“Num mundo pós-darwiniano, não há ‘ordem’ divinamente sancionada em nossa biologia”

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18 Janeiro 2013

"Antes de pôr a culpa nos outros, cada Igreja precisa se perguntar por que sua doutrina do matrimônio não conseguiu persuadir as pessoas que ainda não estavam comprometidas com ela", escreve Clifford Longley, jornalista e importante liderança leiga católica da Inglaterra, em artigo publicado pela revista The Tablet, 12-01-2013.

Segundo ele, "num mundo pós-darwiniano, princípios racionais pelos quais se deve viver ainda são necessários. Todas as virtudes básicas são necessárias para que as comunidades humanas se adaptem e floresçam como pretende a própria natureza – governada pela evolução darwiniana. Portanto, discutamos os prós e contras da contracepção e da homossexualidade, e também do casamento gay, em termos semelhantes. As pessoas entenderiam isso. A Igreja teria um argumento sustentável".

A tradução é de Luís Marcos Sander.

Eis o artigo.

O casamento gay está começando a parecer uma questão resolvida. Quando o Ukip [United Kingdom Independence Party] é o único partido político importante que concorda oficialmente com a posição cristã tradicional, quais são as perspectivas de reverter a tendência das pesquisas de opinião? Mas a batalha pode ter sido perdida há muito tempo. Antes de pôr a culpa em todos os demais, cada Igreja precisa se perguntar por que sua doutrina do matrimônio não conseguiu persuadir as pessoas que ainda não estavam comprometidas com ela.

A Igreja Católica tem uma responsabilidade especial, porque foi a que ficou mais longe do alvo. Por mais de 50 anos, o ensino papal na área do matrimônio e da moralidade sexual tem sido defendido pelo uso de sanções oficiais contra as pessoas que o questionam. Isso silenciou justamente o tipo de debate que teria permitido que ela se mantivesse atualizada em relação a novas percepções da sexualidade humana.

O Papa Bento XVI falou da relação entre fé e razão no Westminster Hall em 2010. A fé e a razão necessitariam uma da outra. Elas teriam de se corrigir – “purificar” foi a palavra que ele empregou – mutuamente para evitar os perigos da ideologia, por um lado, e do fundamentalismo, por outro.

Entretanto, o fundamentalismo católico no tocante à ética sexual fica aparecendo sempre que os defensores da oposição da Igreja ao casamento gay citam a “ordem natural” como base de seu argumento. Em geral, o que está sendo implicitamente invocado aqui é a ideia central da encíclica Humane Vitae, a base, por exemplo, da insistência do Vaticano de que atos homossexuais são “intrinsecamente desordenados” que se encontra no cerne de sua resistência ao casamento gay. Ela afirma que toda relação sexual tem de permanecer aberta para – “ordenada” para – a transmissão de nova vida, porque o direito natural assim o diz.

Se, como o Papa nos insta a fazer, deixamos a razão interrogar a fé, poderíamos constatar que há razões racionais para perguntar se isso é realmente o que a natureza nos diz, se isso se baseia numa leitura verdadeira da ciência da reprodução humana, ou poderíamos, até mesmo, perguntar: o que queremos dizer com o termo “natureza”, afinal? Em vez disso, tudo o que tivemos é Roma locuta est, causa finita est, o fechamento da porta. Mas todo exercício de juízo que ignore todo argumento contrário está fadado a ser perverso. Quando o falecido Cardeal Martini, de Milão, chamou a Humanae Vitae de “desonesta”, parece que ele tinha razão.

Tomemos a pergunta “o que queremos dizer com o termo razão?”. A evolução darwiniana agora é considerada “mais do que uma hipótese”, como disse certa vez o Papa João Paulo II. Assim, a Igreja aceita que a sexualidade humana evoluiu. Isto significa que nossos órgãos sexuais e a maneira como funcionam juntos não foram sempre assim como são agora. Eles são produto de milhões de anos de adaptação para melhorar as chances de sobrevivência da espécie.

Isso se aplica a todas as outras faculdades humanas – nossos olhos, ouvidos e nariz, nosso cérebro, nossa capacidade linguística, nossa capacidade de nos relacionarmos uns com os outros em uma comunidade civilizada e nossa capacidade de criar filhos, e até nossa capacidade intelectual de discutir essas coisas. Elas evoluíram; e, tanto quanto sabemos, ainda estão evoluindo. Nós abandonamos a ideia de que Deus criou o mundo de uma vez para sempre em seu estado final e perfeito e que, por isso, podemos descobrir como Deus queria que nos comportássemos olhando a forma como as coisas estão projetadas. Não houve um projetista mestre, e, por conseguinte, não há “instruções do fabricante” às quais possamos fazer referência. Num mundo pós-darwiniano, não há “ordem” divinamente sancionada em nossa biologia, de modo que nada pode ser “intrinsecamente desordenado”. Há simplesmente o estado até o qual a evolução nos trouxe, por um processo que Darwin chamou de seleção natural.

Contudo, a biologia evolutiva não põe fim à moralidade. Podemos concluir que há atividades que ameaçam os benefícios que a evolução nos ofereceu. Sexo com crianças, por exemplo, rompe o desenvolvimento emocional e sexual sadio de uma criança e é, por isso, errado. Poder-se-ia argumentar de modo semelhante em relação ao adultério. Nossa natureza humana evoluída contém efetivamente padrões coerentes. Num mundo pós-darwiniano, princípios racionais pelos quais se deve viver ainda são necessários. Todas as virtudes básicas são necessárias para que as comunidades humanas se adaptem e floresçam como pretende a própria natureza – governada pela evolução darwiniana. Portanto, discutamos os prós e contras da contracepção e da homossexualidade, e também do casamento gay, em termos semelhantes. As pessoas entenderiam isso. A Igreja teria um argumento sustentável.

A ausência deplorável de 50 anos de reflexão crítica sobre questões da ética sexual dentro da Igreja Católica não pode ser remediada num só parágrafo. Mas quando uma Igreja irreflexiva não consegue fazer com que seu ensino sobre o matrimônio seja adotado por um mundo descrente, só há uma coisa a se perguntar a ela: Você esperava o quê?

Veja também:

Acentuem o lado positivo. Depoimento de um participante da Missa no Soho, em Londres

A batalha perdida da Igreja. Artigo de Danièle Hervieu-Léger

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