Camus-Ricoeur, a hora da compaixão

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11 Junho 2013

Há quem diga não, há quem diga sim. Diferentes entre si a ponto de serem opostos, mas unidos por uma ética da responsabilidade, que, tanto em um caso quanto no outro, não pode se expressar senão em um horizonte metafísico.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 08-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além da celebração do centenário (ambos nascidos em 1913), o prêmio Nobel de Literatura Albert Camus e o filósofo Paul Ricoeur continuam se encontrando. Como ocorreu ao menos uma vez durante a sua vida, isto é, quando, ao término de uma conferência sobre o existencialismo, Ricoeur foi abordado pelo inesperado Camus, cujos escritos haviam sido recém-comentados.

No último sábado, 7 de junho, porém, durante o Átrio do Coração (variante do Átrio dos Gentios, promovido em Marselha pelo Institut Catholique de la Méditerranée, dirigido por Jean-Marc Aveline), a estudiosa Marie-Jeanne Coutagne ofuscou a possibilidade de outro contato entre os dois, ocorrido na presença de uma célebre testemunha, Hannah Arendt.

Todo o século XX em uma sala, portanto, com as suas inquietações, as suas revoltas e as suas esperanças. Quem traçou o quadro geral foi o filósofo Jean Greisch, professor da cátedra berlinense intitulada a Romano Guardini: Camus anuncia o ser humano em revolta, e Ricoeur parte do esfacelamento do eu para postular a necessidade de uma decisão aberta ao consenso.

Mas entre o "não" que conclui O mal-entendido camusiano e o fiat do mestre de Tempo e narrativa se estende um terreno comum muito fértil.

Greisch se centra no elemento de maravilha poética que desempenha um papel decisivo na história de Ricoeur, e pouco depois o teólogo Xavier Manzano descreve a atitude análoga de adesão sensual à realidade a partir da qual se move, procedendo logo de contraste, a experiência de Camus. E depois há o tema – inesgotável – da relação com a Bíblia. Trata-se de um momento fundamental para o reconhecimento de Ricoeur no universo do texto, como enfatizaram, embora a partir de perspectivas diferentes, os especialistas Edoaurd Robberechts e François-Xavier Amherdt.

Também em Camus, porém, florescem continuamente elementos que remetem à Bíblia. É a identificação (assinalada pelo filósofo Jean-François Mattei) entre a mãe analfabeta e o Cristo nas páginas do inacabado O primeiro homem, mas também é a inesperada consonância entre a análise de Camus e o lamento do Eclesiastes, como observou o cardeal Gianfranco Ravasi: o termo hebraico havel, normalmente traduzido como "vaidade", indica, de fato, a inconsistência da névoa e remete, portanto, ao sentimento do absurdo.

Que uma interrogação tão escandalosamente radical tenha direito de cidadania na Bíblia é, além disso, um dos elementos que levaram à constituição do Átrio dos Gentios, lugar de diálogo e debate entre crentes e não crentes que o próprio cardeal Ravasi instituiu como presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, assumindo um pedido feito com urgência por Bento XVI. Para não ser uma coleção de monólogos, porém, o diálogo deve respeitar algumas regras.

Um (a principal, talvez) é fixada por um dos mais renomados teólogos franceses, Philippe Capelle, que no seu retrato de Ricoeur valoriza particularmente o rigor de um percurso que, partindo da rejeição de uma divindade entendida como princípio da imanência, atribui um valor filosófico específico ao ato de "nomear Deus". Uma escolha de método que leva, mais uma vez, ao centro do humanismo, movimento grandioso que – como reiterou outro importante teólogo, Jean-Robert Armogathe, diretor da redação francófona da revista Communio – tem a sua origem mais autêntica na consciência do limite, da culpa e da queda. Termo bíblico também este e ao mesmo tempo título de uma das obras-primas de Camus.

Procede-se do material ao espiritual, ao longo de uma linha compartilhada por Joseph Rimmaudo, que, pela primeira vez, fez ressoar no Átrio dos Gentios a voz de uma tradição controversa como a maçônica. Mas, no fim, volta-se à concretude do real, como defendeu no seu discurso o filósofo Jean-Marie Glé: Ricoeur e Camus não eram apenas coetâneos, lembrou. O que os tornou mais próximos foi a pobreza da sua infância, a sua condição de órfãos.

Por isso, em última instância, o seu pensamento não tem nada de intimista e, da solidão, passa para a solidariedade, para desembocar na compaixão. Sem esperança, já o sabemos, qualquer revolta seria insensata.

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