O feminino no Gênesis: homem e mulher face a face

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20 Março 2013

Na tarde de ontem, um público atento se reuniu na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, do IHU, para ouvir a reflexão do Prof. Dr. André Wenin sobre o feminino no livro do Gênesis. A atividade fez parte de da 10ª programação de Páscoa do IHU - Ética, Arte e Transcendência e encerrou uma série de palestras com Wenin que teve início na última segunda-feira, 18 de março.

Para fazer sua análise, o professor se baseou nos versículos de 18 a 25 do capítulo 2 do livro do Gênesis, que falam sobre como Deus criou a mulher para fazer companhia ao homem.

Wenin inicia sua fala dizendo que não considera adequado falar na criação da mulher, de Eva, pois isso deixa supor que Adão, o macho, surgiu antes dela. “Meu objetivo é mostrar, ao fazer a releitura deste trecho, que não foi isso que aconteceu”, propõe.

O versículo 18 (Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”), segundo Wenin, traz a constatação do personagem divino de que algo não está certo, que seria o abandono à solidão. “A vida humana é, por definição, relacional. Da concepção à morte somos seres de relações”, argumenta o professor. Então, Deus providencia um socorro: a companhia face a face. Na tradução apresentada pelo biblista na palestra, havia a expressão “face a face”, muito importante para compreender justamente a relação de igualdade entre homem e mulher. 

Wenin esclarece que esse ser humano criado inicialmente por Deus não era um homem macho. Adão seria um humano no sentido genérico, indiferenciado, algo como um andrógeno, para citar a mitologia grega.

E aqui entra o outro trecho destacado pelo professor, que seriam os versículos 21 e 22:

“Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe parte de um dos lados, fechando o lugar com carne. Com este lado que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele”.

O primeiro destaque sobre essa passagem é em relação ao “sono profundo”, que pode ser entendido como um momento de perda de consciência, adormecimento, fazendo com que esse humano não saiba o que Deus fará com ele. “Nenhum humano sabe de suas origens, seu fundamento. Essa é uma questão antropológica importante. Nenhum humano domina seu próprio começo”, defende.

Em seguida, continua o professor, Deus se fez cirurgião, e fechou a ferida da carne aberta para tirar um lado do homem. “Aqui temos uma falta, pois foi tirado um pedaço do humano – e a cicatriz mostra isso. Estar em uma relação pressupõe uma perda. Cada um será um lado, uma parte. Toda relação humana é afetada por essa perda. No fundo, o outro é a parte que não tenho, que não sou. Ele me lembra que não sou tudo. Se não consentir com essa perda, não há uma relação plenamente estabelecida. É na relação com o outro que o ser humano admite seus limites”, explica.

André Wenin vai adiante na sua interpretação ao ler com o público o versículo 23:

Disse então o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”, esclarecendo que os termos homem (ish) e mulher (ishah) formam um jogo de palavras no hebraico.  

Segundo ele, no Gênesis, o homem, nesse momento, não se dirige à mulher, apenas a toma como sua, falando sobre ela na terceira pessoa. Ele sequer menciona a ação de Deus, pois ignora o que aconteceu no seu sono. “Ele acredita saber quem é a mulher, mais isso é só no Antigo Testamento”, brinca, rindo. E continua: “O homem não a trata como sujeito, mas se refere a ela como sendo dele, pois foi tirada dele, de algo que falta nele. É como se ele dissesse ‘sou eu fora de mim’. Como se a alteridade não fosse constitutiva da mulher”.

O importante, destaca o exegeta, é entender que homem e mulher são tomados do ser humano. Cada um é um lado, uma parte. Mas aos olhos do homem, a mulher é tomada dele, que se coloca no centro, retomando sempre a mulher como seu bem. Ele dá a impressão de que deseja controlar o que lhe escapa, a estranheza da situação. “Na verdade ele tenta preencher uma dupla falta: do que lhe foi tirado e da ausência de conhecimento sobre como isso foi feito”, explica, acrescentando que o ser humano tem medo da diferença e que a falta e a alteridade sempre trazem insegurança e são difíceis de lidar.

O próximo versículo analisado é o de número 24:

Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.

Essa afirmação, na concepção de Wenin, é a tentativa do homem em preencher uma brecha para superar sua angústia diante do desconhecido. “Daí inventamos a alma gêmea. Quando nos apaixonamos, achamos que o outro preenche nossas faltas. Na verdade, o que amamos é a sensação de não sentir mais falta de nada”. Segundo esse pensamento, deixar o pai e a mãe representa deixar o mundo conhecido e tranquilo para se unir a alguém que escapa do seu mundo, mesmo que a primeira impressão não tenha sido essa.

A partir da concepção de “carne”, em hebraico, como pessoa única e singular, o que pressupõe fragilidade e vulnerabilidade, Wenin acrescenta ainda que se o humano decide se unir a uma mulher, ele está assumindo sua vulnerabilidade e sua singularidade.

O último trecho destacado na palestra foi o versículo 25:

O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha.

“Harmonia perfeita? Não acreditem nisso”, provoca o professor, que explica que eles não sentiam vergonha, pois não se viam na sua diferença. Ainda estavam lado a lado, mas não face a face.

E Wenin encerrou sua fala com a seguinte reflexão: “Mesmo no amor, a distância permanece. O outro é um mistério e nós somos um mistério para nós mesmos. O outro deve trazer o que eu não espero. Não devemos instrumentalizá-lo, esperando que ele traga o que esperamos. Aí é que está a riqueza da relação”.

(Por Graziela Wolfart)

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