'É ilusório querer reconduzir os cristãos para dentro do sistema eclesiástico atual', diz Hans Küng

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14 Fevereiro 2013

"A Cúria é o obstáculo principal da renovação da Igreja, do diálogo ecumênico e de uma abertura ao mundo moderno", constata Hans Küng, teólogo, em entrevista concedida a Andrea Tarquini e publicada pelo jornal La Repubblica, 14-02-2013.

A tradução é do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis a entrevista.


Professor Küng, o senhor sempre contestou a infalibilidade papal. O que significa a renúncia do Papa?

É uma desmitização somente para aqueles que vêem no Papa um vice-Deus na Terra, e não tomam em consideração que também o Papa é somente um homem, e por isso, por força das coisas, o seu magistério é limitado pelo tempo.

A renúncia é o ato mais importante do seu pontificado?

Presumo que o pontificado de Joseph Ratzinger permanecerá na História da Igreja porque ele foi o primeiro Papa no tempo moderno que decidiu renunciar. Por isso ele permanecerá nos Anais.

A renúncia e as palavras do Papa abrem novas esperanças?

Abre a esperança que finalmente agora a crise da Igreja católica e do papel do Pontífice sejam reconhecidas também no Vaticano. O perigo é que Ratzinger, permanecendo em Roma, assuma de fato o papel de um papa-sombra. Eu preferia que ele optasse por retirar em meditação e oração na Baviera. Permacendo em Roma, contatos, conversas, são inevitáveis. Já constrangedor se numa paróquia o velho pároco permanece junto com o novo. Imaginemos um velho papa ao lado do novo.

O que espera do próximo Conclave?

Ele poderá dar um impulso somente se os cardeais aceitarem a análise, exposta no meu livro “A Igreja ainda tem salvação?” (Editora Paulus, 2012), e tomarem consciência da profunda crise da Igreja católica e enfrentarem o tema central da vida do catolicismo.

Qual será o papel de Bento XVI, depois das suas palavras proferidas na Audiência Geral e na homilia da Missa de Quarta-Feira de Cinzas?

Ele não participará do Conclave, mas espero que ele não jogue nenhum papel no novo Pontificado. Caso contrário, criar-se-ão novas e perigosas polarizações entre os que sustentam o novo Papa e os seguidores do velho Papa. Isto tornaria impossível um governo unitário da Igreja.

Um Papa mais jovem seria desejável?


O novo Papa não deveria ser muito velho, mas, ao mesmo tempo, não precisa ser jovem para depois ficar no pontificado por 20 ou 30 anos. Um pontificado longo levaria a uma petrificação da Igreja.

E seria melhor um Papa não europeu?

Donde ele virá, não é importante. O que conta é que não acabe por ser “romanizado” e “curializado”. Ratzinger não era de Roma mas se tornou o mais romano dos romanos e da Cúria. Se um Papa alemão ou negro termina por ser integrado no sistema da Cúria, a sua origem não diz nada.

Deseja que os futuros Papas se preparem para não ficarem no poder até a morte?

A regra da idade dos bispos, 75 anos, deveria valer também para o bispo de Roma. A partir dos 75 anos os bispos devem deixar a pastoreio da diocese. Essa regra foi introduzida pela cardeal Suenens (arcebispo de Bruxelas-Malines, Bélgica, e um dos quatro moderadores do Concílio Vaticano II. Nota da IHU On-Line). Ele pediu que fosse excluído da regra o Bispo de Roma, o Pontífice. Ele me disse que se não tivesse introduzido esta exceção, a regra não teria sido aprovada pela maioria. Agora constatamos o quanto é negativo que um Papa permaneça por tanto tempo no cargo.

O seu balanço deste pontificado é negativo?

Temo que, provavelmente, permanecerá na História com um balanço negativo, com deficiências e limites, e ocasiões perdidas. O caso do bispo antisemita Williamson, ou o não acordo sobre uma maior compreensão com as igreja ortodoxas e protestantes.

Crise das vocações, êxodo dos fieis: a crise da Igreja é dramática. O novo Papa como deve afrontá-la?

Em latim se diz: “Ceterum censeo romanam curiam esse reformandam”. Depende se a Corte medieval-barroca vaticana poderá ser transformada numa moderna, eficiente administração central da Igreja. É preciso começar da base e ver o que acontece. É ilusório querer reconduzir os cristãos para dentro do sistema eclesiástico atual. A Cúria romana era contra o Concílio Vaticano II antes que fosse anunciado. Durante o Concílio impediu o que não apreciava e depois guiou a restauração com os efeitos devastadores da crise. Se essa Cúria não será reformada e transformada em centro eficiente, qualquer reforma será impossível. A Cúria é o obstáculo principal da renovação da Igreja, do diálogo ecumênico e de uma abertura ao mundo moderno.

A sua análise recorda o Império soviético que caiu. Pensa em processo semelhantes?

O destino da União Soviética, a sua implosão, deveria servir com uma admoestação para o Conclave. É muito importante que os cardeais não discutam se isolando do mundo. Sobretudo antes do Conclave. No último Conclave, Ratzinger disciplinou a todos. Isso não deve se repetir se se quiser uma atmosfera livre que propicie a discussão no colégio dos cardeais.

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