Morador de favela não se vê como classe média

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11 Março 2013

Há dois anos, o pedreiro Luiz Claudio Nunes, 34, morava com a mulher e a filha na Pedra do Sapo, um morro íngreme, com casas penduradas no topo, na face leste do complexo de favelas do Alemão, zona norte do Rio. Vivia em uma casa de alvenaria exposta, com sala, quarto, cozinha, banheiro e uma pequena varanda.

A reportagem é de Chico Santos, Alessandra Saraiva e Diogo Martins e publicada pelo jornal Valor, 12-03-2013.

A menina, então com dez anos, dormia no quarto dos pais, mas a casa tinha quase todos os eletrodomésticos básicos, inclusive televisão de plasma, tudo movido por uma conexão elétrica irregular, o chamado "gato". Telefone fixo, dois celulares e na TV, a programação de canais por assinatura, outra informalidade característica das favelas cariocas.

Na época, a mulher trabalhava formalmente como secretária de consultório dentário, e Nunes conseguiu emprego de pedreiro na construção de apartamentos para abrigar moradores de áreas de risco na região do complexo. Com renda familiar acima de R$ 2 mil - equivalente a uma renda per capita na casa dos R$ 700 -, já estavam em patamar que ultrapassa em muito o piso que o governo agora adota para definir classe média.

A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE) enquadra na classificação quem tem renda familiar per capita entre R$ 291 (mínimo) e R$ R$ 1.019 (máximo). Segundo pesquisa recentemente divulgada pelo instituto Data Favela, 65% dos moradores das favelas brasileiras em 2011 já podiam ser considerados economicamente integrantes da classe média.

O trabalho da Comissão para Definição da Classe Média da SAE, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), estimou que 48% da população brasileira seria classe média em 2009 e, considerando os movimentos de renda e de crescimento populacional, esse percentual teria atingido 54% no ano passado. Os percentuais (de 2009) são semelhantes aos calculados pelo IBGE com base no Censo de 2010.

Cheia de ressalvas dos próprios autores, a conclusão da SAE sobre o que é classe média, baseada apenas na dimensão renda, é controvertida. O professor associado da FEA-USP José Afonso Mazzon é um crítico dela. Em sua avaliação, é preciso considerar aspectos regionais, anos de estudo, ocupação, bens, entre outros, não avaliados. "O critério precisa ser multidimensional, avaliando diversas questões", diz Mazzon. Ele argumenta, por exemplo, que o poder de compra varia intensamente de uma região para outra do país.

"Uma pessoa que ganha R$ 500 na cidade de São Paulo, e outra que recebe a mesma quantia no interior do Piauí, elas têm o mesmo poder de compra? Não. Renda é uma das variáveis que deve ser utilizada, mas não a única", afirma Mazzon. Mesmo o uso da variável renda corrente, na opinião do especialista, é equivocada e provoca distorções na interpretação das informações.

A diretora de programas da SAE, Diana Grosner, admite que o termo classe média ainda é permeado de subjetividade. "Ouvi dizer que o Eike Batista se considera da classe média. Eu costumo dizer que eu sou de classe média, e que estou em um ponto entre a minha empregada e o Eike Batista" afirmou, bem-humorada.

Quando questionada sobre se o piso de R$ 291 per capita familiar, explicitado no relatório da Comissão para Definição de Classe Média no Brasil, não seria muito baixo para classificar classe média, Diana citou dados apurados pelo economista-chefe do Banco Mundial, Branko Milanovic, no estudo "The Haves and the Have-Nots" (Os que Têm e Os que Não Têm). Ao analisar pesquisas em outros países, similares ao Pnad, do IBGE, Milanovic concluiu que, em 2011, 54% da população mundial vivia com renda inferior a R$ 291 ao mês.

"Você me diz que esse patamar de R$ 291 é muito baixo, eu respondo que a renda da classe média brasileira está acima da mediana do mundo", disse Diana. Outro ponto destacado pela técnica é que as faixas de renda delimitadas pela secretaria no relatório, e também as usadas na Pnad, não levam em conta bônus, 13º salário ou renda por venda de ativos. Ou seja: as faixas de renda apuradas pelo levantamento podem ser maiores do que as registradas.

Diana explicou que o órgão optou por usar a dimensão renda para definir classe média, no relatório elaborado pela secretaria, por ser um limite menos volátil do que outros de âmbito sociológico, como educação, por exemplo. Além disso, salientou que a renda é utilizada como parâmetro para definir classe média em outros países e instituições como Banco Mundial e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

As entrevista feitas pelo Valor mostram que a renda é o motor, mas não suficiente para uma família sentir-se confortável. A família Nunes, mesmo sem novo aumento de renda, passou a sentir-se muito mais confortável quando, contemplada com um apartamento de sala e dois quartos no condomínio Jardim das Acácias, construído para moradores de áreas de risco do Alemão, mudou-se para uma área plana, urbanizada, com rede de esgoto, transporte na porta e posto de saúde na vizinhança. "Nasci lá na Pedra do Sapo. A gente valoriza o lugar onde nasce, mas lá era difícil de subir com compras, com material de construção... Tinha até discriminação [de quem morava no asfalto]!"

Também a cabeleireira Claudineia Lacerda Amaral, de 34 anos, moradora do Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, encaixa-se nos parâmetros do governo para a classe média. Mas, ser ou não de classe média "depende do ponto de vista", diz. "Acho que minha vida melhorou muito, mas não me sinto de classe média", afirmou. Com renda mensal de cerca de R$ 2,4 mil, a cabeleireira vive com o marido, que é motoboy, e três filhos em casa de dois cômodos.

O ponto de partida para a virada na vida de Claudineia foi a compra da casa própria em 2008. A partir daí, devido ao aumento na procura por seus serviços, começou a economizar mais para compra de equipamentos e de materiais. O plano era montar um pequeno salão na sua casa, o que conseguiu no ano passado. Agora, o sonho da cabeleireira é expandir o negócio e contratar funcionários. "Mesmo assim, ainda não me sinto classe média. Acho que seria sim, de classe média, se pudesse comprar um carro, um Honda Civic."

Ter um carro novo e morar fora da favela também são itens fundamentais para que o operário e motorista Adimilson de Araújo Domingos, 44, morador da favela da Grota, no Alemão, se sinta parte da classe média. "Não me sinto de classe média. Acho que, se tivesse renda de R$ 5 mil, R$ 6 mil por mês, teria condições de morar em um lugar melhor, comprar um carro novo", disse.

No fim do mês, Domingos e a mulher, que trabalha como costureira, têm renda média mensal de R$ 2.800. Para a casa em que moram com os dois filhos, o casal já comprou uma televisão LED 40 polegadas, uma outra, de 29 polegadas, aparelho de DVD, geladeira e lavadora, entre outros eletrodomésticos. Nada disso faz Domingos sentir-se membro da classe média. Seu sonho de vida é comprar um imóvel fora da favela, mas ele diz que, hoje, não pode realizar seu sonho: "Os impostos do asfalto são caros e eu não teria condições de arcar com eles", resume.

O casal Thadeu Kaiser, 34, e Tatiana Kaiser, 33, duas filhas, é outro que comemora estar saindo da favela, que nem é tão favela assim. Eles moram no bairro de Olaria (zona norte), já na subida da Pedra do Sapo, originalmente, um morro quase desabitado. O crescimento das favelas do Complexo do Alemão colocou a rua dentro da favela e dos seus problemas de infraestrutura e de violência agora reduzidos com a pacificação feita no final de 2010. Ele é analista de sistemas e ela é assistente em uma empresa de armazenamento de células-tronco. Juntos, alcançaram uma renda líquida mensal de aproximadamente R$ 4 mil, já no teto para uma família média de quatro pessoas no estudo da SAE.

Apesar dos avanços e da boa convivência com a vizinhança, a melhoria financeira está afastando a família Kaiser do morro. Na semana passada, estavam preparando a mudança para um apartamento dos pais de Tatiana, no vizinho bairro de Ramos, com dois quartos, garagem e longe da favela. Ela conta que a nova moradia é maior, mais perto dos colégios das filhas e situada em uma área de padrão sócio-cultural mais parecido com o da família. Tatiana tem curso superior de serviço social incompleto e o marido cursa faculdade de análise de sistemas.

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