''Reforma da Cúria? Inevitável e não agradará a todos''. Entrevista com João Braz de Aviz

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20 Março 2013

O cardeal brasileiro Braz de Aviz manda um aviso: ''A reforma do Papa Francisco não agradará a todos: é possível que haja resistência. Mas é preciso podar para tornar a planta mais forte. Abolir o IOR? São Pedro não possuía um banco, mas tinha que pescar para viver...''.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 19-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Cardeal João Braz de Aviz, está feliz com a eleição de Bergoglio?


Se estou contente? Bem, não podia estar melhor. Francisco é um bem para todos.

Franciscano de nome e de fato...

Pessoalmente, eu conhecia muito bem essa sua propensão à sobriedade, a não ir buscar o supérfluo para se concentrar no essencial. Francisco, pelo que vemos ele fazer, está impondo uma direção de marcha autêntica para o percurso cristão. A sua visão mostra uma vivência mais próxima do povo. Ele tem a coragem de fazer, de testemunhar em primeira pessoa. Lembro-me da conferência de Aparecida do episcopado latino-americano, em 2007. A transparência com que ele enfrentou o nó das desigualdades sociais chamou a atenção de todos. O seu testemunho era direto através de uma coerência de vida. Ouvíamos um homem que mostrava o que já havia posto em prática, ele por primeiro. Na América Latina, é muito sensível o papel de liderança do pastor que se torna um guia para o povo no momento em que o povo percebe a sua credibilidade. Isso também acontece com os políticos, mas com os pastores essa dinâmica é muito mais pronunciada. Bergoglio é amado porque é simples.

Qual é o seu projeto?

Podemos intuir a Igreja que ele delineia com o seu descer entre o povo, sem formalidades, para estar mais perto do povo. Ele insiste muito no conceito da misericórdia. Já em Aparecida ele criticava aqueles pastores que tendiam a se ocupar com posições de prestígio, ao invés de descer ao lado das pessoas. É muito bonito o seu modo de ver as coisas da vida, de conceber a grandeza de Deus, um Deus que perdoa, que ama e nunca se cansará de fazer isso.

Ele quer uma Igreja pobre...

Não é um conceito novo, porque reflete a famosa opção preferencial pelos pobres. Mas ele foi além, falou de uma "Igreja pobre para os pobres", e isso significa que a pobreza implica em comunhão.

Na Cúria, nem todos vão pular de alegria...

Eu acho que a Cúria precisava de uma mensagem como essa. Ou, melhor, todos precisávamos disso. Sobriedade significa evitar o risco do carreirismo, a busca a todo custo de um posto importante em vez de outro. É o exercício da sobriedade que Francisco nos ensina, o voltar o olhar para a radicalidade do Evangelho.

Ele vai viver no Palácio Apostólico ou optará por permanecer em Santa Marta?

Eu imagino que ele tenha se admirado com tanto espaço, pensando sobretudo na sua casa em Buenos Aires, três peças ao todo. Eu não sei se ele irá viver lá. Quem sabe? Francisco é uma pessoa livre interiormente, e eu tenho certeza de que ele continuará nos surpreendendo com aquele seu grande sorriso. Estamos todos assistindo coisas tão bonitas e coerentes que só podemos ficar tocados ou, melhor, contagiados. Certamente, talvez ele também encontrará dificuldades na Cúria.

Há quem reme contra?

Como todas as mudanças, essa também envolverá algumas dificuldades. É todo um conjunto de coisas, a Igreja é uma realidade complexa. Provavelmente, haverá atitudes relutantes, talvez essa simplificação tão grande não poderá agradar a todos.

Haverá uma reforma?

Eu acho que sim. Todos os ramos da videira tem um significado próprio, mas às vezes é preciso fazer uma poda para tornar a planta mais forte. Estou convencido de que Francisco levará adiante o projeto de reforma através do diálogo e com a ajuda de todos. Eu não acredito que ele queira rupturas, no máximo quer deixar claro que a Igreja já não pode ir nessa direção.

O cardeal Fox Napier disse que São Pedro não tinha um banco, dando a entender que era preciso rever o IOR...

(Risos) Bem, é preciso dizer que São Pedro, embora não possuísse um banco, contudo, tinha que ir pescar para se manter. Devemos refletir sobre o fato de que a maior segurança não é dada por uma conta bancária, mas sim por Deus. Certamente, a nossa fonte de sustento é o nosso trabalho, mas depois entra em cena a Providência. Onde está a nossa segurança, no dinheiro ou em Deus? O dinheiro, assim como o IOR, obviamente são instrumentos de que precisamos para operar em áreas muito difíceis do mundo.

O senhor também sonha com uma Igreja pobre?

No mundo, há zonas de miséria sem nada porque há uma péssima distribuição dos bens em nível planetário. É preciso uma reflexão fraterna, uma dimensão comunitária.

O que a América Latina pode ensinar para a Europa?

Nós fomos evangelizados pela Europa há cinco séculos, mas não entendemos por que no continente que nos ensinou Cristo a sua mensagem se dispersou, desapareceu o sentido de Deus entre o povo. Por que há esse cansaço na fé? O que aconteceu? Bento XVI evidenciou isso. Agora caberá a Francisco intervir.

O secretário de Estado irá mudar logo?

No momento, o papa prorrogou todos com a fórmula donec aliter provideatur. É uma confirmação provisória. Francisco tomou um pouco de tempo para conhecer e estudar. Os tempos não serão longos. Ele está trabalhando com a visão de um Pai.