Todos os diabos da Bíblia. Artigo de Giuseppe Barbaglio

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23 Mai 2013

Não parece arriscado pensar que o diabo ou Satanás seja uma projeção externa de um dinamismo interno que leva a pessoa ao mal. Os textos bíblicos concordam em rejeitar toda banalização das forças do mal presentes e operantes na existência humana e na história.

A opinião é do teólogo e biblista italiano Giuseppe Barbaglio (1934-2007), em artigo póstumo, de 25-09-1986, republicado no jornal Il Manifesto. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Neste verão, durante as audiências das quartas-feiras, o papa [João Paulo II] se deteve longamente sobre a crença católica nos anjos e no diabo. Nasceu daí, surpreendentemente, uma viva discussão nos jornais, limitada, porém, ao motivo demoníaco, com intervenções de "laicos" e de crentes: ouviram-se vozes de consenso e tomadas de posição de dissidência (também de matriz católica); aqueles que chegaram a zombar do ponto de vista do papa, e aqueles que acreditaram ver nisso um dogma católico igual a outros e, portanto, um patrimônio da Igreja, digno também de respeito, senão de aceitação. Não faltaram nem dissertações sutis sobre a qual dos dois frontes opostos cabia o onus probandi.

Na realidade, o papa havia constantemente apelado à Bíblia, fonte religiosa mais do que nunca autoritizada aos olhos dos fiéis, sejam eles cristãos ou judeus. Nesse ponto, poderíamos ser tentados a concluir que, para os crentes, já foi dita a última palavra e que a crença nos anjos e no diabo parece ser um dado inatacável.

No entanto, parece necessário fazer a interrogação: a crença supradita é parte integrante da mensagem religiosa da Bíblia, ou deve ser contada entre os detritos de natureza cultural que uma interpretação rigorosamente histórica dos textos sagrados deixa para trás sem arrependimentos?

Certamente, a uma leitura chamada fundamentalista da Bíblia, acreditada como livro que caiu diretamente do céu sobre a terra, esse ponto de interrogação parecerá até mesmo blasfemo. Mas assim, querendo ou não, seríamos novamente lançados ao tempo das discussões sobre o famoso "Detém-te, ó sol!", de Josué, e da condenação eclesiástica de Galileu.

Hoje, mesmo para os católicos, a leitura histórica dos textos bíblicos é uma aquisição de posse pacífica. Só que a mesma coisa não pode ser dita sobre os resultados concretos do método abstratamente aceito.

Pois bem, parece ser possível sustentar, com conhecimento de causa, que o que a Bíblia afirma sobre os anjos e sobre o diabo tem um valor funcional, puramente funcional. Quero dizer que isso não pertence à mensagem vital que se quer comunicar, mas constitui um modo simbólico, imaginário, culturalmente datado, justamente de círculos restritos, de expressar artigos fundamentais da fé. Concretamente, se acreditamos em um Deus transcendente, parece lógico que pessoas de cultura monárquico-oriental o representem nas vestes de um poderoso soberano sentado no trono e circundado por uma variada corte de anjos que o exaltam e o servem (cf. Isaías 6, 1ss.)

Se formos particularmente sensíveis à transcendência e à espiritualidade de Deus, com todo o cuidado evitaremos colocá-lo em contato imediato com o mundo e os seres humanos, introduzindo os anjos como mediadores. Estes, intactos, são por definição mensageiros de anúncios divinos.

Ao contrário, a corrente chamada javista, por exemplo, não trai nenhum escrúpulo em humanizar Deus e, portanto, não precisa recorrer aos anjos para confessar e expressar a sua fé em Deus que se comunica aos seres humanos. Acima de tudo, não há dúvida de que as Sagradas Escrituras judaicas conhecem, como mediadores paradigmáticos entre Deus e o seu povo, Moisés e os profetas, portanto, seres humanos.

Prosseguindo ainda com exemplificações, se nos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas é um anjo que anuncia às mulheres estupefatas diante do sepulcro vazio de Jesus: "O crucificado ressuscitou!", por sua vez, Paulo, teólogo advertido e refinado, afirma fortemente ter recebido o anúncio da ressurreição de Jesus por revelação divina direta, enquanto ela chega à humanidade através da palavra dos apóstolos.

De todos os modos, as Escrituras cristãs atestam uniformemente que Jesus de Nazaré é o único mediador entre Deus e o ser humano (cf. primeira carta a Timóteo 2, 5) e o mensageiro, portanto o "anjo", da palavra definitiva do Pai ao mundo (cf. Evangelho de João).

Por isso, talvez não seja por acaso que, nas tradições evangélicas mais antigas, das quais não fazem parte os relatos do Natal e da Epifania de Jesus, esteja ausente qualquer "revoada" angélica.

Quanto ao diabo ou a Satanás, os próprios testemunhos bíblicos mostram um desenvolvimento cultural de abordagem ao problema, muito advertido, pela solicitação ao mal. No livro do Gênesis, a linguagem parece ser de cunho decididamente mitológico: é a serpente, "o animal mais astuto do campo", que induz os progenitores à rebelião contra Deus (cf. capítulo 3).

Muitos séculos depois, segundo o Livro da Sabedoria, escrito originalmente em grego e nascido na iluminada diáspora judaica de Alexandria do Egito, o pecado original de Adão e Eva foi consumido "por inveja do diabo" (cf. 2, 24).

Escrevendo aos cristãos de Roma, Paulo de Tarso explicaria a tragédia originária da humanidade apelando a um mecanismo perverso interno ao ser humano, a uma espécie de Superego escravizante da pessoa, chamado por ele teologicamente de "o Pecado" (cf. 5, 12ss).

Em síntese, três maneiras diferentes de explicar a mesma realidade: um mal obscuro está presente na existência e na história humana desde as suas origens.

O prólogo do livro de coloca em campo, como tentador do piedoso protagonista desse drama religioso, um ser celeste que pertence à corte de Deus, justamente Satanás, isto é, o tentador.

Mais tarde, já plenamente "demonizado", Satanás fez a sua aparição na vida de Jesus: assim conta os relatos evangélicos das suas tentações. Mas o Evangelho de Mateus nos conservou a seguinte invectiva do Mestre a Pedro: "Afasta-te de mim, Satanás!" (16, 23). Foi, portanto, o apóstolo que revestiu simbolicamente o papel do grande tentador de Cristo. E a Carta de Tiago esclarece, em princípio, de onde vem a incitação ao mal: de dentro do ser humano, exatamente da sua cobiça (cf. 1, 14).

Por isso, não parece arriscado pensar que o diabo ou Satanás seja uma projeção externa de um dinamismo interno que leva a pessoa ao mal. De todos os modos, para além das diferenças culturais que os separam, os textos bíblicos concordam em rejeitar toda banalização das forças do mal presentes e operantes na existência humana e na história. Elas têm justamente um rosto "demoníaco", terrível; são o contrapeso adequado para o poder da graça libertadora, que cada página bíblica proclama como evangelho, como feliz anúncio.

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