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Dilma defende usinas hidrelétricas com grandes reservatórios

Não é de hoje que o governo sinaliza um certo descontentamento em relação ao modelo de engenharia que passou a ser utilizado na construção de novas hidrelétricas pelo país, uma opção tecnológica que reduz o tamanho dos reservatórios criados para geração de energia. Ontem, a presidente Dilma Rousseff aproveitou o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, realizado no Palácio do Planalto, para colocar de lado o discurso dúbio de seus principais assessores do setor energético e foi diretamente ao ponto. Dilma defendeu a construção de hidrelétricas com grandes reservatórios, modelo que foi utilizado para erguer a usina de Itaipu.

A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 06-06-2013.

A crítica de Dilma foi direcionada à crescente instalação de usinas baseadas no modelo conhecido como "fio d'água". Nessas hidrelétricas, turbinas utilizam o fluxo natural do rio para gerar energia, dispensando a necessidade de ter grandes quedas de água. No caso de hidrelétricas como Itaipu, cria-se um grande lago, para que se obtenha uma queda d'água maior, o que significa mais energia. As usinas a fio d'água, disse Dilma, vão exigir que o país repense a sua matriz energética, explorando geração térmica, que é mais poluente.

É uma decisão polêmica. A viabilidade de novas usinas na região amazônica, como as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, e de Belo Monte, no Pará, só foram para frente porque o governo concordou em adotar o modelo a fio d'água. Belo Monte, por exemplo, que tem gerado tanta polêmica por conta de seu reservatório de 502,8 km quadrados, teve seu projeto original alterado, reduzindo a dimensão de seu lago para menos da metade do tamanho inicialmente previsto.

"Temos de enfrentar o fato de que, se nós continuarmos a fazer hidrelétricas a fio d'água, se nós continuarmos a ter essa arquitetura de hidrelétricas, teremos aumento das térmicas", disse Dilma.

A defesa da presidente soa como um pesadelo para ambientalistas. O fato de a usina se basear em turbinas tipo fio d'água não significa que as áreas alagadas são pequenas. Os exemplos emblemáticos dessa situação são as duas hidrelétricas que o governo pretende erguer no rio Tapajós, no Pará. A usina de São Luiz do Tapajós, estruturada para gerar 6.133 megawatts (MW) no modelo de fio d'água - potência inferior apenas a de Itaipu, Belo Monte e Tucuruí - envolve a inundação total de 1.368 quilômetros quadrados de floresta. Trata-se de uma área quase do tamanho da cidade de São Paulo e que equivale a duas vezes e meia a inundação que será causada por Belo Monte. Na usina do rio Xingu, porém, a potência será de 11 mil MW.

Dilma defendeu as ações adotadas pelo governo para controlar o desmatamento e disse que o país demonstra que "é possível crescer e preservar".

Ontem, o ministro de Minas e Energia (MME), Edison Lobão, admitiu que impasses com terras e comunidades indígenas têm comprometido o cronograma de hidrelétricas importantes para o planejamento de expansão energético do país. Lobão afirmou que o governo pretende acelerar a construção de novas usinas térmicas e hidrelétricas e que está trabalhando para "adiantar as coisas para que não haja nenhum comprometimento do fornecimento de energia".

Ontem, os 140 indígenas da região de Belo Monte que tinham se reunido com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, decidiram dispensar os dois aviões da FAB que os levariam de volta ao Pará e permaneceram em Brasília. Os índios ficaram insatisfeitos com a posição do governo. Eles pedem a paralisação imediata da construção de Belo Monte e dos estudos de viabilidade socioambiental de outras hidrelétricas previstas para a região dos rios Teles Pires e Tapajós, entre os Estados do Mato Grosso e Pará. Apesar de se mostrar aberto ao diálogo, o governo garantiu que as obras de Belo Monte continuarão e que a Força Nacional de Segurança continuará a ser acionada. A hidrelétrica, que é a maior obra de infraestrutura em andamento no país, já acumula mais de três meses de paralisações, passados dois anos do início de sua construção.

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