51ª Assembléia Geral da CNBB. Vinho novo em odres velhos?

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14 Abril 2013

Sérgio Ricardo Coutinho, presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil) e professor da História da Igreja, no Instituto São Boaventura e de Formação Política e Econômica do Brasil e de “Teoria Política” no Centro Universitário IESB, em Brasília, comenta o tema central da Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB que se realiza em Aparecida.

Eis o artigo.

No último dia 10/04, os mais de 360 bispos, da maior Conferência Episcopal do mundo, deram início à sua 51ª Assembleia Geral. O tema central deste ano é “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”.

Ao que tudo indica, os bispos resolveram finalmente enfrentar um dos desafios propostos pela Vª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e caribenho, que se reuniu em 2007, em Aparecida (SP): a necessidade de conversão pastoral (DA 370) e, consequentemente, de “abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DA 365) para que a Igreja deixe de lado uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. E uma destas estruturas, já ultrapassadas, é a paróquia. Mas, pretendem os bispos acabar com esta experiência, mais que milenar, ou vão tentar “salvá-la” dando-lhe um rosto novo?

De fato, coincidentemente, esta AG da CNBB acontece em um clima de novidades e de até algumas “rupturas” que o mundo católico vem acompanhando por meio dos gestos e palavras do novo papa Francisco. Em sua Audiência Geral de 27/03, Francisco convocava a Igreja para “abrir as portas” e sair ao “encontro dos outros” (ou como ele insiste em dizer: “ir para as periferias da existência”) e lamentava a atual situação da paróquia que nada tem de “missionária”: “que lástima, tantas paróquias fechadas!”.

Será uma tarefa árdua para o episcopado brasileiro durante estes dias de discussão, pois a paróquia é, como bem observou o Pe. José Antônio Almeida, um dos fenômenos eclesiais de longuíssima duração e que hoje apresenta uma série de dificuldades (“Paróquia, comunidade e pastoral urbana”, Paulinas, 2010).

De um ponto de vista histórico-sociológico, hoje a paróquia continua sendo uma instituição típica de Cristandade com seu caráter fortemente rural, onde ainda predomina, em muitos lugares, a liderança autocrática, vivendo sob um modelo sociocultural reacionário, de ação pastoral limitada e fechada sobre si mesma.

Além disso, é uma organização de massa onde, nas missas, os fiéis estão um ao lado do outro, mas sem comunicação entre si, não formando uma comunidade; desenvolve algumas atividades religiosas e cultuais, mais para clientes (consumo de bens religiosos) que para fiéis (comunidade de filhos e filhas de Deus).

Permanece vítima de seu caráter territorial e alheia aos outros ambientes sociais. Perdeu mobilidade e acabou se confundindo com a exterioridade física: a matriz, a casa paroquial, a secretaria, as obras paroquiais. Por isso, reduzida a um gueto sacral e administrativo, a paróquia se transformou num imóvel em que se prestam alguns serviços advindo da demanda religiosa tradicional.

Sua prática mais constante não é o testemunho/anúncio do Evangelho (martyría), nem o serviço (diakonía), mas o culto (leitourghia). Tem mantido e reforçado, ao longo dos séculos, o privilégio de celebrar os sacramentos. Ela responde a um modelo sacral onde os lugares de culto são evidentes: o templo, o altar, o sacrário, o batistério, o confessionário e, em alguns lugares, o cemitério. Neste sentido, tudo gira em torno do pároco, que é um “sacerdote”, isto é, um homem do culto. É responsável pela administração em todos os sentidos e em toda abrangência. A paróquia, em última análise, é o “senhor pároco”!

Também podemos dizer que a paróquia tornou-se uma instituição econômico-financeira. O maior volume do financiamento da Igreja passa pelas paróquias, desaguando, depois, nas dioceses e, finalmente, na Santa Sé. Os recursos são muito mais voltados para financiar suas atividades-meio que suas atividades-fim, sobretudo em relação à formação de pessoas, à alavancagem das atividades pastorais e à missão.

Como já é tradicional nas preparações de suas Assembleias anuais, o Secretariado-geral da CNBB organiza uma Comissão do Tema-Central (formada por bispos e peritos) para a produção de um primeiro texto para estudos e debates. Esta Comissão preparou um “texto-mártir” que foi enviado a todos os bispos antes da Assembleia para que possam propor as primeiras correções, emendas e supressões.

Solicitei também o mesmo a alguns especialistas, que conheço, em sociologia, bíblia e pastoral que leram e criticaram a 1ª versão do texto. O teor das observações feitas por estes revela bem qual o tipo de proposta inicial de discussão do tema central desta Assembleia.

A palavra “nova” existe apenas no título (“Comunidade de comunidades: uma nova paróquia”). Na verdade o documento apresenta sugestões para “salvar” a velha paróquia. A impressão que o documento deixa sobre esta proposta de “comunidade de comunidades” é que se está procurando reajustar um edifício que vai só cuidar das “rachaduras” e de agregar-se novas salas ou corredores. Seria bom que os bispos lessem os últimos trechos da homilia de Frei Cantalamessa na celebração da Sexta-feira da Paixão durante a primeira Semana Santa do Papa Francisco.

Ora, o que hoje se propõe é que o modelo paroquial não somente seja melhorado, senão radicalmente repensado na linha da eclesiologia do Vaticano II. Seria necessário abandonar uma perspectiva da paróquia como um edifício de múltiplos usos, com muitas novas salas ou habitações conjugadas. Em vez disso, a paróquia deveria ser uma comunidade itinerante, profética e missionária mais do que um edifício de culto e de múltiplos serviços eclesiásticos.

O documento traduz uma mentalidade clerical tanto em sua linguagem, quanto em seu esquema e na visão que apresenta dos problemas e das soluções. Percebe-se uma ausência de contribuições e análises vindas do laicato. Daí, uma ausência sistemática das CEBs. Elas aparecem definidas, mas não explicitadas e surgem em meio aos movimentos apostólicos, novas comunidades e grupos eclesiais.

Percebe-se também a ausência de uma séria reflexão sobre o Presbítero necessário para coordenar esta paróquia “renovada”. Que tipo de padres temos hoje? Que Presbítero hoje está capacitado para esta paróquia “moderna”? Como lembrou, em um artigo, o Pe. José Comblin: “que o clero atual não tem condições para aplicar esse programa”.

Pois bem, vamos acompanhar o desenvolvimento deste importante evento eclesial e verificar qual será o produto destes dias de trabalho colegial. Esperamos que o “magistério” do papa Francisco seja levado a sério pelo episcopado brasileiro, caso os bispos desejem que a Igreja no Brasil seja verdadeiramente missionária.

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