Fiéis católicos feridos pela reviravolta ''identitária'' da Igreja

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28 Maio 2013

Enfurecidos com a "histerização dos debates", paroquianos estão se distanciando da Igreja na França.

A reportagem é de Stéphanie Le Bars, publicada no jornal Le Monde, 26-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Julien resistiu "o máximo possível" e, depois, há dois meses, esse católico praticante não conseguiu mais. "Eu deixei de ir à missa. Não aguentava mais paroquianos que distribuíam panfletos para a Manifestação para Todos - Manif". Recentemente, o jovem homossexual, unido ao seu companheiro há vários anos, deu um novo passo: "Eu interrompi a minha transferência bancária automática em favor da Igreja". Uma maneira radical de expressar a sua raiva contra a Igreja Católica, que, há nove meses, "se mobilizou contra o casamento para todos, sem se preocupar com os homossexuais, mostrando um rosto profundamente excludente".

Depois que a lei foi aprovada e promulgada, muitos católicos se sentem cansados e esperam que a "sua" Igreja saiba passar para outros temas. Outros católicos estão irritados para a continuidade das manifestações, em particular a do dia 26 de maio, e deploram "a histerização dos debates". E, depois de meses de unanimidade de fachada, alguns bispos estão começando a se preocupar com a politização e as divisões provocadas pelo assunto nas paróquias.

Na verdade, Julien não é o único fiel que viveu muito mal esse período. Muitos fiéis, mesmo que não necessariamente a favor do casamento para todos, se sentem "reféns" de um posicionamento institucional que nem sempre ousaram contestar. A sua discrição fez o jogo dos "anti", e até hoje os fiéis críticos pedem para não ser mais citados.

"Indo contra a palavra do Magistério, eles tiveram medo de passar a ser 'maus cristãos' e criar tensões nas paróquias", afirma Monique Hébrard, ensaísta católica, muito dura sobre a forma pela qual a Igreja se transformou em uma "organizadora de manifestações". Ela deplora, como outros, que a Igreja, "tão pronta para pedir um debate na sociedade, não soube organizá-lo em seu interior".

Apenas alguns padres organizaram encontros. Como aquele padre de Lorraine que não aguenta mais receber e-mails que convidam para se manifestar, "principalmente quando vem do bispado". Depois da noite de debates organizado no outono, "antes que o clima se tornasse tenso", ele não abordou mais o assunto, ao contrário do seu bispo, que, ainda há poucos dias, "convocou à resistência".

"No início, eu estava bastante reticente sobre esse texto", reconhece Bernadette Biron, uma ativa paroquiana de 73 anos. "Mas o papel da Igreja é de acolher, não de excluir. E eu não suporto que as coisas caiam de paraquedas do alto, sem que possamos refletir a respeito", testemunha essa fiel de Lyon que "não quer mais ouvir falar desse assunto". "Até mesmo os 'anti' da minha paróquia estão cheios disso", afirma essa "católica socialmente engajada".

Aos 46 anos, Marc, de Paris, pai de quatro filhos, teria "todas as características de um manifestante anticasamento gay". Ao contrário, ele sonha com "uma Igreja para todos". Assim, ele viveu "com sofrimento o fato de ser continuamente associado aos católicos da Manifestação para Todos. Mas é muito difícil falar sobre isso, é um tema 'visceral', por isso a contestação segue em frente".

Diante das "pregações homofóbicas do seu pároco", Thierry Jaillet, 50 anos, fiel de Ile-de-France, preferiu "ir embora da sua paróquia". "Eu não tive a coragem de iniciar o debate. O campo é minado, e eu me via em minoria".

Mas, "para muitos, calar foi uma forma de deixar a Igreja", previa um blogueiro católico. Alguns fazem a comparação com a encíclica Humanae Vitae, de 1968, que, proibindo a contracepção, havia afastado da Igreja muitos fiéis praticantes mais ou menos regulares. O tom apocalíptico adotado por alguns bispos também havia chocado. "Quando os manifestantes virem que o casamento para todos não tem as consequências negativas que eles anunciavam, talvez eles vão reconhecer que a Igreja estava errada", espera Thierry Jaillet.

"A forma que a Igreja adotou para entrar em uma luta política, como se ainda tivesse um papel dominante na sociedade, foi um erro", afirma o pároco de de Lorraine. "Era legítimo que ela desse início ao debate, mas nunca deveria ter aceitado a mobilização, ainda mais que isso despertou uma homofobia latente".

Diante dos dissensos que surgiram dentro das comunidades, alguns temem traços duradouros e se preocupam com os danos à Igreja. "Encontramo-nos com uma Igreja identitária, curvada sobre si mesma, apta àqueles que buscam certezas e um modelo uniforme", lamenta Marc. "Nesse período, a Igreja se transformou em uma grande seita comunitarista", afirma Thierry Jaillet.

Diante da curva "política e direitista" assumida por esse problema, alguns começam a avaliar os seus fracassos. O bispo de Le Havre, Jean-Luc Brunin, presidente da Comissão Família e Sociedade da Conferência Episcopal Francesa, convida ao "diálogo". "A dimensão política da mobilização criou fraturas dentro da comunidade católica. Algumas pessoas não se sentiram ouvidas nem respeitadas", admite.

Os mais otimistas esperam que esse episódio, ao menos, tenha trazido à tona a necessidade de um maior debate dentro da Igreja Católica. Outros pensam com preocupação em todas "aquelas crianças 'arrastadas' para as manifestações dos 'anti'" e nas marcas que essa mobilização vai deixar na geração dos jovens fiéis.

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