Bento XVI reformulou o seu legado?

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01 Março 2013

Os legados parcialmente dependem de quem os vê, e isso certamente é verdade com relação aos papas. Os acadêmicos podem se lembrar de Bento XVI como o intelectual mais impressionante a ocupar o Trono de Pedro em séculos, enquanto as vítimas de abuso sexual podem se lembrar dele como um símbolo de uma questão não resolvida pela Igreja. Saber qual dessas percepções é a justa, por enquanto, está fora do alcance. Ambos os modos de ver Bento XVI, e muitos mais, ainda estão pelo ar.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 28-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À primeira vista, no entanto, parece que a maneira pela qual Bento XVI está saindo do palco pode estar reenquadrando o seu legado – não no sentido de resolver os debates sobre o seu papado, mas talvez oferecendo uma ótica mais generosa para avaliar o papa.

Quando ele anunciou a sua renúncia no dia 11 de fevereiro, a reação foi surpreendentemente positiva por todas as partes.

Alguns antigos críticos foram um pouco maliciosos com relação a ela; o jornal alemão de centro-esquerda Die Tageszeitung, por exemplo, publicou a manchete "Graças a Deus!".

Em geral, no entanto, os comentaristas aplaudiram Bento XVI por humanizar um pouco o papado, e alguns definiriam a sua renúncia como um ato colegial que tornou o papa mais semelhante aos outros bispos. Em todo o espectro, os observadores também elogiaram a coragem, a humildade e o amor à Igreja que Bento XVI parece ter expressado.

Outros veem a decisão de Bento XVI como uma refrescante mudança de ritmo. Estamos acostumados a ver políticos desesperadamente agarrados ao poder, atletas que não sabem quando jogar a toalha, e celebridades que anseiam estar mais uma vez no centro das atenções. Ver alguém no pináculo da sua profissão, por assim dizer, disposto a dar gentilmente o seu boa noite surpreendeu muitas pessoas como algo comparativamente nobre.

Bento XVI provavelmente elevou essas percepções na Audiência Geral do dia 27 de fevereiro, proferindo o discurso mais pessoal e emocionalmente sincero do seu papado, senão de toda a sua vida.

Eu me encontrei com o arcebispo Vincent Nichols, de Westminster, que recém-estivera na BBC e descreveu as considerações de Bento XVI como "o discurso mais não papal que você jamais vai ouvir", referindo-se ao seu tom extremamente pessoal.

Bento XVI referiu-se abertamente ao "grande peso" do escritório, aos "momentos que não foram fáceis" que ele experimentou, e as cartas de pessoas simples de todo o mundo que ele recebeu.

Ele também adotou um tom de humildade: "Amar a Igreja também significa ter a coragem de fazer escolhas difíceis, sofrer, tendo sempre diante de você o bem da Igreja e não de si mesmo", disse.

Seria ingênuo não pensar que havia algum subtexto político. Em parte, Bento XVI provavelmente estava tentando frear uma avalanche de teorias da conspiração sobre a "real" razão pela qual ele desistiu. Mesmo assim, as suas considerações tinham o cheiro de um homem abrindo honestamente a sua mente e o seu coração.

Embora haja poucas enquetes que estejam medindo diretamente a reação à renúncia de Bento XVI, é impressionante que uma pesquisa do Pew Forum realizada dois dias depois que a notícia estourou, descobriu que 74% dos católicos norte-americanos têm uma impressão favorável dele, um dado substancialmente mais alto do que os 51% que querem que o próximo papa mantenha as posições tradicionais identificadas com o seu papado. Essa lacuna pode sugerir que a renúncia criou espaço para que as pessoas distingam entre o homem e o pontificado.

Na verdade, um debate substantivo sobre o legado de Bento XVI não está sendo feito. Na tarde do dia 28, em Roma, a Survivor's Network of Those Abused by Priests [Rede de Sobreviventes de Abuso por Padres] realizou uma coletiva de imprensa para anunciar um pedido para que as Nações Unidas imponham sanções sobre o Vaticano e suas autoridades por supostamente terem violado a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança. O mesmo grupo, em conjunto com o Centro de Direito Constitucional, com sede em Nova York, pedira anteriormente que o Tribunal Penal Internacional processasse Bento XVI.

No entanto, é difícil não suspeitar que, com o passar do tempo, as pessoas irão olhar para o papado de Bento XVI não só pelas suas decisões e polêmicas políticas, mas também pela forma aparentemente humilde e singela com que ele terminou.

Isso, é claro, pressupõe que Bento XVI manterá a sua promessa de permanecer "escondido do mundo". Se a percepção for de que ele continua exercendo influência nos bastidores, tudo permanece em aberto.