Palco de competições olímpicas em 2016, Baía de Guanabara sofre com acúmulo de lixo

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30 Abril 2013

A cena, de tão cotidiana, já não causa mais estranheza a Isabel Swan. Ao botar o barco nas águas da Baía de Guanabara, a velejadora precisa se desvencilhar de sacos plásticos, tampinhas de refrigerantes, latas, palitos de sorvete... Um dos cartões-postais cariocas recebe diariamente uma média de cem toneladas de lixo flutuante, carregado pelos rios que cortam a Região Metropolitana do Rio, segundo estimativa do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Na ausência de coleta domiciliar adequada e com medidas paliativas que avançam a passos de formiga, a “boca banguela” cantada por Caetano Veloso sofre, a três anos dos Jogos Olímpicos.

A reportagem foi publicada no jornal O Globo, 28-04-13.

"Treino diariamente na baía desviando de todo tipo de lixo flutuante. Em agosto vou receber atletas da Nova Zelândia aqui no Iate Clube (em Niterói). Estou envergonhada. O panorama não tem mudado nos últimos anos. Algo precisa ser feito com urgência. Temos que torcer para não chover ou bater um vento sul (condições em que o lixo se espalha mais facilmente) durante os Jogos Olímpicos", critica a velejadora, medalha de bronze em Pequim, há cinco anos.

Se cumprir a meta de despoluir 80% das águas da Baía de Guanabara até 2016 — um dos compromissos olímpicos — parece a cada dia uma tarefa menos exequível, os esforços do poder público se voltam para medidas paliativas. A principal delas são as ecobarreiras, obstáculos que visam a capturar o lixo flutuante. Atualmente, são 11 instaladas na foz dos rios que desembocam na baía. Em 2012, as ecobarreiras capturaram 4.246 toneladas de detritos, apenas 9,9% a menos do coletado no ano anterior (4.714 toneladas). Nos últimos dois anos, foram retirados desses rios 2.878 pneus — uma média de quatro por dia.

— As ecobarreiras, de fato, não têm eficiência muito grande. Inclusive são projetadas para que se rompam em caso de chuvas fortes, para evitar inundações — diz a presidente do Inea, Marilene Ramos, acrescentando que, sem coleta de lixo adequada nos municípios, será impossível chegar a uma solução definitiva.

Outra iniciativa pensada para o curto prazo é a instalação de Unidades de Tratamento de Rios (UTRs). A primeira delas (que beneficiaria a Baía de Guanabara), a ser instalada no Rio Irajá, ainda não saiu do papel. Custará R$ 40 milhões aos cofres da Petrobras — incluindo manutenção por dez anos —, como medida de compensação ambiental da Refinaria Duque de Caxias. A lógica das UTRs é tratar o esgoto já no leito dos rios, antes de a carga orgânica chegar à baía. A expectativa é que a unidade do Irajá trate 12% das fontes de poluição que chegam ao mar.

O prefeito de Caxias, Alexandre Cardoso, afirma que muitos caminhões de recolhimento de lixo são impedidos de entrar nas favelas dominadas pelo tráfico, aumentando o problema:

"Vamos tirar três mil casas das margens do Rio Sarapuí, com o programa Minha Casa Minha Vida. Essa questão do lixo está diretamente ligada à segurança pública. Volta e meia, as empresas de coleta são impedidas de entrar nas comunidades pelos traficantes".

Nas barcas, danos de R$ 2,3 milhões por ano

O lixo flutuante causa transtornos também ao transporte hidroviário. De acordo com a concessionária CCR Barcas, os danos provocados pelos resíduos implicam gastos anuais de R$ 2,3 milhões com limpeza, equipes de mergulho, substituição de filtros, pintura, energia e manutenção. Por causa do problema, em 2012, as barcas foram levadas 215 vezes ao estaleiro para serem consertadas — o número corresponde a 25% do total de reparos. O lixo afeta principalmente o sistema de refrigeração dos motores das embarcações.

"O volume pós-chuva é imensurável. Há cada vez mais lixo acumulado. Além de material orgânico, encontramos pedaços de geladeiras, redes de pesca, troncos de bananeiras, partes de sofás, velocípedes quebrados...", enumera o gestor de Operações da CCR Barcas, Jorge Castro.

E se filho feio não tem pai, como diz o ditado, há muito material boiando por aí sem que um responsável se apresente. As praias da Ilha do Catalão (no Fundão), área vizinha à Faculdade de Educação Física da UFRJ, mais parecem um lixão a céu aberto.

Dentro do Fundão, a responsabilidade é da universidade. Mas, se o lixo chegar a uma praia da Ilha do Governador, por exemplo, a Comlurb recolhe, explica a companhia.

A universidade informou que faz mutirões esporádicos, mas que as marés e as chuvas acabam trazendo resíduos de fora da Cidade Universitária.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em agosto de 2010, estabelece que, no caso das embalagens, quem pôs o material no mercado deve se responsabilizar por sua destinação adequada.

Na avaliação da promotora estadual de Justiça Rosani Cunha, pouco se avançou nos últimos anos na despoluição da Baía de Guanabara:

"Movemos uma ação (contra o estado) em 2007. O governo sempre diz que está fazendo obras. É lastimável. Surpreendentemente, o juiz (Ricardo Starling Barcellos, da 13ª Vara de Fazenda Pública) entendeu que o governo está agindo. Recorremos, e o caso agora está no TJ. A efetividade das ações de despoluição, a olho nu, é zero".

O secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, pondera que a meta olímpica de despoluição exigirá esforços conjuntos, mas será cumprida:

— Lixo é do cidadão e das prefeituras. Mas não estamos de braços cruzados. Investimos R$ 6 milhões por ano em educação ambiental. E fechamos todos os lixões no entorno da baía.

O Comitê Rio 2016 diz ter “plena confiança” de que a Baía de Guanabara estará em perfeitas condições para a realização dos Jogos.

Presidente do Inea, Marilene Ramos, diz que prefeituras são as maiores culpadas pelo acúmulo de lixo na Baía de Guanabara

Eis a entrevista.

Em 2008, o ambientalista Elmo Amador (falecido em 2010), em entrevista, estimou em 80 toneladas por dia o volume médio de lixo despejado pelos rios que desembocam na Baía de Guanabara. Dá para fazer uma projeção atual?

Estimo que tenha havido um crescimento de 30% de lá para cá (ou seja, seriam cerca de cem toneladas por dia atualmente). A principal culpa é do precário serviço de coleta que as prefeituras prestam. Só dos rios Iguaçu, Botas e Sarapuí, na Baixada, já tiramos cinco milhões de metros cúbicos de lixo e lama.

Quantas ecobarreiras já foram instaladas e beneficiam diretamente a Baía de Guanabara? Elas funcionam?

Somente em rios que deságuam na Baía de Guanabara, temos 11 ecobarreiras. São um paliativo, não há uma eficiência muito grande. Durante chuvas torrenciais, elas arrebentam. As ecobarreiras são um paliativo. Não há uma eficiência muito grande. Estamos trocando a cooperativa de catadores da ecobarreira do Rio Meriti, porque volta e meia dá problema. O custo operacional é da Associação de Supermercados.

Qual a previsão para o funcionamento da Unidade de Tratamento do Rio (UTR) Irajá?

Fica pronta no fim do ano e está sendo bancada pela Petrobras. Se a gente conseguir implementar UTRs, já teremos uma situação bem mais confortável para 2016. Na Baía de Guanabara, hoje, dos 12 pontos de monitoramento, começamos a ter melhorias em dois: nas proximidades da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) Alegria (no Caju) e na ETE Icaraí.