Repensando o aquecimento global; reuniões da ONU geraram poucos resultados práticos

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04 Janeiro 2013

A ONU (Organização das Nações Unidas) tem realizado há anos gigantescas reuniões de cúpula para debater as mudanças climáticas. Mas esses encontro têm gerado poucos efeitos práticos. Atualmente, os especialistas – que acreditam não haver quase nenhuma chance de assegurar um acordo global sobre a redução das emissões – querem abandonar o sistema atual e tentar algo novo.

A reportagem é de Axel Bojanowski, publicada na revista Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 02/01/2013.

Foi difícil ignorar a sensação de déjà vu. Imediatamente após o término da conferência sobre o clima, ocorrida em dezembro em Doha, Peter Altmaier, ministro do Meio Ambiente da Alemanha, insistiu que a reunião havia "aberto a porta para o futuro da proteção internacional do clima". 

Esse foi um comentário que lembra as numerosas tentativas feitas por importantes políticos nos últimos anos para vender como sucesso mais uma fracassada reunião de cúpula para discutir as mudanças climáticas.  Em 2012 o encontro escapou por pouco do colapso após um acordo de última hora ter sido fechado e os participantes terem definido que a reunião de 2015 será o fórum adequado para a fixação de um acordo global para a redução de emissões. Parece que todos se esqueceram de que tal acordo deveria ter sido firmado durante o encontro de cúpula de 2009, realizado em Copenhague, na Dinamarca.

Até mesmo a definição do que é sucesso para essas reuniões foi drasticamente encolhida. A conferência, disse Hans-Joachim Schellnhuber, conselheiro de longa data do governo alemão para mudanças climáticas, pode ser "considerada como um sucesso, pois o colapso do árduo processo de negociação no âmbito das Nações Unidas foi evitado".

Mas importantes pesquisadores do clima já estão fartos dessa situação. Vários especialistas de renome, que atuam em importantes institutos internacionais na Alemanha, estão exigindo um fim para a farsa das cúpulas do clima. É hora de começar a enfrentar a realidade de um futuro mais quente, em vez de humildemente insistir que o aquecimento global pode ser retardado sem que sejam adotadas medidas para que isso aconteça, dizem eles. 

O sonho de um acordo acabou

O período caracterizado pela "gestão inteligente das expectativas por parte da ONU" está chegando ao fim, diz Oliver Geden, especialista em clima do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim. "A expectativa de que a piora do problema iria pressionar a comunidade internacional para que fosse encontrada uma solução não se confirmou – e isso provavelmente não se confirmará".

"O sonho de um acordo mundial acabou", concorda Frank Uekötter, historiador ambiental do Centro Rachel Carson para o Meio Ambiente e a Sociedade. "A eliminação (do regime de encontros de cúpula) criaria espaço para uma nova dinâmica".

Mas, para muitos, essas declarações beiram o sacrilégio. Ambientalistas têm mantido expectativas enormes em relação ao processo de negociações climáticas da ONU, e acreditaram durante anos que esse processo acabaria por resultar em um acordo global para a redução das emissões de gases do efeito estufa. O processo deveria, em suma, alcançar a meta quase inatingível de produzir um sucessor mais rigoroso para o fraco e, em grande parte, não compulsório Protocolo de Kyoto – um sucessor que limitaria o aquecimento global a 2 graus Celsius (ou a 3,6 graus Fahrenheit).

Em vez disso, o processo – que tem culminado todos os anos em encontros de cúpula de grande repercussão e que, invariavelmente, terminam em decepção – só conseguiu produzir uma série de acordos para que se chegasse a um acordo. "Eu nunca compreendi como negociações que nem sequer funcionam entre 20 países poderiam funcionar no modelo da ONU, com 194 países participantes", diz Geden. "Nauru ou Tuvalu não vão dizer aos EUA e à China o que eles devem fazer". Geden acrescentou que, provavelmente, seria mais produtivo se os líderes negociassem em grupos menores.

Geden e Uekötter se unem em seu ceticismo a vários e respeitados acadêmicos e especialistas do clima da Alemanha. Maximilian Mayer, cientista político da Universidade de Bonn, diz que as negociações climáticas da ONU correm o risco de se transformar em "uma forma de tecnocracia controlada por especialistas", e propõe uma "desaceleração significativa do processo de negociações sobre o clima da ONU".   

Devemos descartar a meta de 2 graus Celsius?

Silke Beck, especialista em clima do Centro Helmholtz para Pesquisa Ambiental, critica as reuniões de cúpula devido ao fato de elas serem pouco mais do que mero "simbolismo", e diz que a questão do aquecimento global é "grande demais" para o atual processo da ONU. Hans von Storch, do Instituto de Pesquisa Costeira do Centro Helmholtz, acrescenta que o processo tem transformado pesquisadores em pouco mais do que "lanterninhas no teatro político".

Mas o que pode ser feito? A resposta dada por muitos é uma surpresa. A meta de limitar o aquecimento global a apenas 2 graus Celsius ganhou importância demais, dizem eles, pois ela garante que o foco do debate público permaneça quase que exclusivamente em cima da redução das emissões de dióxido de carbono. No entanto, após duas décadas de negociações fracassadas, o objetivo dos 2 graus Celsius provavelmente já se tornou inatingível. É hora de ampliar o foco, dizem eles.

"A discussão atual se prende demais aos gases do efeito estufa", diz Uekötter. O historiador se refere aos recentes fracassos das conferências climáticas como a "fase da inércia".

Em vez disso, muitos dizem que as medidas destinadas a lidar com as inevitáveis consequências das mudanças climáticas devem se transformar no centro das atenções. Isso envolveria incluir iniciativas locais na abordagem mais ampla das Nações Unidas, em vez de apenas focar na temperatura média global. A Alemanha, por exemplo, avançou com um plano de multibilionário (em euros) destinado a proteger seu litoral do avanço do nível do mar e da piora das tempestades. Mas essas questões, em geral, não são abordadas nas conferências climáticas da ONU.

Desprezo pela realidade

"A situação é absurda", diz Sebastian Wiesnet, da Universidade de Bamberg. "Seria mais honesto, em relação aos eleitores, dar um passo a trás e pensar sobre como seria possível realmente implementar uma proteção para o clima global". Os esforços para que possamos nos preparar para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, diz ele, não só poderiam ser implantados mais rapidamente, como também seriam mais baratos do que os esforços para a redução das emissões.

Além disso, os efeitos das mudanças climáticas são diferentes de lugar para lugar e, muitas vezes, esses efeitos são ampliados pelas realidades locais. Quando se trata de surtos de tempestades perigosas que ameaçam as ilhas do Pacífico Sul, por exemplo, a conferência do clima da ONU tende a se concentrar exclusivamente na elevação do nível do mar. Mas o problema é geralmente ampliado devido à destruição dos recifes de coral por pescadores, por exemplo. "No nível local, outras condições que mudam com mais velocidade muitas vezes trazem mais consequências negativas do que as mudanças climáticas", diz o cientista político Mayer.

Qualquer tipo de distanciamento da meta de 2 graus Celsius, é claro, seria politicamente arriscado. Para muitos, isso soaria como uma abdicação e um recuo após décadas de promessas para que, finalmente, fosse lançado um esforço global de combate ao aquecimento global. Mas os pesquisadores estão começando a chegar à conclusão de que não haverá outro jeito de lidar com a questão.

Os modelos climáticos simulados por comutador de hoje em dia, que são o fundamento de todas as negociações climáticas da ONU, representam o "desprezo quase completo pela realidade", diz Werner Krauss, do Centro Geesthacht Helmholtz de Materiais e Pesquisa Costeira. "O mundo que está sendo salvo existe apenas nesses modelos".