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15 Maio 2013

A dois meses da eleição de Francisco, que primeira avaliação pode se fazer? Que papa Jorge Mario Bergoglio foi nessas primeiras semanas?

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 12-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Simpatia e confissões

Em primeiro lugar, é inegável a onda de simpatia para com o novo papa: as presenças nos Ângelus e nas audiências continuam muito altas, com um boom de pedidos à Prefeitura da Casa Pontifícia. Bergoglio parece querer focar muito nesse contato com a multidão, já que dedica a maior parte do tempo justamente passando entre os fiéis amontoados na Praça de São Pedro, a partir dos mais distantes, parando muitas vezes e descendo do papamóvel para saudar.

Na audiência de quarta-feira passada, ele dedicou quase uma hora e meia para esse contato pessoal com os fiéis. Apesar do indubitável esforço físico que isso implica, Francisco mostra considerar tal proximidade como um elemento insubstituível do seu ministério de bispo "com o povo". Há quem olhe com um certo ceticismo e, em alguns casos, até mesmo com incômodo essa "lua de mel" com as multidões, esperando o momento em que os "hosanas" serão substituídos pelos "crucifica-o", talvez após algum posicionamento forte sobre os temas da moral sexual.

Mas seria um erro catalogar o que está acontecendo apenas como um efeito de novidade amplificado pela mídia. Desde os primeiros dias após a eleição de Francisco, os seus acenos e os seus acentos ao tema da misericórdia ("A mensagem de Jesus é a misericórdia. Para mim, digo isso humildemente, é a mensagem mais forte do Senhor", afirmou ele na missa na paróquia de Sant'Anna no domingo, 17 de março) moveram algo muito mais profundo do que uma onda de simpatia, já que muitas pessoas se reaproximaram da confissão mesmo depois de décadas de distanciamento da Igreja, citando explicitamente as palavras do papa, fato confirmado não apenas pelas esporádicas entrevistas jornalísticas, mas também por uma pesquisa mais sistemática promovida pelo sociólogo Massimo Introvigne.

O caso de Santa Marta

O Papa Francisco, após a eleição, confirmou a colaboradores e a chefes de dicastérios curiais "donec aliter provideatur", isto é "até que se proceda de modo diferente", mantendo assim as mãos livres para fazer modificações quando e como considerar necessário. Com algumas decisões tomadas desde o início do seu pontificado, Francisco – que simplesmente continuou sendo ele mesmo, continuando a manter o estilo do seu episcopado em Buenos Aires – contribuiu para modificar protocolos consolidados e, ao mesmo tempo, deu um sinal no sentido da sobriedade e da simplicidade, que os fiéis reconheceram e apreciaram.

E alguns, provavelmente tocando na ferida, logo rotularam como "pauperismo", porque isso põe em discussão um certo uso do dinheiro e uma certa ostentação de sinais e de joias eclesiásticas. Decisivamente inovadora foi a escolha de permanecer morando na Casa Santa Marta, a residência onde se alojaram os cardeais durante o conclave. Nesse caso, não se tratou de uma questão de "sobriedade" (o apartamento privado do papa no Palácio Apostólico certamente não é aposento real), mas sim uma decisão provocada pelo sentimento de "isolamento" que Francisco sentiu visitando pela primeira vez aquela que deveria ser a sua casa.

Permanecendo em Santa Marta, Bergoglio despotencializou o "Apartamento", entendido como coroa e filtro de colaboradores ao seu redor. Sem contar que Santa Marta, além de lhe permitir um maior contato com as pessoas, também é uma oportunidade para encontros e trocas fraternas com os hóspedes, como no caso do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, com a qual o papa se entreteve por um longo tempo e informalmente em diversas ocasiões, compartilhando com ele o mesmo teto. Ou, como aconteceu há dois dias, quando Francisco foi esperar na porta de Santa Marta a chegada do novo papa copta Tawadros II.

Pregação simples

Outra novidade do papado é representada pelas breves homilias (nunca mais do que 10 minutos), que Francisco profere durante a missa matinal celebrada na capela da Casa Santa Marta, que foi concelebrada com prelados de passagem ou por expoentes da Cúria, na presença de grupos de empregados vaticanos e de outros hóspedes. As sínteses oferecidas pela Rádio do Vaticano tornaram-se um acontecimento cotidiano.

O papa prepara essas homilias todas as manhãs, depois de se levantar às 4h30min e de rezar e meditar sobre as Escrituras do dia por quase duas horas. As suas palavras são simples, compreensíveis. Várias vezes ele já falou sobre a doença da autorreferencialidade e do carreirismo na Igreja – temas muito caros a Bento XVI, aprofundados por ocasião de consistórios e de ordenações episcopais, embora muitas vezes as suas palavras tenham sido abandonadas justamente por aqueles que estavam ao redor dele –, assim como convidou os cristãos a saírem, a se dirigirem às "periferias geográficas e existenciais", a deixarem-se guiar pelo Espírito Santo.

As transcrições integrais dessas homilias improvisadas não são divulgadas (trata-se de missas privadas), nem são transmitidas via rádio. Mas não é difícil ter uma ideia sobre o seu estilo ouvindo as pregações públicas de Francisco, que muitas vezes deixa de lado o texto escrito para improvisar: como quando pediu que os novos padres de Roma sejam "mediadores" e não "intermediários", ou quando citou a avó e os seus preciosos ensinamentos, ou ainda quando disse, citando São Francisco de Assis: "Anunciem o Evangelho, se necessário também com a palavra", deixando entender como o anúncio e o testemunho devem ser transmitidos com a vida.

Reformas das reformas

Nas congregações gerais antes do conclave, veio dos cardeais o pedido de uma reforma da Cúria, assim como de uma maior colegialidade e compartilhamento de algumas escolhas referentes ao governo da Igreja. O Papa Francisco, no dia 13 de abril, exatamente a um mês da eleição, nomeou um conselho de oito cardeais aos quais foi confiado o estudo de uma reforma da constituição Pastor Bonus, que regula a Cúria Romana e as suas estruturas.

O conselho, composto por oito cardeais – sete dos quais não curiais, mas arcebispos nos cinco continentes – também é encarregado de aconselhar o papa de forma permanente no governo da Igreja. A reforma da Cúria, portanto, será estudada por purpurados que não pertencem a ela. Toda previsão, por enquanto, está fora de lugar: sabe-se apenas que esse órgão – pensado para servir o papa, e não para governar centralmente a Igreja Católica – deve ser simplificado, racionalizado, tornado mais adequado às exigências do tempo presente, menos burocrático.

O papa já se encontrou com muitos cardeais e muitos expoentes da Cúria (além das audiências que são noticiadas, existem muitas outras, à tarde, em Santa Marta, que permanecem confidenciais) e acima de tudo ouviu. Em mais de um caso, quem foi recebido, assim que saía, considerava que devia contar o diálogo ocorrido. Mas muitas vezes se tratou de "desiderata" propriamente ditos, e não de indicações do pontífice. Certamente, já mudou a relação entre o papa e os chefes de dicastério, que antes deviam esperar até oito meses antes de obter uma audiência: ele será mais direto, imediato e constante.

O perfil do futuro papa, segundo Bergoglio, foi contado pelo padre Angel Strada, depois da eleição, a Evangelina Himitian, autora do livro Francisco, el Papa de la gente, uma conversa privada sua com Bergoglio ocorrida três dias antes da sua partida para o conclave.

Falando sobre o perfil necessário do novo papa, o arcebispo de Buenos Aires havia dito que, segundo ele, "em primeiro lugar, deve ser um homem de oração, profundamente unido a Deus. Em segundo lugar, deve ser profundamente convencido de que Jesus é o Senhor da história. Em terceiro lugar, deve ser um bom bispo, capaz de acolher, terno com as pessoas e capaz também de criar comunhão. Enfim, deve ser capaz de reformar a Cúria".

Os cardeais, em menos de 24 horas, no último dia 13 de março, parecem tê-lo encontrado.

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