Dom Clemente Isnard: proposta de mudança para a Igreja e plena comunhão com ela

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12 Março 2013

"Dom Clemente Isnard teve coragem em 2008 de publicar o livro que reflete as questões relacionadas às nomeações de bispos, o celibato dos padres, as ordenações femininas e sobre os bispos eméritos", escreve Gilmar Passos, teólogo.

Segundo ele, citando o secretário-geral da CNBB, "“Dom Clemente marcou a história da Igreja no Brasil, deixando um legado que honra a Diocese que pastoreou por 32 anos e o episcopado brasileiro com o qual manteve estreita comunhão ao longo de seus 51 anos de ministério episcopal.”

Eis o artigo

Não podemos ir adiante sem refletir um pouco sobre o Bispo Brasileiro que faleceu no século XXI e que antes fez parte de grandes movimentações positivas na Igreja. Não considero tardio seu pronunciamento no livro Reflexões de um Bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais, publicado em 2008, considero sim, maduro, corajoso e oportuno. Maduro, porque foi a partir de grandes anos de reflexão, oração e ação pastoral em sua vida que ele chegou a tal estado de consciência. Corajoso, porque tornaram transparentes na Igreja muitas questões que muitos padres, bispo e papas sabem (ou souberam), mas que não tiveram coragem de falar publicamente. Oportuno, porque os tempos históricos atravessados pela Igreja exigem reflexão e transparência.

No seu livro o Bispo Dom Clemente Isnard fala de algumas questões espinhosas que para muitos não deve nem ser comentado, por serem consideradas ofensas aos posicionamentos da Igreja. No entanto, o que Dom Clemente Isnard reflete são questões teológicas realizadas atualmente na hierarquia da Igreja por corajosos Padres, Bispos e Cardeais que continuam em comunhão com a Igreja mesmo se posicionando contrários a algumas questões disciplinares dela.

É certo que há ainda um sistema de “proteção” à maioria dos fieis, para não os colocarem em “crise” de fé. Em muitas dioceses, os cursos para leigos e seminaristas ainda são controlados para impedir que reflexões importantes e necessárias não sejam feitas. Essa proteção custa caro à inteligência da fé e à humanidade dos fieis.

O Bispo Dom Clemente Isnard é um exemplo de muitos eclesiásticos que optaram por uma eclesiologia católica mais transparente e rompendo com a falsa proteção da fé. Teve coragem em 2008 de publicar o livro que reflete as questões relacionadas às nomeações de bispos (por participação popular), o celibato dos padres, as ordenações femininas e sobre os bispos eméritos.

Acredito que é necessário, no momento, apresentar brevemente o currículo de Dom Clemente. Como bispo ele se fez presente e participou de grandes momentos da Igreja Católica de modo universal e continental. Durante o período do Concílio Vaticano II, foi nomeado por Paulo VI como membro do Conselho para execução da Constituição de Liturgia, em seguida foi membro da Congregação para o Culto Divino. No Brasil, foi eleito vice-presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e eleito presidente da Comissão de Liturgia da CNBB por um período de 20 anos. Foi também eleito vice-presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano).

O Bispo Isnard, por respeito às leis eclesiásticas da Igreja, renunciou ao ministério episcopal da Diocese de Nova Friburgo em 1994 após 33 anos de dedicação. Após sua renúncia, foi nomeado vigário-Geral da Diocese de Duque de Caxias, renunciando em 1998. Numa entrevista publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos -IHU ele declara: “Aos 90 anos, resolvi em Recife dedicar o resto dos meus anos à defesa do Movimento Litúrgico e do Concílio Vaticano II".  Ainda nessa mesma entrevista o Bispo emérito de Nova Friburgo explica por que resolveu publicar os últimos escritos do seu pensamento quando estava prestes a completar 91 anos: “Ser bispo representou para mim uma conversão. Achei, então, que devia dar um testemunho público acerca das atuais instituições eclesiásticas.”

Não parece que Dom Clemente Isnard estava em crise de fé ou querendo destruir a Igreja católica ao defender questões que muitos Bispos e Papas na história da Igreja não tiveram coragem de sequer refletir. Ele realmente estava em plena consciência psicológica e de fé ao publicar o seu livro. Este livro termina com a seguinte reflexão: “Os pontos que enumero são disciplinares embora vitais para a Igreja: a nomeação dos bispos com participação dos fieis, fora de um segredo pontifício que acoberta a politicagem eclesiástica e consagra o sacrifício do povo; a garantia para os presbíteros cuja vocação não é o celibato a fim de que possam exercer o sacerdócio a vida toda; a abertura plena para a mulher ocupar lugar na Igreja o lugar que espera a quase dois mil anos; sucessão apostólica dando a todo bispo a posição autêntica de sucessor dos apóstolos e não apenas a de celebrantes de  pontificais vestidos de roxo.

E há muitas outras coisas que foram acrescentadas à disciplina da Igreja no decurso de dois milênios de sua vida e que não foram corrigidas pelo Vaticano II. Mas penso que todos os católicos têm o dever de fazer algo pela sua correção.
Cumpri meu dever.” 

Essa conclusão do livro faz menção aos temas abordados e desenvolvidos teologicamente no livro. No entanto, o Bispo Dom Clemente Isnard não foi considerado herético ou excomungado pela Igreja por refletir, escrever e publicar questões que a Igreja Romana considera lacrada. O que é certo afirmar é que o Bispo emérito de Nova Friburgo morreu em plena comunhão com a Igreja Católica Romana mesmo acreditando que ela precisa mudar algumas questões internas, apontando como possibilidade teológica, inclusive, a ordenação de padres casados e das mulheres.

Só para termos uma idéia clara da comunhão mantida entre o Bispo Isnard e a Igreja Católica vamos mencionar a nota da CNBB assinada pelo seu secretário geral Dom Leonardo Ulrich Steiner: “Dom Clemente marcou a história da Igreja no Brasil, deixando um legado que honra a Diocese que pastoreou por 32 anos e o episcopado brasileiro com o qual manteve estreita comunhão ao longo de seus 51 anos de ministério episcopal.”

Portanto, é possível exercer uma teologia com reflexão e coragem. Que a experiência de bispos como Dom Clemente Isnard seja motivacional para os setores da Igreja. Motivacional para não cairmos numa miopia teológica e eclesiológica de fechamento às novidades e à atualização da mensagem de Jesus Cristo. Rezemos para que as raridades coerentes de fé e reflexão se multipliquem constantemente.

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