Uma análise do novo livro de Joseph Ratzinger-Bento XVI. Artigo de Rosino Gibellini

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04 Janeiro 2013

Um texto bem documentado e facilmente legível, fascinante também em algumas de suas páginas. Em síntese: "Os relatos da infância são história interpretada e, a partir da interpretação, escrita e condensada" (p.26).

A análise é do teólogo italiano Rosino Gibellini, doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em filosofia pela Universidade Católica de Milão. O artigo foi publicado no blog da Editora Queriniana, 02-01-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O novo livro de Joseph Ratzinger-Bento XVI, A infância de Jesus (Ed. Planeta, 2012), não deve ser considerado o terceiro volume de Jesus de Nazaré (1, 2007; 2, 2011), mas simplesmente como "uma espécie de pequena 'sala de entrada' aos dois volumes anteriores sobre a figura e a mensagem de Jesus de Nazaré" (do Prefácio).

Trata-se de uma leitura e comentário dos chamados "Evangelhos da infância", ou seja, dos dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas, no contexto do Novo Testamento, mas também do Antigo Testamento. Nessa leitura-comentário, que reconstrói a infância de Jesus, o autor se vale, em particular, do comentário de Gnilka (Herder/Paideia) para o Evangelho de Mateus; e de Schürmann (Herder/Paideia) para o Evangelho de Lucas; mas também do recente Novo Comentário ao Novo Testamento (2011) do exegeta de Heidelberg, Klaus Berger. A bibliografia indicada é essencial e pontual.

Na sua primeira linha, o livro, com uma narrativa atenta, leva o leitor e a leitora ao centro da conversa do procurador romano Pilatos (cujo nome entrou no Credo cristão), que pergunta a Jesus: "De onde tu és?" (Jo 19, 9). O "de onde" se refere a "quem és". "Quem é Jesus? De onde vem? As duas perguntas vão juntas indivisivelmente. O objetivo dos quatro Evangelhos é o de responder a essas perguntas. Foram escritos justamente para lhes dar uma resposta" (p.12).

Ratzinger inicia a resposta examinando as duas genealogias de Jesus, relatadas no Evangelho. A genealogia de Mateus (Mt 1, 1-17) conecta Jesus a Davi e a Abraão, e insere o nome de quatro mulheres: Tamar, Raabe, Rute e "a mulher de Urias", não tanto porque algumas são pecadoras; "O mais importante é o fato de que todas essas mulheres não eram hebreias. Através delas entra na genealogia de Jesus, portanto, no mundo das gentes – torna-se visível a sua missão aos judeus e pagãos" (p.15). A genealogia de Lucas (3, 23-38) reconecta Jesus a Adão com 76 nomes, e "pretende mostrar que em Jesus a humanidade começa novamente. A genealogia é expressão de uma promessa que se refere a toda a humanidade. [...] Jesus assume em si toda a humanidade e lhe dá um rumo novo, decisivo para um novo ser pessoa" (p.18-19). João resumiu o significado mais profundo das genealogias: "O homem Jesus é o 'fazer tenda' do Verbo, do eterno Logos divino, neste mundo (1, 1-14)" (p.20).

Quais são as fontes de Mateus e de Lucas, especialmente no que diz respeito à anunciação (e à concepção virginal), que não teve testemunhas, exceto Maria? Ratzinger, seguindo Gnilka, considera que se trata "de tradições de família" (p.25). E isso também explicaria o aparecimento tardio sobretudo das tradições marianas: o fato "encontra a sua explicação na discrição da Mãe e dos círculos ao seu redor: os acontecimentos sagrados na 'manhã' da vida não podiam se tornar tradição pública enquanto ela mesma ainda estava viva" (p.25).

E de novo: "Parece-me normal que, somente depois da morte de Maria, o mistério pudesse se tornar público e entrar na tradição comum do cristianismo nascente" (p.65). Também a propósito da palavra dirigida por Simeão diretamente a Maria: "Uma espada te transpassará a alma" (Lc 2, 35). Ratzinger comenta: "Podemos supor que essa frase tenha sido conservada na antiga comunidade judaico-cristã como palavra retirada das recordações pessoais de Maria" (p.101-102).

Sobre o tema da concepção e do nascimento de Jesus, uma primeira questão diz respeito à citação de Isaías 7, 14, relatada por Mateus 1, 23, e a história das suas interpretações. Qual é o nome da mãe "virgem" ('almah) e do filho divino, que nascerá dela, a quem será dado o nome de Emanuel, como sinal dado ao rei Acaz pelo profeta Natã, para levá-lo à fé em Deus como senhor da história, segundo as palavras de Isaías 7, 14?

Dão-se quatro interpretações, lembradas na síntese do comentário a Isaías de Rudolf Kilian (Würzburg, 1986), para identificar no contexto histórico da época, e precisamente no ano 733 a.C., segundo a datação precisa do texto, os dois personagens aludidos em Isaías 7, 14.

Escreve Ratzinger: "Ao redor da mãe e do filho permanece o mistério, ao menos para o leitor de hoje, mas presumivelmente também para o ouvinte da época, talvez até para o próprio profeta. [...] Portanto, o que devemos dizer? A afirmação acerca da virgem que dá à luz o Emanuel, analogamente ao grande poema solene de YHWH de Isaías 53, é uma palavra à espera. No seu contexto histórico, não se encontra nenhuma verificação. Resta, assim, uma questão em aberto: não é palavra dirigida apenas a Acaz. Nem é dirigida somente a Israel. É dirigida à humanidade. O sinal que o próprio Deus anuncia não é oferecido para uma determinada situação política, mas se refere ao ser humano e à sua história no seu conjunto" (p.61-62).

Uma segunda questão abordada é se o parto virginal é mito ou verdade histórica. A análise da estrutura do mito, onde atuam deuses ou semideuses, exclui que se trate de mito: "A diferença das concepções é tão profunda que, com efeito, não se pode falar de verdadeiros paralelos. Nos relatos do Evangelho, permanecem plenamente conservadas a unicidade do Deus único e a infinita diferença entre Deus e a criatura. Não existe confusão alguma, não há nenhum semideus. A Palavra criadora de Deus, sozinha, opera algo novo. Jesus, nascido de Maria, é totalmente homem e totalmente Deus, sem confusão e sem divisão, como especificará o Credo de Calcedônia, no ano 451" (p.64).

Só se pode indicar, segundo Ratzinger, em uma sugestiva página literária, "um presságio do mistério do parto virginal" na quarta écloga de Virgílio, que evoca "os sonhos secretos e confusos da humanidade de um novo início" (p.66-68).

No capítulo sobre o nascimento de Jesus em Belém, observa-se: "Jesus não nasceu e apareceu em público no impreciso 'uma vez' do mito. Ele pertence a um tempo exatamente datável e a um ambiente geográfico exatamente indicado: o universal e o concreto se tocam reciprocamente. [...] A fé está ligada a essa realidade concreta, mesmo se depois, por força da Ressurreição, o espaço temporal e geográfico seja superado e o 'preceder na Galileia' (cf. Mt 28,7) por parte do Senhor introduza à vastidão aberta da humanidade inteira" (p.77).

O quarto capítulo, final, é dedicado aos Magos do Oriente e à fuga ao Egito. Sobre os Magos, Ratzinger não aceita a interpretação, dada também pelo exegeta amigo Rudolf Pesch e por outros exegetas e que quase se tornou vulgata, que não se trataria de uma história, mas apenas de uma meditação teológica. A sua explicação vai na linha de Daniélou em Os Evangelhos da infância (1967), mas sobretudo do novo Comentário ao Novo Testamento (2011) de Klaus Berger (Ed. Queriniana, no prelo), que afirma: " Mesmo no caso de uma única atestação [...] é preciso supor – até prova em contrário – que os evangelistas não pretendem enganar os seus leitores, mas querem contar fatos históricos. [...] Contestar por mera suspeita a historicidade desse relato vai além de toda imaginável competência dos historiadores".

Ratzinger observa: "Só posso concordar com essa afirmação. Os dois capítulos do relato da infância de Mateus não são uma meditação expressa na forma de histórias. Ao contrário: Mateus nos conta a verdadeira história, que foi meditada e interpretada teologicamente, e assim nos ajuda a compreender mais a fundo o mistério de Jesus" (p.138). Ratzinger tinha indicado desde o início: "Mateus e Lucas – cada um à sua maneira – queriam não tanto contar 'histórias', mas sim escrever história, história real, ocorrida, certamente história interpretada e compreendida com base na Palavra de Deus" (p.26).

O epílogo é dedicado à figura de Jesus aos 12 anos no Templo, "uma narração que assim abre, ao mesmo tempo, a porta para o todo da sua figura, que depois é contada pelos Evangelhos" (p.147).

Um texto bem documentado e facilmente legível, fascinante também em algumas de suas páginas. Os textos citados dos evangelhos da infância são interpretados segundo o método já enunciado no importante Epílogo ao 1º volume, Jesus de Nazaré (2007), segundo uma "'exegese canônica', que pretende ler os textos bíblicos individuais no conjunto da única Escritura, fazendo-os assim aparecer em uma nova luz" (I, 14).

Em termos metodológicos, é preciso acrescentar – como já lembramos – a referência às "tradições de família", ou seja, às "recordações pessoais de Maria", conservadas na antiga comunidade judaico-cristã; e também a referência a "palavras à espera" no Antigo Testamento, que esperam sua plena compreensão nos eventos narrados nas páginas do Novo Testamento.

Em síntese: "Os relatos da infância são história interpretada e, a partir da interpretação, escrita e condensada" (p.26).

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