Terrenos vazios viram fonte de alimento para comunidades da periferia de SP

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11 Abril 2013

Ao volante da caminhonete, Hans Temp aponta terrenos vazios na zona leste de São Paulo. Estão tomados pelo matagal – quando não se transformaram em depósito de entulho. Com os vidros fechados por causa da chuva, voltamos de uma horta comunitária que a ONG Cidades Sem Fome, idealizada por Hans em 2004, ajuda a manter no bairro de São Mateus. Onde hoje se veem dezenas de canteiros com pés de alface, rúcula, alho poró, milho e muitos outros alimentos, há quatro anos havia muita tranqueira. "Nem sei quantos caminhões foram tirados daqui", lembra Hans.

A reportagem é de Tadeu Breda e publicada por Rede Brasil Atual, 03-04-2013.

Apesar do nome e sobrenome germânico, Hans é gaúcho. Estudou administração de empresas no Rio de Janeiro e veio para São Paulo depois de um curso de agroecologia na Alemanha. A experiência no país de seus avós mudou os rumos da sua vida. "Lá existe uma cultura muito forte de plantar coisas em casa. E não é porque não tenham dinheiro pra comprar comida", analisa. "Por causa da guerra, o cara mais milionário cultiva uns pés de tomate por hobby ou flores pra enfeitar a casa." Foi quando Hans teve um estalo: no Brasil há muitos espaços disponíveis dentro das cidades, um monte de gente que precisa trabalhar, ganhar dinheiro e comer – e não fazemos nada.

Daí nasceu o projeto, que se propôs a aproveitar terrenos ociosos e transformá-los em terra produtiva. Com equipe reduzida, a ONG Cidades Sem Fome oferece assistência a 21 hortas apenas na capital paulista, todas elas em bairros carentes. Os agricultores são selecionados na própria vizinhança. "Normalmente, é gente com idade mais avançada, com 55 ou 60 anos, que acaba ficando fora do mercado de trabalho por ter pouca qualificação profissional", define Hans. "Eles começam a plantar, têm alimento diversificado para seu autoconsumo e comercializam todo o restante. No final do mês, repartem o dinheiro." Antes, porém, é preciso conseguir a terra. "Usamos espaços que não são aproveitados, mas que têm dono. São terrenos da prefeitura, de igrejas, da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e de empresas públicas."

Quando visitei a sede do Cidades Sem Fome, em janeiro, Hans me levou para conhecer duas hortas que ajuda a manter: uma delas embaixo de linhas de transmissão da AES Eletropaulo, no bairro de São Mateus, e outra, em cima de oleodutos da Petrobras, em Sapopemba. Eles pedem autorização para usar a área, apresentam um projeto aos proprietários, assinam um contrato de comodato e, só quando está tudo devidamente legalizado, começam a trabalhar. Os terrenos que Hans me apontou enquanto rodávamos pela zona leste de São Paulo eram todos da Petrobras.

"Esses dutos existem pelo país inteiro, principalmente no litoral, onde estão as grandes cidades brasileiras", contabiliza. "Daria pra beneficiar milhares de pessoas." É sua utopia. Enquanto não pode concretizá-la, capricha nos espaços que já foram conquistados. Hans me leva até uma das hortas-modelo que lhe enchem de orgulho, coordenada por Genival Morais de Farias. Com 63 anos, seu Genival não está bem. Há pouco tempo foi atropelado por um ônibus e tem o braço esquerdo atravessado por pinos de metal. Os dois dias em que ficou internado, garante, foram os únicos em que não trabalhou na horta.

"Estou aqui todo dia, de domingo a domingo." Mas bastou receber alta para retomar a lida – e nem a tipoia azul que sustenta o braço ferido impede seu Genival de andar pra lá e pra cá, mexer a terra e mostrar sua obra para os visitantes. "Me encho de orgulho", revela, com a desenvoltura de quem já concedeu muitas entrevistas e apareceu mais de uma vez em programas de televisão. "Essa é minha mata. Eu sempre gosto de ter uma mata dentro da horta porque traz muitas coisas boas da vida, as brabuletas, os passarinhos e as amoras pra comer." Mas as flores de seu Genival cumprem mais que uma função poética no terreno. "Os insetos vão nas flores e não vêm nas minhas hortaliças."

A variedade dos produtos cultivados no terreno também transcende a mera boa vontade de oferecer todo tipo de verduras, frutas e legumes para a clientela. "A biodiversidade se encarrega de fazer o controle das pragas", anota Hans. "Mas, ainda assim, quando dá muito pulgão, a gente usa caldo de fumo, cinzas, sempre temos uma solução orgânica." Tudo o que se colhe na horta do seu Genival é cultivado sem adição de agrotóxicos. E os vizinhos adoram. "Aqui você compra tudo verdinho na hora, não é que nem no supermercado", diz um cliente que veio em busca de pés de alface, mas acabou levando também espigas de milho. "O preço é um pouquinho salgado, mas sei que estou comendo uma coisa que não tem veneno."

Consumo local

Para Hans, não basta que a horta seja cultivada em regiões carentes – é importante que os produtos sejam comercializados no próprio bairro. "Não faz muito sentido fazer projeto social, pegar dinheiro público, montar uma horta maravilhosa, produzir uma alface linda e vender pra mulher do embaixador lá em Higienópolis." O diretor da ONG lembra que o projeto tem ainda um viés de segurança alimentar. "A dieta do pessoal aqui está muito baseada em arroz, feijão, farinha, refrigerante e alguma mistura – quando tem. Com a horta, você consegue mudar os hábitos de quem mora no entorno."

Depois de conhecer o trabalho do seu Genival, mais consolidado, pedi a Hans que me levasse a uma horta em estágio inicial. A diferença é gritante, inclusive no entorno. Paramos a caminhonete em frente a uma boca de fumo em Sapopemba e entramos por um portãozinho em meio a olhares desconfiados, mas respeitosos. Hans não se importa: quer apenas tocar o projeto adiante – e nos lugares que realmente precisam, como os rincões da zona leste. Ao contrário da horta-modelo do Cidades Sem Fome, a nova roça que Hans está ajudando a implementar ainda está com a terra avermelhada e cheia de pedras. "Ainda precisa de bastante trabalho aqui."

Isso não quer dizer que já não cresçam repolhos pelos canteiros que foram improvisados no lugar. "Vai ficar bonito igual à do seu Genival." Se for verdade, os agricultores poderão tirar dali entre R$ 600 e R$ 1 mil por mês com a venda de hortaliças, como ocorre lá, além de ter algum alimento saudável e variado para compor as refeições todos os dias. A viabilidade econômica do projeto é uma das cartadas mais fortes de Hans na hora de argumentar com o poder público, com quem, conta, não tem tido uma boa relação. A prefeitura de São Paulo afirma que, paralelamente às ONGs, também presta assistência técnica aos agricultores da zona leste dentro do Programa Municipal de Agricultura Urbana e Periurbana (Proaurp).

"Acreditamos que essas hortas têm grande potencial de abastecer localmente", avalia Tiago Janela, diretor do Departamento de Agricultura e Abastecimento da prefeitura. "Se cada espaço ocioso dentro da cidade conseguir produzir hortaliças, é possível fornecer aos vizinhos e até a feiras na região." Além da assistência prestada pelo Proaurp, a administração municipal mantém uma Casa de Agricultura na região e, em São Mateus, articulou a organização de uma cooperativa, cujo primeiro presidente foi justamente seu Genival. Mas Hans acha pouco. "Precisamos fazer mais modelos como este, deixar bem arrumado, e mostrar aos nossos dirigentes que esse projeto é viável. Assim poderão reproduzi-lo em escala no município todo", propõe. As barrigas agradecem.

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