Setores conservadores acusam o Papa de fazer “confusão litúrgica” por lavar os pés de duas mulheres, uma delas muçulmana

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Por: André | 02 Abril 2013

A “oposição silenciosa” ao Papa Francisco começa, embora lentamente, a erguer sua voz. Enquanto Bergoglio continua enchendo diariamente a Praça São Pedro – curiosamente sem a presença, ou ao menos sem o protagonismo de outrora, dos movimentos conservadores – em suas aparições públicas, alguns representantes da mais rotunda ortodoxia já começaram a mostrar seu mal-estar diante de algumas atitudes do bispo de Roma, que consideram representar “uma mudança de 180 graus”.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada no sítio espanhol Religión Digital, 01-04-2013. A tradução é do Cepat.

A renúncia em dar a bênção “Urbi et Orbi” em diferentes idiomas e, sobretudo, o rito do lava-pés da Quinta-feira Santa (quando  Francisco lavou os pés de duas mulheres, uma delas muçulmana), desatou a ira dos setores mais conservadores da Igreja católica.

“Houston, we have a problem” [“Houston, nós temos um problema”]. Este é o título do artigo publicado pelo liturgista Adolfo Ivorra, professor do Centro de Estudos Superiores Litúrgicos de León e fundador do sítio Lex Orandi, dedicado à interpretação da liturgia católica, em sua vertente mais ortodoxa. Ivorra, doutor em Teologia Litúrgica pela Universidade de São Dâmaso de Madri – cujos escritos foram reproduzidos pela La Gaceta, deste domingo, com o título “O Papa e a confusão litúrgica” –, afirma no artigo que “desde que saiu à sacada da Praça São Pedro, já são muitos os leitores deste blog – entre eles reputados liturgistas – que perguntam ou expressam seu estupor diante de uma mudança de 180 graus nas formas, etc.”.

Na opinião de Ivorra, “pouco me importa a cor dos seus sapatos, se usa esta ou aquela cruz ou este ou aquele anel. O que me preocupa sumamente é que o primeiro a não obedecer às rubricas seja o ‘patriarca’ de nosso rito, o romano”. O liturgista mostra-se especialmente preocupado com o fato de que Francisco lavara os pés de duas jovens.

“O problema é ainda maior se compreendemos que hoje o papa não só lavou os pés de duas mulheres, mas que uma delas não era católica, mas muçulmana”. O próprio Ivorra afirma ter sofrido este “problema” em sua própria pele, pois “voltei das missas da Quinta-feira Santa, uma delas em que tive que dizer a uma senhora que o lava-pés é um rito para varões, que assim estava nas rubricas do Missal”.

“O relativismo entra em nossas casas”, adverte o sacerdote, que pede ao Papa Francisco que “siga fielmente as rubricas de seu próprio rito, o romano, e dê o exemplo aos demais sacerdotes e bispos de fidelidade às normas da Igreja. O Papa não é um monarca absoluto ao modo dos governantes seculares, mas que reconhece, como já dizia Bento XVI, que a liturgia é uma realidade que lhe vem dada e que não reconstrói segundo seus gostos. O primado do bispo de Roma não é tarefa fácil. Roguemos ao Senhor para que o próprio Papa Francisco ou algum de seus colaboradores faça ver a Sua Santidade a importância destes sagrados ritos”.

Religión Digital tentou, em vão, solicitar a opinião de Adolfo Ivorra sobre seu artigo. O liturgista limitou-se a assinalar que se encontrava em uma “importante reunião” e que suas opiniões encontravam-se refletidas em seu blog e no sítio Lex Orandi, onde está publicado o referido artigo. Não obstante, no sítio, no domingo, quis esclarecer que não havia dado autorização para que o mesmo fosse publicado, com outro título, na La Gaceta.

As críticas, vindas dos mesmos setores, chegaram de diferentes países, ao ponto que o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, teve que responder às acusações indicando, não sem certa ironia, que “o rito era para uma pequena comunidade composta também de mulheres, uma situação específica na qual excluir as moças teria sido inoportuno à luz da simples intenção de comunicar uma mensagem de amor a todos em um grupo que certamente não incluía refinados especialistas em normas litúrgicas”.

Seja como for, o certo é que as palavras de Ivorra – acolhidas com alvoroço em certos setores – denotam uma preocupação diante do que já são mais que “gestos” do Papa Francisco. “Quando sobre a escrivaninha, à noite, se tem como último livro de consulta o Código de Direito Canônico e as normas litúrgicas e não o Evangelho, acontece isso”, opina o sacerdote Carlos Ros Caballar, que lembra a Ivorra que “Jesus era acusado pelos fariseus de que não respeitava as normas prescritas pela Lei de Moisés e pelas tradições judaicas. Não guardava o sábado, nem ele nem seus discípulos. Quer dizer, que negligenciava as normas. E chamava os fariseus de sepulcros caiados e coisas do gênero, enquanto eles o acusavam de que comia com pecadores e acolhia prostitutas”.

O liturgista José Manuel Bernal, por sua vez, defende que as celebrações de Francisco “têm uma cor nova, rejuvenescida, mais quente, mais entranhável”. Na sua opinião, o Papa “foge dos comportamentos estereotipados e convencionais. Evidentemente, não é escravo das rubricas. Ele se sente acima das rubricas”. “Alguns pedem que o Papa seja exemplar. E está sendo – defende Bernal. Ele está marcando uma nova linha, tendo novas atitudes nas celebrações litúrgicas. Os liturgistas não devem ser escravos das rubricas; antes, devem aplicá-las com inteligência e com bom critério. Essa é a linha do Vaticano II, e assim se reflete no novo Missal”.

“Alguns reprovam o Papa por ter lavado os pés, na Quinta-feira Santa, de duas mulheres. Pior ainda: uma delas era muçulmana. O que a eles parece um escândalo eu considero um grande passo, uma grande decisão, um ato emblemático do Papa, que há de marcar horizontes novos. Primeiro, por ter incorporado as mulheres a este ato tão simples e exemplar realizado por Jesus na ceia. Porque não foi só um ato de humildade (embora tenha sido); é preciso vê-lo como um gesto sacramental, equivalente à eucaristia, expressão de amor, de entrega e de serviço. Essa é a linha sugerida pelo evangelista João e assim este gesto é interpretado pelos especialistas”, acrescenta Bernal, que insiste em que o fato de que uma das meninas fosse muçulmana está carregado de “um impressionante espírito missionário e transmite uma grande inquietude ecumênica. Uma vez mais os gestos se apoderam das palavras. Uma vez mais, também, a ditadura das rubricas sucumbe diante da força impetuosa do Evangelho. Repito: o Papa Francisco está abrindo novos horizontes para a liturgia”.

Alguns críticos do comportamento litúrgico do Papa estão falando de “caos litúrgico” e de “problema teológico”. “Eu não vejo nem uma coisa nem outra. O ‘caos’ o percebem apenas aqueles que estão acostumados a avaliar as celebrações litúrgicas na medida em que estas reproduzem com exatidão milimétrica as normas estabelecidas nas rubricas”, conclui Bernal, que destaca que “a eucaristia não é apenas expressão de fraternidade; também é fonte, impulso, ponto de partida. A eucaristia cria comunhão, fraternidade. A eucaristia celebra a grande utopia do Reino, a grande reunião dos dispersos, o grande banquete escatológico da abundância. Essa é a meta, para ela caminhamos, por ela lutamos”.

Falando de liturgia, uma das questões que mais preocupa é precisamente o estado em que ficarão as liturgias de um dos grupos outrora mais presentes em todos os atos públicos dos Papas, e agora espalhados entre a multidão: os kikos. Que, curiosamente, na Quinta-feira Santa fazem o lava-pés, mas não celebram a Eucaristia. Serão os liturgistas ortodoxos tão exaltados com os neocatecúmenos como o são com o novo Papa?

Embora, por outro lado, a questão litúrgica não deixe de ser uma desculpa, assim como a sempiterna questão que tanto parece preocupar nos últimos dias os setores mais ultramontanos: “o Papa não mudou nada importante, não reformou nada. É ortodoxo em tudo”. Raro seria que o sucessor de Pedro fosse um herege... embora não faltaram comentaristas, em diferentes meios, que, lançando mão da “sã doutrina”, acusaram Bergoglio de pouco menos que querer dividir a Igreja. Francisco não terá vida fácil, que inclusive foi acusado de “cair bem” à imprensa “anticatólica”.

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