Ponto de ruptura. Fim das missas para gays

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08 Janeiro 2013

Esta semana, Vincent Nichols determinou o fim das missas especiais para católicos gays. Isso vem na sequência de sua crítica aos planos governamentais para o casamento entre pessoas do mesmo sexo [também chamado de casamento gay], tendo como contrapartida a antipatia à abordagem da igreja por parte dos apoiadores da reforma matrimonial. E por cima disso assoma a rejeição da mudança da moral por parte de Roma.

A reportagem é de Elena Curti e publicada pela revista britânica The Tablet, 05-01-2013.

No dia de Natal, o arcebispo Vincent Nichols apareceu em noticiários de rádio e televisão com uma crítica direta à forma como o governo está conduzindo a consulta sobre o casamento gay, descrevendo-a como “bagunçada” e “orwelliana”. Comentaristas liberais, entre os quais muitos católicos, condenaram o arcebispo por ensombrecer a época de Natal com um ataque político premeditado.

A BBC tinha ligado a intervenção do arcebispo Nichols com sua homilia na Missa do Galo, quando, na verdade, ele fez as observações numa entrevista que deu, na véspera de Natal, ao correspondente Robert Pigott, que cobre a área de religião.

Não obstante, o tom dos comentários do arcebispo assinalou um endurecimento de sua posição, não só sobre a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas também sobre toda a questão da homossexualidade. Isso, por sua vez, teve o troco de uma crítica muito mais incisiva à igreja por parte de apoiadores do casamento gay. O que vinha cozinhando em fogo brando durante algum tempo virou hostilidade aberta.

Na quarta-feira, então, chegou uma notícia dramática: o arcebispo Nichols está pondo um fim ao que se tornou popularmente conhecido como as “missas para gays” numa igreja do Soho, no centro de Londres.

As missas celebradas duas vezes por mês na igreja Nossa Senhora da Assunção na Warwick Street têm atraído queixas acerbas de blogueiros conservadores que afirmam que elas são um foco para católicos gays sexualmente ativos, muitos dos quais têm uniões civis com parceiros do mesmo sexo e a maioria dos quais apoiam o casamento gay. Também se tem relatado que há inquietação em Roma por causa das missas para gays e que esse descontentamento foi transmitido ao arcebispo Nichols.

Na mesma declaração, o arcebispo anunciou que estava passando a igreja da Warwick Street para o Ordenariado Pessoal de Nossa Senhora de Walsingham, que é o setor da igreja para os ex-anglicanos e um projeto muito caro ao papa Bento XVI.

Não há como deixar de perceber o grau em que a questão da homossexualidade, e particularmente do casamento gay, dominou a igreja do mundo todo durante a época de Natal. Em sua alocução à Cúria Romana, o papa Bento fez uma crítica elegante do clima atual, que, disse ele, possibilita que as pessoas se sintam no direito de “escolher” seu gênero e, por implicação, “optar” por casar com alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto.

No outro extremo do espectro se encontra um bispo de Camarões, onde atos homossexuais são ilegais, que sustentou em sua missa de Natal que relações entre pessoas do mesmo sexo constituem “um crime contra a humanidade”.

Na verdade, em todo país onde o casamento gay está sendo considerado, os bispos o condenaram. Em sua Missa do Galo, o bispo de Shrewsbury, Mark Davies, afirmou que os líderes políticos britânicos eram movidos pelas mesmas falsas noções de progresso que tinham impelido os líderes nazistas e comunistas no século XX.

Falando em termos consideravelmente mais brandos, o arcebispo de Birmingham, Bernard Longley, escreveu que a política do governo não poderia prever todas as consequências que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo traria para as crianças. “Aprendemos algo a respeito da diversidade e adquirimos respeito pela diferença, primeiramente, através da complementaridade de nossos pais”, escreveu o arcebispo Longley numa carta pastoral para marcar a Festa da Sagrada Família.

E houve o novo tom adotado pelo arcebispo Nichols, ainda expresso em linguagem pastoral, mas que agora adquire uma característica claramente mais firme.

O arcebispo explica que na Diocese de Westminster foi oferecida assistência pastoral a pessoas “com atração pelo mesmo sexo” [ou homoafetivas], “motivada por uma consciência das dificuldades e do isolamento que elas podem enfrentar e pelo imperativo de Cristo de amar a todos”. Ele diz que nos últimos seis anos essa assistência pastoral esteve concentrada nas missas do Soho.

Entretanto, a declaração reconhece que, ao longo desse período, “a situação das pessoas homoafetivas mudou tanto na sociedade quanto no direito civil”. Essas mudanças não são explicitadas, mas é razoável supor que ele esteja se referindo ao crescente consenso existente na sociedade no sentido de apoiar os direitos dos gays, à introdução da união civil entre eles e, agora, aos planos de criar uma legislação para o casamento gay.

Mas, como ressalta o arcebispo Nichols, o ensinamento da igreja sobre a sexualidade não mudou. Ele cita observações que fez ao Catholic Herald em 17 de março de 2012: “Muitos tipos de atividade sexual, incluindo aquela com pessoas do mesmo sexo, não são compatíveis com o ensino da igreja. Nenhum indivíduo, bispo, sacerdote ou leigo, está em condições de mudar esse ensino da igreja que consideramos ser dado por Deus.”

Em 28 de fevereiro de 2012, o arcebispo Nichols emitiu uma declaração para marcar os cinco anos de existência das missas do Soho e anunciou que elas estavam sendo reexaminadas para assegurar que sua finalidade pastoral estivesse sendo respeitada e “que não sejam ocasiões para confusão ou oposição no tocante ao ensino positivo da igreja sobre o sentido da sexualidade humana ou os imperativos morais que decorrem desse ensino, que defendemos e que todos nós nos esforçamos para cumprir”.

Para reforçar essa mensagem, ele acrescentou a nota publicada em 2007 pelo então arcebispo de Westminster, cardeal Cormac Murphy-O’Connor, quando introduziu as missas no Soho, e, além disso, um “esclarecimento” sobre o ensinamento da igreja a respeito da homossexualidade proposto dez anos antes pelo cardeal Basil Hume. Durante alguns anos, Hume estivera profundamente preocupado com uma nota emitida em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé aos bispos americanos acerca da questão da homossexualidade que, segundo ele, tinha sido citada fora de contexto e causado “aflição e raiva, junto com uma compreensão equivocada da posição da igreja”.

Hume enfatizou a importância de defender a dignidade humana das pessoas homossexuais, explicando, ao mesmo tempo, por que “a igreja não aprova atos genitais homossexuais”. Ele ofereceu essa interpretação a respeito do ensinamento do Catecismo de que a inclinação homossexual é “objetivamente desordenada”.

“A orientação ou inclinação particular da pessoa homossexual não é uma falha moral. Uma inclinação não é um pecado. Entretanto, uma inclinação para atos que são contrários ao ensino da igreja foi descrita como ‘objetivamente desordenada’. ‘Desordenada’ [disordered, em inglês] é uma palavra dura em nossa língua. Ela sugere de imediato uma situação pecaminosa, ou ao menos dá a entender uma degradação da pessoa ou até uma doença. Ela não deveria ser interpretada dessa maneira”, escreveu ele.

Tais pronunciamentos do cardeal Hume mostravam uma característica independência de Roma que se manifestou durante o tempo que ele passou na direção em Westminster. Algumas pessoas sugeriram que Hume podia se dar o luxo de ser independente porque recebeu seu chapéu cardinalício logo depois de se tornar arcebispo.

O arcebispo Nichols ainda está esperando depois de três anos e meio passados em Westminster. Isso se deve ao fato de que, por convenção, a Inglaterra e o País de Gales só têm um cardeal com direito a voto no conclave papal, de modo que ele teve de esperar até que o cardeal Murphy-O’Connor fizesse 80 anos e não pudesse mais votar. O cardeal só comemorou seu 80º aniversário em agosto passado. Mas alguns comentaristas creem que a continuação das missas no Soho e o apoio dado pelo arcebispo Nichols à união civil entre pessoas do mesmo sexo, expresso numa entrevista à televisão durante a visita do papa Bento à Grã-Bretanha em 2010, também pesaram.

“É possível que ele não tenha ganho seu chapéu cardinalício por causa de seu apoio à união civil entre pessoas homoafetivas e, em certo sentido, está recuperando o terreno que perdeu naquela ocasião”, disse o historiador da igreja Michael Walsh.

Tem-se dito que o núncio, arcebispo Antonio Mennini, um italiano próximo aos primeiros escalões do poder no Vaticano, desaprova incisivamente as missas do Soho, assim como a Congregação para a Doutrina da Fé. Na reunião da conferência episcopal em novembro, o arcebispo Mennini instou os membros a intensificar sua campanha contra o casamento gay e citou o posicionamento vigoroso dos bispos franceses sobre o mesmo assunto como um bom exemplo.

Sabe-se que o arcebispo Nichols e a Congregação para a Doutrina da Fé vêm refletindo sobre as missas no Soho ao longo dos três últimos anos, e é possível, e até provável, que ele tenha decidido descartá-las depois de consultar dirigentes da Congregação em Roma no dia 21 de novembro, data em que estavam marcadas reuniões na Cúria.

O cardeal Murphy-O’Connor só deu o sinal verde para as missas no Soho depois de se reunir com o então prefeito da Congregação, William Levada, ex-arcebispo de São Francisco, EUA, onde também há uma igreja estreitamente identificada com os católicos gays.

Mas é sabido que o atual prefeito, o alemão Gerhard Müller, não simpatiza tanto com elas. O que está claro é que os opositores das missas para gays em Londres têm reclamado consistentemente delas. Eles alegam que as pessoas que as frequentam contestam abertamente o ensinamento da igreja sobre a atividade sexual. Colocaram vídeos no YouTube, incluindo um que filmaram às escondidas e que mostra um católico transgênero lendo uma oração de súplica numa estante de leitura coberta com uma bandeira do arco-íris, representando o orgulho gay.

Pouco antes do Natal, o arcebispo Nichols se encontrou com membros de (En)Courage, parte de uma rede global que oferece assistência a indivíduos afetados pela atração por pessoas do mesmo sexo que sustenta ser a única organização de sua espécie que é plenamente endossada pela Santa Sé. Durante a reunião, um dos membros afirmou que ouviu dizerem nas missas do Soho que “não havia problema em viver um estilo de vida homossexual ativo”.

Uma missa regular especificamente para católicos gay é incomum na igreja no mundo todo. Durante os preparativos para a visita papal de 2010, os jornalistas britânicos e estrangeiros que tinham a tarefa de preparar perfis da Igreja da Inglaterra e do País de Gales se interessaram muito pelas missas no Soho.

Questionado num documentário da BBC Radio 4, o arcebispo Nichols defendeu vigorosamente as missas. Perguntado a respeito de telefonemas de críticos que diziam que alguns membros da congregação estavam contestando o ensino da igreja, o arcebispo disse que esses críticos estavam errados ao fazer tais suposições e deveriam “calar-se”.

O próprio cardeal Hume estava muito consciente do perigo de se permitir que a missa fosse usada para fazer campanha em favor de uma causa contrária ao Magistério. Em 1997, houve uma ocasião muito divulgada, na Catedral de Westminster, em que ele recusou a comunhão a um homem que estava usando uma faixa ou cinta com o arco-íris. Os responsáveis pela organização das missas do Soho negam que a missa celebrada na Warwick Street alguma vez tenha sido usada dessa maneira, insistindo que a missa é para todo o mundo, ao mesmo tempo em que acolhe de modo especial católicos e católicas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) e suas famílias.

“Nós sempre nos ativemos cuidadosamente ao acordo que fizemos há seis anos para assegurar que as missas oferecidas fossem públicas e não pudessem dar escândalo nem fazer campanha em favor de qualquer mudança ou evolução no ensinamento da igreja”, disse Joe Stanley, presidente do Conselho Pastoral das Missas do Soho. Não obstante, na declaração desta semana, o arcebispo Nichols questionou a propriedade de se celebrar uma missa regular para um grupo particular e acentuou o caráter “universal” da missa.

“A comunidade [LGBT] não assumirá a responsabilidade por organizar a missa, mas não há razão para crer que a comunidade não vá participar da organização da missa”, disse ele.

Amanhã, um jesuíta que faz parte da equipe regular das missas do Soho, Pe. Brendan Callaghan, celebrará a missa para marcar a Festa da Epifania consciente de que ela será uma das últimas dessas missas na Warwick Street, já que o arcebispo Nichols disse que as missas vão acabar durante a Quaresma.

Há incerteza quanto à possibilidade de que elas tenham permissão para continuar a ser celebradas na Farm Street ou em qualquer outra igreja católica. Antes das missas oficialmente sancionadas da Warwick Street, seu local foi, durante alguns anos, uma igreja anglicana do Soho, a de Santa Ana. Naquele tempo, os participantes se sentiam excluídos da igreja. Pode o arcebispo Nichols garantir que eles não se sintam assim de novo?

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