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Agrotóxicos e doença de Parkinson: pesquisadores da UCLA desvelam mais provas da conexão

Por vários anos, os neurologistas da UCLA (nt.: Universidade da Califórnia, Los Angeles) vêm conjeturando uma percepção de que há um vínculo entre agrotóxicos e a doença do Mal de Parkinson. Até agora, os venenos agrícolas paraquat, maneb e ziram — comumente asperguidos no Vale Central da Califórnia e outros lugares — vêm sendo conectados aos aumentos da doença, não somente entre os trabalhadores, mas também nos indivíduos que simplesmente vivem ou trabalham próximos aos campos cultivados ou que provavelmente venha inalando as partículas da deriva.

A reportagem é de Mark Wheeler, publicada no UCLA Newsroom e reproduzido pelo sítio Nosso futuro roubado, 03-01-2013.. A tradução é de Luiz Jacques Saldanha.

Agora os pesquisadores da UCLA descobriram a conexão entre o Parkinson e um outro agrotóxico, o benomil (nt.:  fungicida usado no Brasil), cujos efeitos toxicológicos ainda permanecem mesmo depois de 10 anos de ter sido banido pela agência ambiental dos EUA (nt.: U.S. Environmental Protection Agency).

Ainda mais significativo é que a pesquisa sugere que a série de eventos danosos postos pelo agrotóxico benomil, podem também ocorrer em pessoas com a doença de Parkinson que nunca foram expostas ao veneno, de acordo com Jeff Bronstein, autor e coordenador do estudo e professor de neurologia na UCLA, e seus colegas.

A exposição ao benomil, dizem eles, inicia uma série de eventos celulares que podem levar à doença de Parkinson. O agrotóxico impede que a enzima chamada aldeido desidrogenase/ALDH se mantenha como uma tampa sobre a DOPAL (nt.: 3-4-dihidroxifenilacetaldeido), uma toxina que naturalmente ocorre no cérebro.  Quando fica sem ser controlada pela ALDH, a DOPAL se acumula, danifica neurônios e aumenta o risco individual para o desenvolvimento da doença de Parkinson.

Os investigadores acreditam que suas descobertas a respeito do benomil podem ser generalizadas a todos os pacientes com Parkinson. O desenvolvimento de novos medicamentos para proteger as atividades da ALDH, dizem eles, pode eventualmente auxiliar a retardar a progressão da doença, tenha sido ou não o indivíduo exposto aos agrotóxicos. A pesquisa está publicada na edição atual ‘on line‘ do periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.

A doença de Parkinson é uma desordem debilitante neurodegenerativa que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Seus sintomas — incluindo tremor, rigidez e movimentos e fala arrastados — aumentam com a degeneração progressiva dos neurônios, fundamentalmente na parte do mesencefálico chamada de substância nigra. Esta área normalmente produz dopamina, um neurotransmissor que permite a comunicação das células e danos a esta parte cerebral têm sido conectados a doença. Geralmente, antes que os sintomas de Parkinson manifestam-se, mais da metade destes neurônios, conhecidos como neurônios dopaminérgicos, já foram perdidos.

Enquanto os pesquisadores têm identificado uma certa variação genética que causa uma certa forma de herança de Parkinson, somente uma pequena fração da doença pode ser responsabilizada aos genes, diz o principal autor de uma pesquisa, Arthur G. Fitzmaurice, um aluno do pós-doutorado no laboratório de Bronstein.

“Como resultado, fatores ambientais quase que certo que também desempenham um papel importante nesta desordem”, disse Fitzmaurice. “Compreender os mecanismos relevantes — particularmente o que provoca a perda seletiva de neurônios dopaminérgicos — pode fornecer pistas importantes para explicar como se desenvolve a doença”.

O fungicida benomil foi largamente empregado nos EUA por três décadas até as evidências toxicológicas revelarem que ele poderia potencialmente desenvolver tumores de fígado, malformações cerebrais e efeitos reprodutivos além de ser carcinogênico. Foi banido nos EUA em 2001.

Os pesquisadores queriam explorar se havia uma relação entre o benomil e o Parkinson, que pudesse demonstrar a possibilidade de efeitos toxicológicos de longo prazo pelo uso do agrotóxico, mesmo uma década depois de sua exposição crônica. Em razão de não se poder estabelecer uma relação causal direta entre agrotóxicos e a Parkinson testando com seres humanos, os pesquisadores procuraram determinar se a exposição em modelos experimentais poderia replicar algumas das características patológicas da doença. Testaram em primeiro os efeitos do benomil em culturas de células e confirmaram que o agrotóxico danificou ou destruiu os neurônios dopominérgicos.

Depois eles testaram o agrotóxico com o modelo experimental empregando o modelo do peixe ‘paulistinha ou zebrafish’ da doença. Este peixe de água fresca é comumente utilizado em pesquisas porque é facil para ser manipulado geneticamente, desenolve-se rapidamente e é transparente, tornando a observação e a medição biológica muito mais fácil. Pelo uso de um corante fluorescente e contando os neurônios os pesquisadores descobriram que havia uma significantiva perda de neurônios no peixe – mas somente os dopaminérgicos. Os outros neurônios não foram afetados.

Até agora, evidências tinham apontado um culpado particular — a proteina chamada α-synuclein — no desenvolvimento do Parkinson. A proteina, comum nos pacientes de Parkinson, é avaliada de que é quem cria a via para a doença quando conecta conjuntamente nos ‘aglomerados’, tornando-se tóxica e matando os neurônios do cérebro.

A identificação da atividade desta enzima ‘ALDH’ agora dá aos pesquisadores outro alvo para focar sobe uma tentativa de estancar esta doença.

“Sabíamos que nos modelos de pesquisa com animais e em culturas de células, os agrotóxicos provocam um processo neurodegenerativo que leva à doença de Parkinson”, diz Bronstein, que dirige o Programa de Movimento de Desordens da UCLA. “E estudos epidemiológicos têm mostrado consistentemente que a doença ocorre em altos níveis entre os agricultores e a população rural. Nosso trabalho reforça a hipótese de que os agrotóxicos podem ser parcialmente os responsáveis e a descoberta desta nova via pode ser uma nova trilha para o desenvolvimento de fármacos”.

Outros autores deste estudo inclui Lisa Barnhill, Hoa A. Lam, Aaron Lulla, Nigel T. Maidment, Niall P. Murphy, Kelley C. O’Donnell, Shannon L. Rhodes, Beate Ritz, Alvaro Sagastig e Mark C. Stahl, todos da UCLA; John E. Casida da UC em Berkeley; e Myles Cockburn da Universidade Sulista da California. Os autores declaram não haver conflito de interesse.

Este trabalho foi financiado pelo National Institute of Environmental Health Sciences pelas concessões P01ES016732, R01ES010544, 5R21ES16446-2 e U54ES012078; concessão do National Institute of Neurological Disorders and Stroke NS038367; e pelo Veterans Affairs Healthcare System (Southwest Parkinson’s Disease Research, Education, and Clinical Center); e a Fundação Michael J. Fox Foundation; a Fundação Levine; e a Aliança Parkinson.

The UCLA Department of Neurology - Departamento de Neurologia da UCLA, com mais de 100 membros do corpo docente, abrange mais de 20 programas de investigação relacionada com a doença, juntamente com grandes programas de ensino e de clínica. Esses programas abrangem mapeamento cerebral e neuroimagem, distúrbios do movimento, doença de Alzheimer, esclerose múltipla, neurogenética, desordens nervo e musculares, epilepsia, neuro-oncologia, neurotologia, neuropsicologia, dores de cabeça e enxaquecas,  neuro-reabilitação e distúrbios neurovasculares. O departamento classifica no alto dois de seus pares no financiamento do National Institutes of Health.

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