''Agora que a união está feita, é preciso vivê-la''. Entrevista com Laurent Schlumberger

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16 Maio 2013

Durante o primeiro sínodo da Igreja Protestante Unida da França (EPUF), Laurent Schlumberger, atual presidente da Igreja Reformada da França, foi eleito presidente da EPUF. Aqui, ele responde às nossas perguntas sobre as questões postas em jogo pela união, pelos desafios e pelas mudanças do protestantismo.

A reportagem é de Marie-Lucile Kubacki, publicada no sítio da revista La Vie, 13-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi eleito nesse fim de semana como o primeiro presidente da Igreja Protestante Unida: como imagina a sua missão?

Há dois eixos. O primeiro é a comunhão: agora que essa Igreja foi feita, é preciso vivê-la. A Igreja Unida está pronta para caminhar, é preciso que ela se levante e caminhe! Entramos em um período em que o que foi decidido deve se traduzir em fatos e nas sensibilidades. O segundo eixo, mais voluntarista, diz respeito à linguagem, à expressão e ao testemunho. Em 2017, haverá o aniversário dos 500 anos da Reforma. Nós lançamos uma dinâmica sobre o tema: "Quais são as nossas teses para o Evangelho hoje?" a fim de poder trabalhar as questões da expressão da fé, fundamentais. O que é o Evangelho para nós? Como dizer hoje as convicções que nós repetimos desde a Reforma de maneira pertinente para nós e para os nossos contemporâneos?

Hoje jovens protestantes já não têm as mesmas características identitária daqueles que vieram antes deles. Eles fazem menos referência à história do protestantismo. E, além disso, o senhor afirma que não se deve mais se definir apenas no contraste com os católicos ou os evangélicos, mas de maneira positiva. Onde encontrar as bases da identidade da nova Igreja Protestante Unida?

Uma coisa fundamental com relação à geração anterior é que hoje nós vivemos a fé no modo do encontro. Não através de uma herança histórica que, de todas as formas, nós não compreendemos mais muito bem, e muito menos através de transmissões verticais e familiares, mas do ponto de vista da experiência pessoal que se vive nos encontros de grupos e com testemunhas. O que os jovens esperam? Encontrar pessoas que creiam. Além disso, o protestantismo francês é marcado pela sua dimensão minoritária, que continua como tal. Certamente, todos os cultos se tornam minoritários, mas entre nós existe uma cultura e um saber-fazer da minoria. Isso corresponde bem às expectativas dos jovens: quando estamos em minoria, temos mais necessidade de nos afirmarmos.

O que o senhor pretende implementar para favorecer a afirmação dos jovens?

É preciso desenvolver as iniciativas relacionadas com a Bíblia, como o programa ZeBible [uma Bíblia para os jovens, com o texto integral enriquecido com chaves práticas para se apropriar do Livro na vida cotidiana] que funciona muito bem. É preciso também reafirmar o coração da fé: um amor primeiro e incondicional de Deus. Não é por acaso que o nosso grande encontro de jovens, no fim de julho, se chama Grand Kiff. Por trás desse nome, há a afirmação fundamental de que nós temos fé em um Deus que nos chama e nos ama por primeiro.

Mas, tentando afirmar com mais força a própria fé, não há o risco de se cristalizar na própria identidade?

O propósito da nossa Igreja não é dizer: é preciso que vocês venham até nós! Nem conquistar novos prosélitos. Mas sim compartilhar a experiência. É por isso que os lugares que interessam aos jovens não são marcados fortemente por um ponto de vista confessional. A nossa tradição pertence mais ao registro do diálogo do que ao da conquista. A ameaça para nós não é tanto um recuo identitário esclerosado, mas sim a diluição.

Na geração dos jovens entre os 18 e os 34 anos, vê-se vir à tona palavras como "devoção" e "missão". Como o senhor explica?

São palavras um pouco antigas, mas na boca das pessoas dessa geração elas assumem um sabor novo, porque remetem a uma integridade compartilhada. Nesses últimos 20 anos, nós não propagamos muito o fato de que nós rezamos, por exemplo; não se falava da devoção, enquanto é algo fundamental na nossa história! Redescobre-se essa dimensão, assim como a vontade de dizer aos outros o que nos faz viver e o que nos sustenta.

É um fenômeno que também se observa no mundo católico...

Ampliemos o campo: isso atravessa todos os cultos, cristãos, muçulmanos, judeus e budistas. Ocorre que, voltando ao âmbito católico, a nova evangelização se une muitas vezes a uma preocupação identitária muito forte. No que diz respeito à nossa União, nós estamos do lado oposto a essa tentação. Fazer essa união mantendo tradições de estilos diferentes é justamente o sinal de que não queremos ser identitários. O protestantismo foi suficientemente identitário durante séculos, mas estamos virando a página.

Enquanto se desenvolvia o sínodo da EPUF em Lyon, ocorria em Roubaix o Congresso da Federação das Igrejas Evangélicas Batistas da França e, em Orléans, o Sínodo da União das Igrejas Evangélicas Livres da França. A EPUF pretende expandir ainda mais?

Eu não sei. Um certo número de Igrejas da tradição lutero-reformada que não fazem parte da EPUF estão interessadas em nós, e eu não me admiraria se começassem movimentos de alargamento da União. Não devemos esquecer uma coisa: muitas vezes se opõem lutero-reformados e evangélicos, mas sempre fomos evangélicos na nossa Igreja! Então é possível que essa dimensão evangélica provoque a abertura a outras Igrejas evangélicas bastante próximas a nós? Tudo é possível. O que é certo é que a recomposição da corrente lutero-reformada e do protestantismo francês não está completa. Além disso, somos observados muito atentamente por vários parceiros fora do protestantismo. Estou impressionado com o interesse de um certo número de responsáveis católicos.

De que modo o movimento de união que vocês começaram pode servir para o ecumenismo?

Outras Igrejas europeias mais estáveis se interessam pela nossa experiência da secularização e do fato minoritário. As grandes Igrejas suíças e alemãs estão vivendo de forma muito aguda uma secularização e uma evolução para uma situação minoritária que nós sempre conhecemos! Elas descobrem que o fato minoritário pode ser vivido como recomposição, e não só como perda. Intensificamos as nossas relações com os suíços e os alemães, com parcerias, visitas, trabalhos comuns. Trabalhamos muito também com Igrejas coreanas. Fazer uma união que conjugue a diversidade interessa muito, mesmo dentro da Igreja Católica.

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