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Modernidade tardia: desafios para a docência do ensino superior

Com o tema Modernidade tardia: desafios para a docência do ensino superior, o psicólogo José Paulo Giovanetti proferiu a conferência de abertura da formação docente dos professores da Unisinos na noite de 25-02-2013, no Auditório Central da Instituição.

Entre as constatações expostas, Giovanetti falou sobre o individualismo que é característico do sujeito moderno, bem como seus desdobramentos. Esse sujeito vive numa sociedade que apresenta sintomas como a depressão e a angústia. Contudo, é preciso procurar aquilo que está abaixo desse iceberg aparente, provocou. É necessário atentar que o jovem que hoje chega à sala de aula já nasceu dentro da modernidade tardia, nos idos dos anos 1990, o que é decisivo para seu modo de ser e estar no mundo. E é esse o grande universo dos alunos que chegam à universidade em nossos dias.

Através de uma análise fenomenológica da sociedade, Giovanetti apontou os paradigmas de pensamento hoje. O paradigma antigo justificava as ações a partir da realidade externa, como no caso da religião, por exemplo. Na modernidade o indivíduo é o centro da organização, e por isso é fundante do que se segue. O projeto da modernidade, acrescenta, é marcado pela imanência da razão, ou seja, só tem valor aquilo que pode ser por ela explicado. Outro de seus traços é a afirmação da subjetividade, isto é, o sujeito é o centro de todas as referências.

Procedendo uma análise sociológica das características da sociedade contemporânea, Giovanetti pontua que a modernidade tardia refere-se aos últimos 50 anos, tendo iniciado, portanto, nos anos 1960. Suas características são o consumo, o espetáculo, o simulacro, o lazer e a virtualidade. Antes havia um princípio organizador, que dava as coordenadas dos procedimentos – a religião. Tal princípio se diluiu em três grandes princípios: a) técnico econômico funcional; b) esfera governamental, c) esfera cultural. A crise se instala quando o hedonismo surge como princípio global.

A respeito da sociedade do consumo, tópico caro ao sociólogo Jean Baudrillard, o palestrante mencionou que não se consomem objetos, somente, mas pessoas, inclusive. As leis da sociedade do consumo  são a) escolher (você não pode deixar de escolher) e b) comprar (compre hoje, pague amanhã).

Quanto à sociedade do espetáculo, Giovanetti menciona a superficialidade (glamurização) e o passageiro (efêmero) como suas marcas indeléveis. E o pesquisador é enfático ao afirmar que os fenômenos contemporâneos que apontam para uma nova sensibilidade são a) sociedade centrada no eu, b) pura indiferença, c) sedução non-stop e d) fenômenos extremos.

“Na pós-modernidade vivia-se uma época de liberação que gerou a era do vazio. Na hipermodernidade vivemos uma vida light que gera a era do consumo”, observa Giovanetti.

Centramento do eu

Um dos aspectos analisados por Giovanetti é a ideologia individualista, que toma o outro como objeto e promove um isolamento de si mesmo. Tal individualismo é consumista e hedonista, além de narcisista. “O centramento do eu e o outro como objeto estão pautando nosso agir hoje”, disse à plateia de professores.

Quanto à subjetividade hipermoderna, o destaque ficou por conta do fato de que o ser “virou” o aparentar. “Esse tipo de sociedade não consegue preencher as mais profundas aspirações humanas”, alertou Giovanetti. Na sociedade antiga os valores eram centrados no “nós”’, enquanto que  na atual há o centramento no eu e nos valores imediatos. Há, ainda, uma perda de sentido, um deixar-se governar e viver em função dos outros.

Reorganização da existência

Como contraponto, Giovanetti apontou que as forças capazes de articularem uma nova sociedade são a ética, os direitos humanos e a ecologia. A reorganização da existência passaria pela redescoberta da alteridade, por ressignificar o sentido da vida, pela consolidação da confiança básica e do fortalecimento dos vínculos afetivos.

A modernidade tardia está repleta de paradoxos e desafios, disse o professor ao final de sua conferência. Entre estes últimos destacam-se:

  • A imagem (valoriza-se o visual e o belo) e o discurso (reflexão que provoque o pensar).
  • Os laços (sociedade que enfraquece os laços afetivos) e a relação (busca de uma relação dialógica)
  • A internet (presença do ilimitado, instantâneo e velocidade rápida) e a presença (que exige tempo e maturação)
  • A diversidade (necessidade de uma grande variedade de profissões) e a educação (que atenda essa exigência de diversidade)


José Paulo Giovanetti é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, e em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. É especialista em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE.

Reportagem: Márcia Junges

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