A desmistificação do desenvolvimento e as lições do Sumak Kawsay

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Por: André | 18 Janeiro 2013

“Uma filosofia foi e continua sendo cultivada por povos indígenas, apesar do avassalamento da cultura ocidental, e que pouco a pouco foi reivindicada em alguns países como a Bolívia e o Equador e incorporada às suas respectivas Constituições federais: o Sumak Kawsay, “bem viver” ou, melhor ainda, “bem conviver”, que se traduz na necessidade de empreender um caminho para o bem-estar geral, diferente daquele que o tão propalado desenvolvimento parecia prometer, resgatando experiências ancestrais que valorizem novamente e em primeiro lugar o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas, de todas as pessoas”, escreve Susana Merino em artigo publicado no sítio Rebelión, 15-01-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

“As autoridades financeiras do mundo desenvolvido estão nervosas e a opinião pública desses países não vê com bons olhos que seus impostos sejam destinados a subvencionar banqueiros irresponsáveis e imprudentes ao mesmo tempo que devem se submeter a políticas restritivas que reduzem o emprego e os serviços sociais”.

A citação acima não foi extraída de nenhuma crônica ou reportagem contemporânea, nem sequer da última década, mas corresponde a um trabalho de Osvaldo Sunkel (1), elaborado há quase 30 anos. Algo que desde já coloca em relevo a similitude de situações ou, melhor dito, a continuidade e o atual agravamento de situações que começaram a se perfilar em meados do século passado depois do fim da chamada Segunda Guerra Mundial.

Desde então vem se falando de desenvolvimento a partir das duas vertentes teóricas dominantes no pensamento econômico: uma, vinculada ao desenvolvimentismo pós-keynesiano impulsionada na América Latina por Raúl Prebisch, durante muito tempo Secretário Executivo da CEPAL (2), e a outra, ao monetarismo neoliberal de Milton Friedman e à muito famosa Escola de Chicago. A primeira enfatiza o desenvolvimento das forças produtivas, da indústria, da agricultura, da infra-estrutura e, embora não o ignora, do fator humano, sua presença se integra como um recurso a mais dos fatores produtivos, ao passo que na corrente monetarista neoliberal aparecem com maior força a liberalização dos mercados de bens e serviços e o desenvolvimento dos instrumentos financeiros de caráter transnacional.

Em ambas as correntes, de origem estritamente economicista, o conceito de desenvolvimento se relaciona ou está dirigido a sustentar o crescimento da estrutura produtiva sem considerar a maneira como são distribuídos os rendimentos dessa produção na sociedade que os produz. Mas talvez por isso mesmo transformou-se em um mito inatingível, ao qual chegou a hora de renunciar definitivamente.

Porque, além disso, e ainda que se tenha agregado a palavra socioeconômico ao vocábulo desenvolvimento antepondo o social ao econômico, não se procurou, na minha opinião, dar prioridade conceitual aos objetivos sociais; pelo contrário, em sua incorporação prevaleceram simples razões de eutonia. Ou seja, em qualquer caso o social está subordinado não ao ser humano genérico como sujeito último do crescimento econômico, mas é concebido como imprescindível instrumento da produção. Em consequência, a sociedade ou o Estado não deveria descuidar nem de seus problemas sanitários nem do acesso a níveis educativos que o capacitem para ingressar nesse mesmo sistema produtivo e, contudo, são condições que tampouco são cumpridos sequer com o objetivo mesquinho de garantir sua continuidade.

De modo que o trabalho converteu-se em uma nova escravidão. Já não se trata de um meio para alcançar o próprio crescimento ou para realizar contribuições pessoais para o desenvolvimento de uma comunidade, mas de um fim que permita ao indivíduo ter apenas garantida em muitos casos nada mais que sua própria sobrevivência. O trabalho transformou-se quase que num devorador de existências, exigindo do trabalhador uma entrega quase absoluta em que o ócio, a recreação, o desenvolvimento da própria criatividade, as artes plásticas, a música, as atividades manuais, a meditação, o esporte, a vida em família, a amizade, o contato com a natureza, passaram a ser utopias quase absolutas ou exclusivas dos poucos que conseguem fazer de alguma delas seu próprio meio de vida, mas que para o comum dos mortais são absolutamente negados. Quando, onde, que tempo dispõe um trabalhador de nosso tempo para desenvolver outras vocações que aquelas impostas pelo rotineiro e absorvente trabalho da fábrica, do escritório, da oficina, do serviço público ou privado, cuja extensão horária imaginávamos em algum momento que a tecnologia permitiria reduzir?

Na realidade, nada mudou, como nos recorda Paul Lafargue (3) em O Direito à Preguiça. “Quanto mais meus povos trabalharem, menos vícios terão”, escrevia, segundo Lafargue, Napoleão em 1807. “Eu sou a autoridade [...] e estou disposto a ordenar que aos domingos, após a hora dos ofícios religiosos, as lojas fiquem abertas e os operários voltem ao seu trabalho”. Acaso, não se abre agora o comércio não apenas aos sábados, nos quais antes se trabalhava apenas meio dia e costumávamos chamar de “sábado inglês”, mas também aos domingos, com ou sem ofícios religiosos?

O Sumak Kawsay

Mas existem outras filosofias de vida que fazemos questão de ignorar. Uma filosofia foi e continua sendo cultivada por povos indígenas, apesar do avassalamento da cultura ocidental, e que pouco a pouco foi reivindicada em alguns países como a Bolívia e o Equador e incorporada às suas respectivas Constituições federais: o Sumak Kawsay, “bem viver” ou, melhor ainda, “bem conviver”, que se traduz na necessidade de empreender um caminho para o bem-estar geral, diferente daquele que o tão propalado desenvolvimento parecia prometer, resgatando experiências ancestrais que valorizem novamente e em primeiro lugar o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas, de todas as pessoas.

Um bom viver que exige uma maior harmonia entre a sociedade e a natureza. “O bem viver não é um simples retorno às ideias de um passado longínquo, mas a construção de outro futuro”, dizem Eduardo Gudynas e Alberto Acosta (4), em que cabem também muitos questionamentos da sociedade contemporânea – “posturas éticas alternativas que reconhecem os direitos da natureza, as contribuições do feminismo como reação à dominação de base patriarcal e novas conceitualizações em áreas como a justiça e o bem-estar humano” – incorporadas à Constituição boliviana a partir de três “princípios ético-morais da sociedade plural: ama qhilla, ama llulla, ama suwa (não sejas preguiçoso, não sejas mentiroso, nem sejas ladrão)”. Propósitos que o Estado se compromete a cumprir para “melhorar a qualidade de vida (...) através da redistribuição equitativa dos excedentes mediante políticas sociais de diversos tipos (...) para conseguir o viver bem em suas múltiplas dimensões”.

Em síntese, como acrescentam Gudynas e Acosta, trata-se “de uma visão que supere as estreitas margens quantitativas do economicismo e permita a aplicação de um novo paradigma cujo fim não sejam os processos de acumulação material, mecanicista e interminável de bens, mas que promova uma estratégia econômica inclusiva, sustentável e democrática”.

Uma visão que se manteve inalterada em grande parte das estruturas indígenas apesar dos embates do capitalismo ocidental e que permitiu superar com chamativa unidade as excludentes circunstâncias que lhes foram impostas ao longo dos mais de 500 anos de dominação europeia e latino-americana.

Trata-se, sem dúvida, de uma, embora milenar, proposta original que busca contrabalançar os reiterados e já evidentemente irreversíveis fracassos dos projetos desenvolvimentistas e cujo foco, de algum modo já largamente experimentado pelas comunidades indígenas, são as pessoas concretas em realidades concretas, procedente de povos que foram fortemente marginalizados e desrespeitados e cuja cultura considerada inferior e primitiva está se impondo não apenas na letra das Constituições de dois países do continente, mas como uma inevitável alternativa orientada a solucionar os problemas de nosso tempo e de nosso futuro incerto.

Mas só se conseguirmos nos tornar independentes do nosso prolongado vício do dinheiro e do nosso culto ao deus epônimo será possível talvez seguir avançando na construção de um mundo promissoriamente mais humano, porque, como diz García Lorca em A sapateira prodigiosa: “Ai dinheiro, sem mãos e sem olhos deveria ter ficado quem te inventou”. Que o Sumak Kawsay lhe dê o golpe de misericórdia!

Notas:

1. SUNKEL, Osvaldo. América Latina y la crisis económica internacional. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1985, p. 44.

2. CEPAL: Comissão Econômica para a América Latina, uma das cinco comissões regionais da ONU com sede em Santiago, Chile. Foi fundada com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento econômico da América Latina, coordenar as ações encaminhadas à sua promoção e reforçar as relações econômicas dos países entre si e com os demais países do mundo.

3. Paul Lafargue (1842-1911), jornalista, médico, teórico político e revolucionário francês de origem cubana.

4. “El buen vivir más allá del desarrollo”. E. Gudynas, ecólogo social uruguaio, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social (CLAES), e A. Acosta, economista equatoriano, professor e pesquisador de FLACSO. Ex-ministro de Energia e Minas e ex-presidente da Assembleia Constituinte do Equador.

Veja também: Sumak Kawsay, Suma Qamana, Teko Pora. O Bem-Viver. Revista IHU On-Line, no. 340

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