O Big Brother entra no Vaticano

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03 Dezembro 2012

O monsenhor com o clergyman impecável e o passo veloz, depois de ter saudado a Guarda Suíça, lança um olhar desconsolado para as duas maquininhas para passar o crachá que se encontram do outro lado da porta emoldurada em mármore: a partir do próximo dia 1º de janeiro, quem entrar ou sair deverá passar o novo cartão de identificação magnético com um chip capaz de localizar o seu proprietário a todo momento.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 02-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico, corredor ornado de afrescos do terceiro andar: aumentam os controles na sala de controle da Santa Sé, a Secretaria de Estado. E não só sobre os horários. De Rafael ao Big Brother. É apenas um dos efeitos do Vatileaks, o vazamento de documentos confidenciais do apartamento papal, que talvez mudou para sempre o trabalho cotidiano nos sagrados palácios. Arquivos blindados, mais controles para quem quiser ver os arquivos, obrigação de declarar o que se fotocopia. Novas e mais severas regras também na pequena comunidade familiar de Bento XVI, com a transformação da sala dos secretários particulares em off limits para evitar a repetição dos "vazamentos".

Ao lado da sala dos papa, os secretários do pontífice, Georg Gänswein e Alfred Xuereb, compartilham uma sala conectada com o escritório de Bento XVI. Lá, além da fotocopiadora, desde os tempos de João Paulo II também se encontrava uma mesa com um computador destinada para o ajudante de sala. Angelo Gugel, histórico – e agora aposentado – mordomo de três papas, a usava para alguns pequenos trabalhos de secretaria que lhe era confiado por Dom Stanislaw Dziwisz.

É aí que "Paoletto", em horário de trabalho, reproduzia cartas confidenciais que passavam sobre a mesa do padre Georg depois de terem sido vistas pelo pontífice. Como efeito do Vatileaks, ao sucessor de Gabriele, o novo ajudante de sala, Sandro Mariotti, chamado de "Sandrone", não só não são mais confiadas tarefas de secretaria, mas também foi proibido permanecer no escritório dos secretários.

Foi decisivamente reforçado o controle sobre o procedimento feito com os documentos que chegam sobre a escrivaninha papal provenientes da Secretaria de Estado, para onde depois retornam com as indicações do caso e o inconfundível "B16", a sigla que Ratzinger acrescenta à mão às cartas que ele lê pessoalmente.

O crachá para assinalar horários de entrada e de saída daqueles que trabalham no Palácio Apostólico e na Secretaria de Estado não é por si só ligado ao Vatileaks. Trata-se de um modo de garantir que os horários estabelecidos sejam respeitados por todos, mesmo que já esteja muito distante o tempo em que João XXIII podia responder ironicamente à pergunta de um diplomata interessado em saber quantas pessoas trabalhavam no Vaticano: "Cerca da metade...".

Mas a decisão de dotar o novo cartão com um microchip graças ao qual, se necessário, o seu proprietário poderá ser localizado dentro do Palácio Apostólico, é um sinal inequívoco da vontade de um maior controle que vai além dos horários de trabalho. "Só os superiores terão acesso às informações caso surjam problemas – assegura um alto prelado – e não haverá, portanto, um monitoramento constante".

O responsável pelo respectivo escritório da Secretaria de Estado, o monsenhor esloveno Mitja Leskovar, é o encarregado de vigilar sobre a aplicação das novas regras de segurança. Ocupando-se da transmissão das comunicações confidenciais entre a Santa Sé e os núncios, o prelado, que nasceu na Iugoslávia no tempo do comunismo, tornou-se um especialista em antiespionagem.

Para aqueles que trabalham na Secretaria de Estado, depois do Vatileaks, também ficou um pouco mais complicado fazer fotocópias: é preciso marcar em um registro específico o nome do requerente e que documentos serão copiados. Os registros são supervisionados por Leskovar.

Mais atenção e respeito pelas regras também para o acesso aos dois arquivos, o da primeira e o da segunda seção da Secretaria de Estado. Ambos se encontram no terceiro andar do Palácio Apostólico, mas têm dois responsáveis diferentes.

No primeiro, preservam-se os documentos que se referem ao serviço cotidiano do papa com relação à Igreja universal e à Cúria Romana, a redação dos documentos papais, os relatórios dos núncios apostólicos sobre as Igrejas locais. No segundo, estão guardadas as cartas que dizem respeito às relações da Santa Sé com os Estados.

Os pedidos de consulta aos documentos por parte das autoridades da Secretaria de Estado sempre devem ser preenchidos por escrito e devidamente autorizados: uma regra já existente, mas antes não aplicada de modo inflexível. E quem trabalha dentro do arquivo não pode mais carregar o celular consigo, que deve ser deixado em um armário apropriado.

Regras mais duras, controles mais precisos, procedimentos menos elásticos, com algumas possíveis demoras na atividade dos escritórios. Mesmo que a hierarquia vaticana esteja convencida de que por trás de "Paoletto" não havia uma rede de cúmplices, as consequências do Vatileaks deverão pesar sobre o trabalho de todos.

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