Decálogo, a revelação de Deus e caminho para felicidade? com André Wenin

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18 Março 2013

Dentro da programação da 10ª Páscoa IHU – Ética, arte e transcendência o convidado e exegeta belga André Wenin se debruçou sobre o Decálogo durante o curso Aprender a ser humano. Um estudo de Gênesis 1 – 4, cuja proposta é realizar um trabalho de exegese e transposição para compreender os textos bíblicos na contemporaneidade. “O título da minha palestra é provocador, afinal como um texto de leis como preceitos pode ser um caminho para a felicidade?”, provocou Wenin durante a abertura da segunda parte do evento, na tarde da segunda-feira, 18 de março.

Para o professor, o Decálogo, além de ser uma série de preceitos, é antes uma proposta para caminhar rumo a verdade. Os mandamentos aparecem no capítulo 20 do Êxodo e, por isso, Wenin antes de abordar o Decálogo propriamente dito contextualiza onde tais leis de Deus aparecem. “No capítulo 14 do Êxodo, onde é contada a passagem do mar vermelho, é relatado o nascimento do povo Israel, já que eles saem de um lugar fechado onde não há vida, o Egito, pois são escravos, para um lugar aberto, o deserto. Isso tudo acontece pela transposição de um lugar úmido, exatamente como no nascimento”, relaciona Wenin.

A primeira palavra de Deus


O exegeta lembra, que aquele que deu liberdade e a vida tirando um povo da escravidão é o mesmo que oferece palavras para trilhar um caminho livre rumo à felicidade.

Nesse sentido, o pesquisador ressalta que o primeiro texto do Decálogo é uma palavra de afirmação da liberdade de Israel, em relação a escravidão e a morte. “Eu sou o senhor teu Deus, que te libertou do Egito, do antro da escravidão – poderíamos dizer que o Deus que deu a liberdade e a vida dará uma lei para livrar o povo disto”, explica Wenin. Ele ressalta que essa é a única vez na Torá em que
Deus fala diretamente ao povo, pois nas demais Moisés é o interlocutor.

A negação

Uma das reflexões que André Wenin propõe sobre o tema é de que as primeiras frases do Decálogo são negativas, mas é justamente isso que liberta as pessoas. Para o estudioso, dizer o que as pessoas devem fazer aprisiona muito mais que dizer aquilo que não deve ser feito. Além disso, o professor destaca que Deus não nos obriga a fazer nada.

“Deus nos diz o que não fazer, por exemplo, não roubar, não matar, não ser violento. Mas e o que fazer? Faça o que quiseres, respeitando essas regras. Ora, como melhor responder a um Deus a não ser vivendo essa liberdade”, pondera Wenin.

A liberdade dada por Deus

De acordo com o professor, no primeiro mandamento, Deus deixa claro que o culto que ele pede a Israel é sobre ele que lhes deu liberdade. “Na verdade se diz que Deus mostra o seu controle suscitando a liberdade. O decálogo nunca diz que deve servir a Deus, a Bíblia diz, mas o Decálogo não. Porque ele liberta, ele nunca se relaciona no sentido de servidão, mas de amar - amar a Deus é praticar suas palavras”, sustenta Wenin.

Quem são os nossos deuses

Para o professor a liberdade dada deve ser protegida contra as escravidões, pois estamos em um mundo em que pensamos em Deus em termos de monoteísmo, mas não é por isso que as palavras de outros deuses não sejam interessantes para nós. Segundo André Wenin, a questão que se impõe é o que é um Deus? Quem sãos os deuses opostos ao Deus de Israel? “Os deuses aparecem sempre com uma reinvindicação de absoluto enquanto o ser humano é relativo”, explica. Para exemplificar sua tese, Wenin provoca: “Se vocês querem conhecer o Deus de uma sociedade façam a pergunta: a que sacrificamos os homens? A dignidade humana? A felicidade humana?”.

No entanto, o exegeta contrapõe essa ideia de Deus com o da Bíblia, que em vez de sacrificar os humanos, ele se recusa a isso e pretende fazer uma aliança com o povo. “Dizer as palavras – tu não terás outros deuses – pode se ligar a um apelo a Deus, porque ele não se coloca numa posição absoluta, mas o homem pode colocá-lo como absoluto. Não que deus se imponha como um tudo, mas porque Israel o fez com um tudo. O Deus bíblico não é como os outros deuses que quer a morte dos homens porque é um deus de aliança”, avalia.

Deus e as imagens

Uma discussão pertinente apresentada pelo professor, sobretudo nesse momento da história em que vivemos uma era das imagens, é justamente a representação de Deus. Para Wenin não é possível fazer imagens de Deus, pois seria uma forma de congelar o passado. “Uma imagem é uma representação, é algo que se torna presente sempre a partir do passado”, considera. “O que poderia então levar alguém a fazer uma imagem imóvel de Deus? É o desejo de escapar a um Deus que não somente se revelara no passado, mas se proteger de um Deus que diz - eu sou quem eu serei - é uma maneira de congelar a figura de Deus para escapar de um Deus que eu ainda não conheço. Quando não se conhece o que vem pela frente ficamos inseguros”, complementa.

A imagem, para o pesquisador, deforma ao mesmo tempo que revela, já que ao mostrar apenas uma faceta da imagem de Deus se esquece das outras. “É por isso que a imagem de Deus é a imagem do homem. Existe a tentação de querer empreender e no fundo o ser humano não pode prescindir da imagem para pensar e para pensar Deus. É por isso que é capital não imobilizar a imagem de Deus”, argumenta.

Quem é André Wenin

André Wenin, SJ, nasceu em 1953, em Beaurang, e é teólogo belga. Ensina a exegese do Antigo Testamento e as línguas bíblicas (grego e hebraico bíblicos) na faculdade de teologia da Universidade Católica de Louvain, da qual foi decano de 2008 a 2012. Também professor convidado de teologia bíblica do Pentateuco na Universidade Gregoriana de Roma e secretário da Rede de Pesquisa em Análise Narrativa dos Textos Bíblicos (RRENAB).

Diplomado em filologia clássica pelas Faculdades Universitárias Notre-Dame de la Paix, em Namur (FUNDP), em 1973, obteve o título de Bacharel em teologia pela Universidade Católica de Louvain (UCL), em 1978, e de Doutor em ciências bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, em 1988. Sua tese de doutorado intitulou-se Samuel e a instauração da monarquia (1 S 1-12), foi defendida em junho de 1987 com Summa cum Laude e publicada em 1988. Coordenou o Seminário “Tradições bíblicas” (Paul Beauchamps) no Centro Sèvres (Paris 1983-1986).

Privilegiando a análise narrativa e retórica do Antigo Testamento, suas pesquisas se dedicam principalmente a Bíblia Hebraica, em particular, ao Gênesis e aos livros dos Juízes e de Samuel. Interessa-se também pela antropologia e pela teologia dos textos bíblicos. É orientador de pesquisas nestas áreas.

É autor de extensão produção bibliográfica, da qual destacamos, em português, De Adão a Abrão. Ou as errâncias do humano (Loyola); José ou a invenção da fraternidade e O homem bíblico (Loyola).

Reportagem: Ricardo Machado

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