Queima doméstica é problema para a saúde pública

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23 Janeiro 2013

Os dados contrastam com a realidade dos grandes centros urbanos: 10,2% da população brasileira utilizam lenha como combustível para cozinhar, especialmente no interior do país. E apesar do apelo prosaico da comida feita no fogão a lenha, os impactos sobre a saúde das famílias que vivem expostas a essa fumaça não são desprezíveis: a estimativa é que só no Brasil em torno de 23,7 milhões de pessoas sofrem com doenças respiratórias causadas pelo consumo de lenha em casa - o que resulta em mais de 10 mil mortes por ano em todo o país.

A reportagem é de Andrea Vialli e publicada pelo jornal Valor, 23-01-2013.

As informações fazem parte de um relatório da Aliança Global para Fogões Limpos, uma iniciativa da Fundação das Nações Unidas que busca trazer soluções para o problema, com a instalação, nos países em desenvolvimento, de fogões com tecnologias mais aprimoradas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no mundo todo 3 bilhões de pessoas ainda dependem de biomassa como lenha, carvão e até esterco de gado para cozinhar, produzir energia e aquecer suas casas.

"O número de pessoas expostas à queima doméstica de biomassa é quase o triplo do número de pessoas no mundo expostas ao tabagismo, que hoje está em torno de 1,1 bilhão. E apesar disso, é uma questão pouco discutida e muito pouco estudada", afirma o pneumologista José Eduardo Delfini Cançado, consultor da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT). Segundo ele, os estudos sobre o tema começaram a ser feitos há cerca de dez anos, mas o Brasil carece de estatísticas mais aprofundadas. "É um problema subestimado de saúde pública. Os governos não estão olhando para essa questão", diz Cançado.

Algumas populações se tornaram conhecidas mundialmente pela alta incidência de doenças respiratórias, em especial em mulheres e crianças, mais expostas à poluição. Na região andina no Peru, 10 milhões de pessoas habitam casas com precária ventilação e onde a lenha é o principal combustível - estudos mostraram que mais de 40% das mulheres apresentam doenças pulmonares obstrutivas e problemas cardiorrespiratórios, dado que chamou a atenção da OMS, que vem alertando para os perigos da utilização rudimentar de biomassa nos lares. Segundo o órgão, as doenças respiratórias relacionadas ao consumo doméstico de biomassa são a quarta causa de morte nos países em desenvolvimento - só perdem para a desnutrição, o sexo sem proteção e a falta de saneamento básico e água tratada.

"Mais de 90% da população rural nos países em desenvolvimento queima algum tipo de biomassa. As consequências para a saúde são as doenças obstrutivas pulmonares crônicas, pneumonia, tuberculose, enfisema pulmonar, câncer, problemas cardíacos, catarata, cegueira. Essa exposição aos poluentes pode acarretar ainda efeitos adversos na gestação, como o baixo peso dos recém-nascidos", enumera a médica patologista Evangelina Vormittag, diretora presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade. "Os efeitos são semelhantes, e até piores, do que respirar o ar poluído das grandes cidades", diz Vormittag.

Gases como o monóxido de carbono e o material particulado (fuligem) resultantes da queima da lenha atingem diretamente o aparelho respiratório e a exposição contínua pode causar ainda pneumoconiose - que é o acúmulo de poeira nos pulmões. Há complicações ainda para o sistema imunológico, principalmente em crianças que, junto com as mulheres, são mais expostas à fumaça. "Cerca de 75% das mortes causadas por problemas respiratórios são de mulheres. Muitas delas passam de seis a oito horas por dia inalando essa poluição dentro de casa", diz Cançado, da SBPT.

Se para a saúde as consequências da queima da lenha são nefastas, o mesmo ocorre para o meio ambiente. O hábito ancestral de utilizar madeira para cozinhar e produzir energia é um fator de pressão para a vegetação nativa. No Ceará, a extração não sustentável de biomassa para uso da madeira para combustão já consumiu 80% da vegetação nativa no Estado, onde o bioma dominante é a Caatinga, segundo uma estimativa do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (Ider), com sede em Fortaleza.

O Ider desenvolve atualmente uma iniciativa para construir fogões mais eficientes para a população rural em 87 municípios no interior do Ceará, que já beneficiou 26 mil famílias. Segundo o instituto, somente no Nordeste brasileiro são queimadas todos os dias 6.000 toneladas de madeira.

O consumo de lenha proveniente de florestas nativas também pressiona a Mata Atlântica. De acordo com as informações do Atlas dos Remanescentes da Mata Atlântica, estudo anual conduzido pela ONG SOS Mata Atlântica com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os Estados que mais vêm desmatando o bioma são Minas Gerais e Bahia. No período entre 2011 e 2011, Minas Gerais perdeu 6,3 mil hectares de mata nativa e a Bahia, 4,6 mil hectares - e a produção de carvão para uso siderúrgico e doméstico é a maior ameaça ao bioma.

"Os últimos levantamentos têm mostrado a supressão da floresta nativa para produção de carvão. Em sobrevoos na região, constatamos uma grande quantidade de fornos clandestinos", diz Marcia Hirota, diretora de gestão do conhecimento da SOS Mata Atlântica. "O consumo doméstico de lenha não é o principal vetor de desmatamento na região, mas sem dúvida contribui para a supressão da vegetação nativa."

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