dizendo –, que o ministro da Saúde telefonou ao pastor-deputado Marco Feliciano antes de decidir suspender uma campanha pelo uso de camisinhas entre prostitutas. E quem vai esquecer que o governo Dilma voltou atrás em lançar uma campanha anti-homofobia nas escolas só para atender ao obscurantismo dos políticos evangélicos? O apego ao poder deixou o valente PT medroso.

Os índios. Dilma Rousseff, ao contrário de seus antecessores, nunca recebeu no Palácio do Planalto as lideranças indígenas. Só recentemente, após um índio ser morto pela Polícia Federal no Mato Grosso do Sul é que o secretário-geral da presidência, Gilberto Carvalho, recebeu lideranças (em um anexo do Palácio) e admitiu erros na condução da política indígena e na discussão em torno da usina de Belo Monte. A presidente Dilma é, até agora, a governante que menos concedeu terras a índios desde o governo FHC. Enquanto isso, no Mato Grosso do Sul, prosseguem os conflitos: na segunda-feira 12 outro índio foi morto em uma emboscada. É ou não é para um cidadão de esquerda ficar indignado?

Transporte público barato e de qualidade. Sim, o PT já acreditou nisso. Quando Luiza Erundina se tornou a primeira mulher prefeita de São Paulo, em 1988, o partido defendia a mesma tarifa zero que os meninos do MPL (Movimento Passe Livre) que estão nas ruas protestando, defendem. Por aí fica claro quem foi que mudou.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

R$ 0,20 e a renúncia de bandeiras pelo PT - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV