O Evangelho segundo Hans Küng

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05 Janeiro 2013

A fé é necessária. Mas não pode ser imposta. É por isso que Joseph Ratzinger se equivoca. Um homem que não tem outro horizonte do que a hierarquia eclesiástica. Uma conversa com o célebre teólogo e ex-colega do pontífice.

A reportagem é de Wlodek Goldkorn, publicada na revista MicroMega, 17-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O teólogo vive em uma bela casa em uma doce colina às portas de Tübingen, Alemanha. Aqui tem sede a Fundação Weltethos dirigida por Hans Küng, teólogo suíço, autor de inúmeros e importantes livros, quase sempre em polêmica com a doutrina e a hierarquia da Igreja, além de ser um antigo conhecido do papa reinante.

Os dois estiveram juntos entre os jovens estudiosos que contribuíram para o Concílio Vaticano II e lecionaram um ao lado do outro na universidade, também em Tübingen. A grande sala de trabalho de Küng é toda de vidro, com vista para uma fascinante paisagem da Suábia, que reflete certas pinturas do romantismo alemão. Não há computador sobre a escrivaninha. O professor escreve à mão (e, portanto, está pouco interessado com os tuítes do pontífice).

Os livros que ele produziu, traduzidos em todas as línguas, ocupam uma parede inteira do amplo espaço. Küng os indica e, brincando ma non troppo, diz: "Isso é o que eu invejo em Ratzinger. De fato, desde quando o pontífice começou a escrever, e muito". Ele observa a capa do novo livro do papa, “A Infância de Jesus”, e sorri: "Eu devo dizer que Ratzinger é um grande teólogo?". Aos 84 anos, o professor demonstra ter 20 anos menos: "Eu tenho quase 85", corrige, com ar atrevido.

Nesta entrevista, por ocasião da publicação do seu livro, talvez o mais importante, Dio esiste? [Deus existe?] (Fazi Editore), ele define o papa como "um fundamentalista parcial, certamente não ingênuo", polemiza com a hierarquia eclesiástica, mas também com os "ateus agressivos".

Depois, com o gravador desligado, ele diz: "A diferença de opinião entre mim e Ratzinger pode ser explicada a partir das nossas respectivas biografias. Eu nasci e cresci como livre cidadão suíço; ele como o filho de um policial alemão". Não é uma expressão da alteridade, mas um movimento de verdadeira empatia com relação a um ex-colega, agora adversário.

Eis a entrevista.

Por que acreditamos em Deus?


Não há uma prova irrefutável da sua existência. Mas há bons motivos para pensar que crer em Deus é uma coisa sábia. A fé não é racional ou muito menos racionalista. Pode-se acreditar que a religião toca a esfera emocional, se dirige a todos e não só às elites cultas (como a filosofia), e porque se baseia não nas modas, mas nas tradições e nas sagradas escrituras. Porém, gostaria que a fé fosse compreendida, e não só aceita. E essa é uma das diferenças entre mim e Joseph Ratzinger.

É possível uma ética sem Deus?

Sim. Há muitos agnósticos e ateus que se comportam melhor do que os crentes. Basta pensar em figuras históricas como os filósofos Bloch ou Russell. No entanto, atenção: assim como existem crentes fundamentalistas, há ateus fundamentalistas. Um por todos: o inglês Richard Dawkins, que fala da "ilusão de Deus". Eu sei que há outros, mesmo na Itália. Mas tente comparar Dawkins ou os seus seguidores aos verdadeiros grandes ateus: Marx, Feuerbach, Nietzsche, Freud... Dawkins simplesmente ignora toda a literatura filosófico-teológica e substitui a crítica fundamentada por uma ironia fácil. Ele nem sabe que a teologia é uma ciência que fez enormes progressos ao longo dos séculos. Também é preciso dizer que a Igreja Católica não ajuda. Nas últimas décadas, tentou-se desfazer as conquistas e o espírito do Concílio Vaticano II. E isso escancarou as portas para o ateísmo. A Igreja, hoje, é um alvo fácil.

Pode explicar melhor?

Eu falo da campanha de evangelização desejada por Wojtyla. Ele visava a concentrar o poder da Igreja nas mãos de Roma. Nessa campanha, tudo foi condenado: da pílula ao aborto, passando pela morte assistida. Era clericalismo puro. Wojtyla pensava em impor o modelo do catolicismo polonês ao mundo. Ao invés, o que aconteceu foi o contrário: o mundo moderno conquistou a Polônia. Eu previa isso. E é um fato triste.

O senhor acredita que é triste quando a modernidade conquista um país?

Depende do tipo de modernidade. A fé é importante. Responde às necessidades humanas mais profundas, mas não pode dar respostas a todas as perguntas. Eu participei de debates com físicos. Eles também se fazem perguntas sobre a origem do mundo, às quais a física não tem uma resposta. Diz-se que as leis da natureza remontam ao Big Bang. Mas então de onde elas vêm? Absolutamente não estou dizendo que essa pergunta seja a prova da existência de Deus, mas é uma questão que deve ser enfrentada. Dito isso, certamente a cúpula de São Pedro não é a prova da existência de Deus, mas quando um homem enfrenta o sofrimento, um sofrimento gratuito, e se pergunta: "Por que isso aconteceu justamente comigo, qual é a minha culpa?", então estamos diante de uma premissa para buscar a transcendência, e talvez também a fé.

O senhor está dizendo que a fé nasce quando a pessoa não entende o sentido do sofrimento? Mas se tantas pessoas abandonaram Deus depois de Auschwitz?

O sofrimento não é uma prova da inexistência de Deus. E você sabe por quê? Porque os oprimidos e os explorados também devem encontrar uma esperança em algum lugar. Quando vejo a miséria em que vivem milhões de pessoas, eu não posso pensar que toda essa gente se resigne ao seu destino. É desnecessário dizer que, quando eu penso em Deus, eu não imagino um homem barbudo, mas sim uma realidade fora da dimensão temporal e que está no centro do universo e nos nossos corações.

Quando a fé se torna fundamentalismo?

Quando não se raciocina, mas se busca impor os dogmas.

Para o senhor, portanto, fé é dúvida?

Vou especificar. Eu digo: eu não sou capaz de compreender o sofrimento, nem de aceitá-lo, mas estou convencido de que todo o sofrimento do mundo tem um sentido.

Como se concilia o sofrimento do mundo com a hipótese de Deus, se Deus é justiça?

Deus é justiça. Mas não é uma questão que pode ser explicada racionalmente. E, repito, nem mesmo um ateu tem uma resposta à pergunta sobre o sofrimento. Para mim, ao invés, é um ato de fé. Eu acredito que existe uma realidade capaz de acolher e de resgatar todo o sofrimento do mundo.

Falemos do atual papa. Enquanto Wojtyla se voltava para o universo inteiro, não apenas para os católicos, a impressão é de que Ratzinger fala somente para os seus correligionários...

Toda a sua vida se desdobrou no contexto estritamente católico. Ele nasceu em uma família católica. Estudou em uma escola católica. Fez o seminário, lecionou em uma faculdade católica. Tornou-se bispo, cardeal, homem da cúria. Aos 20 anos, eu já tinha viajado por todo o mundo e tive a oportunidade de entrar em contato com outras culturas e religiões. Ele não. Ele permaneceu como um infiltrado católico. É por isso que a sua teologia não tem nenhuma experiência do mundo. Ele conhece apenas os escritos dos Padres da Igreja. Não entendeu Lutero e odeia a modernidade. Ignora a pesquisa moderna da Bíblia, mesmo que, da boca para fora, reconheça a sua importância. Sendo professor, não pode condená-la, mas, se alguém lê os seus textos sobre Jesus, entende que essa matéria não lhe agrada.

O que um católico pode aprender com Lutero?

Falo por mim mesmo. Aprendi que a minha vida não consiste naquilo que eu consegui fazer, mas sim que o seu sentido está na confiança em Deus, apesar das falhas e dos fracassos. Não somos justificados por termos feito boas ações, mas somente se tivermos uma confiança ilimitada no Deus misericordioso.

O senhor está dizendo que a Igreja de Ratzinger é toda poder?

Sim. E, por isso, ele não entende que a Igreja é feita para servir. Desde jovem, ele quis ser cardeal. A estrutura de poder da Igreja, para ele, é dada por Deus. Entretanto, Jesus criou a Igreja, mas a instituição hierárquica é uma invenção humana.

Falemos dos dogmas. Maria era virgem?

Do ponto de vista biológico, não, seria contra as leis da natureza. Mas há uma verdade simbólica...

Portanto, quando um papa afirma: Maria era Virgem e não há salvação fora de Cristo...

Ele é, parcialmente, um fundamentalista. Ratzinger o é no que diz respeito aos milagres, à infância de Jesus, à doutrina, à infalibilidade do papa. Mas ele não é um ingênuo. E, além disso, os fundamentalistas (mesmo aqueles de outras religiões) são fortes hoje porque dão a sensação de segurança. Eles lhe dizem o que você deve fazer e pensar, absolvem-no da responsabilidade pelas suas ações. Mesmo que, no fim das contas, seja uma segurança ilusória.

O senhor não acredita na virgindade de Maria. E a Ressurreição?

É uma questão diferente. A pergunta sobre a Ressurreição está na origem de tudo: depois da morte eu realmente me torno nada? Ao invés, eu estou convencido de que, um dia, entrarei em uma outra realidade, e a diferença entre mim hoje e eu depois da morte é semelhante à que existe entre o casulo e uma borboleta.

Qual a sua posição com relação aos problemas como a reprodução assistida, o uso de preservativos?

São conquistas do espírito humano e, como tais, dons de Deus que não devem ser recusados. E isso também vale para as terapias da dor.

O senhor imagina que haverá sacerdotisas algum dia?

No século XXI, certamente. Além disso, no primeiro século, as mulheres tinham um papel enorme ao lado de Jesus. Era uma revolução para o mundo judaico de então.

O celibato dos padres?

Uma questão de poder. Um homem célibe pode ser comandado pelos bispos, está a serviço dos superiores.

A diferença teológica entre o senhor e Ratzinger?

Para mim, Jesus é homem filho de Deus. Para ele, é Deus.

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