João Paulo II, Oscar Romero e a política de fazer santos

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27 Abril 2013

Notícias desta semana de que o falecido Papa João Paulo II pode estar à beira da santidade depois de um segundo milagre ter sido creditado à sua intercessão não são uma grande surpresa: quando ele morreu há oito anos, multidões já clamavam a sua canonização, e o Papa Bento XVI rapidamente dispensou o período de cinco anos de espera habitual para fazer com que o processo se desenrolasse.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio Religion News Service, 25-04-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas a notícia de que o Papa Francisco, há apenas seis semanas no cargo, abriu o caminho para a canonização tão protelada do arcebispo salvadorenho martirizado Oscar Romero é um choque que envia outro sinal importante sobre as prioridades do novo papa.

"A santidade muitas vezes tem tanto a ver com política e imagem do que qualquer outra coisa", disse o padre jesuíta Harvey Egan, professor emérito de teologia do Boston College.

"Não é surpreendente para mim que este papa atual, sendo da América do Sul, com as mesmas inclinações que Romero, desbloquearia o processo e diria 'Façam aprovar a sua causa', e eu acho que com razão".

Quase desde o momento em que o cardeal Jorge Bergoglio foi escolhido como o primeiro papa do hemisfério Sul, aumentaram as esperanças entre muitos apoiadores de Romero de que a dedicação do papa argentino aos pobres faria dele um crente na canonização de Romero.

Romero foi um defensor aberto dos pobres e dos direitos humanos em El Salvador. Durante a sangrenta guerra civil do país, ele foi morto a tiros por um esquadrão da morte de extrema-direita em 1980, enquanto celebrava a missa. Ele foi imediatamente saudado como mártir, tornando-se um ícone da luta da Igreja pela justiça social e contra a opressão.

Mas esse apoio também levantou bandeiras vermelhas no Vaticano, onde o Papa João Paulo II e seu principal policial doutrinal, o cardeal Joseph Ratzinger – o futuro Bento XVI – pensaram que a devoção a Romero estava muito intimamente ligada a causas de esquerda, como a teologia da libertação.

Como resultado, a causa de canonização de Romero nunca ganhou impulso. O processo foi formalmente aberto em 1997, mas mesmo as pessoas envolvidas no caso disseram que nada estava acontecendo.

Mas, depois da renúncia-surpresa de Bento XVI e a eleição ainda mais surpreendente de Francisco um mês depois, o arcebispo Vincenzo Paglia, autoridade vaticano encarregada de levar adiante a causa de Romero, anunciou no último domingo que ele havia se encontrado com Francisco no dia anterior, e a causa de Romero estava agora "desbloqueada" e poderia prosseguir.

Como Romero foi assassinado, ele poderia ser declarado mártir se o Vaticano determinasse que ele foi morto por causa de sua fé, e não apenas por razões políticas. Se for classificado como mártir, a Igreja poderia ignorar as regras normais e beatificá-lo. Então, ele só precisaria de um milagre – e não os dois habituais – para ser nomeado santo.

Nestes dias, os milagres são geralmente curas médicas inexplicáveis. Em 2005, uma freira francesa teria sido curada da doença de Parkinson depois que orações foram ditas a João Paulo II em seu nome. Esse milagre levou à sua beatificação em 2011, o passo antes da canonização formal como santo. Nesta semana, uma revista católica italiana informou que um painel vaticano de sete especialistas médicos aprovou o veredito de uma cura milagrosa de uma mulher não identificada.

O relatório gerou especulações de que João Paulo II poderia ser nomeado santo ainda em outubro deste ano, perto do 35º aniversário da sua eleição em 1978.

Juntar as canonizações de João Paulo II e Romero é um cenário que iria provocar desconfiança, mas a ideia não é sem precedentes na política de fazer santos.

Em 2000, o próprio João Paulo II beatificou o Papa Pio IX, um ferrenho tradicionalista considerado inimigo da modernidade, e o Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965) e ajudou a introduzir a Igreja na era moderna.

Em 2009, Bento XVI juntou um anúncio avançando o processo de canonização do seu controverso antecessor dos tempos da guerra, Pio XII, com um decreto semelhante referente a João Paulo II, que era considerado um grande amigo da comunidade judaica.

Juntar as canonizações do santo padroeiro da teologia da libertação com o papa que tentou suprimi-la seria não convencional – mas talvez não para Francisco, que já provou ser o mais não convencional dos papas, com um conjunto de prioridades totalmente próprio.

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