''Não se iludam: decisões a respeito de valores e do uso da ciência não são decisões científicas'', diz a filósofa

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23 Mai 2013

"Abordar a filosofia da ciência a partir da perspectiva de Paul Feyerabend, é um tema que sempre me é muito caro", disse a Profa. Dra. Anna Carolina Regner na abertura da palestra "Razão, método e ciência em Feyerabend", que ministrou na noite de ontem, às 19h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. Convidada a participar do "I Seminário XIV Simpósio Internacional IHU. Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades", para refletir sobre as implicações da tecnociência na sociedade contemporânea, a professora indagou: "A Unisinos já fez suas opções pela inflexão tecnológica. A minha pergunta é: o que uma reflexão filosófica pode trazer para algo já definido?" A resposta demonstra a afinidade com os estudos do filósofo da ciência austríaco: "A filosofia deve ajudar a pensar o que é a tecnociência, o que estamos comprando junto com esse pacote, e quais as implicações", ponderou.

Crítica à concepção de que a ciência e a tecnologia são as fontes últimas e únicas do progresso e do desenvolvimento, a professora do curso de Filosofia da Unisinos foi enfática: "Não se iludam. Se não formos capazes de criar algo novo, chegaremos ao patamar dos institutos desenvolvidos, mas seremos sempre subservientes; é claro que teremos acesso à tecnologia na medida em que interessar às instâncias globais". E contesta: "Se há uma inflexão tecnológica, mas a base é humanista, também não é o caso de perguntar que ideal de homem se quer. Não podemos pensar numa visão abstrata de ser humano. Tem de se pensar a natureza humana concretamente. Temos que ver como as pessoas são, a que manobras estão sujeitas, para então falarmos da natureza humana".

Especialista em Filosofia da Ciência, Anna Carolina defende a inovação e a criatividade, "não no sentido de fazer o que os outros estão fazendo", mas considerando a proposta de Paul Feyerabend: "abrir as portas para a criatividade e descobrir outras soluções". Segundo ela, a maioria dos cientistas ainda entende a ciência como uma investigação que visa a objetividade, usa a observação, razões cumulativas para estabelecer seus resultados, e é guiada por regras bem definidas e logicamente aceitais. Para avançar neste quesito, menciona o pensamento do filósofo anarquista: "a ciência ortodoxa é uma instituição entre muitas outras, não o único repositório apenas de informação sólida. As pessoas podem consultá-la, podem aceitar e usar sugestões científicas, mas não sem considerar alternaitas locais e certamente não como uma matéria de fato".

Partindo da perspectiva de Feyerabend, que aceita a comparação entre cosmovisões e culturas, e rejeita a existência de regras metodológicas universais, ou seja, de um único método científico, Anna Carolina explicou que a filosofia racionalista, "como as outras filosofias, é uma filosofia; não é a única", já que nasceu em um tempo histórico. Neste contexto, reiterou, a ciência não é neutra. "Se faz determinada ciência em função de determinados valores, os quais têm a ver com nossas disposições e o modo como agimos". Elemento central na abordagem de Feyerabend, os valores não pertencem à ciência, mas a tradições, que são conjuntos de valores, crenças e práticas que estabelecem formas de vida. "Valores têm a ver ou se revelam através das formas de vida que elegemos ou pensamos que deveriam ser". E dispara: "Decisões a respeito de valores e do uso da ciência não são decisões científicas. São decisões sobre como viver, pensar, e sentir. Eles afetam a aplicação do conhecimento e são essenciais a ele. Não há conhecimento sem valores".

Na avaliação dela, o foco na tecnociência domina a nossa época e não há como evitar o debate acerca das implicações. "Sempre digo: bendita a tecnologia, sem ela eu não estaria aqui. Mas a questão não é ser contra a tecnologia, mas é não ser escravo e não ceder ao direito de escolha. Quando se fica escravo da tecnologia para de se inovar e se emburrece. Se a tecnologia é sinônimo de inovação, não podemos investir num caminho que nos leva ao cabresto sem chance de depois fazer uma revisão", conclui.

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