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22 Novembro 2012

Há cerca de um mês, o jornal israelense "Haaretz" publicou texto que fechava com: "Precisamos finalmente desistir da esperança de que as coisas possam melhorar", em relação ao conflito entre israelenses e palestinos.

Profético, não? Seu autor é um dos mais notáveis jornalistas de Israel, Gideon Levy, crítico das políticas de seu país, mas que não pode ser chamado de antissemita, como muitos judeus fazem quando alguém escreve algo que não lhes agrade.

O comentário é de Clóvis Rossi, jornalista, e publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 22-11-2012.

Veio-me logo à cabeça a frase de Dante ("abandone qualquer esperança você que entra") que encima a porta do inferno - e os palestinos e israelenses voltam a viver em um inferno.

O texto de Gideon Levy foi provocado por pesquisa publicada pelo próprio "Haaretz". Mostrava, segundo sua análise, que:

1 - Um terço dos israelenses querem negar aos cidadãos árabes de Israel o direito de votar de que hoje gozam. Seria uma maneira adicional de acentuar seu caráter de cidadãos de segunda classe.

2 - Cerca de 50% dos israelenses são a favor de transferir os árabes para fora do país. Seria a versão judaica de limpeza étnica, o que deveria ser aberrante para a comunidade que sofreu a mais violenta e odiosa limpeza étnica da história.

Seria, além disso, uma aberta violação da legislação internacional que consagra o direito dos palestinos a um território, hoje em grande parte ocupado por Israel.

3 - A maioria admite que há apartheid em Israel, o que deveria ser rejeitado violentamente, não aceito alegremente.

Levy extrai então as seguintes conclusões, entre outras: "Considerada a presente realidade, fazer a paz seria quase um ato antidemocrático; a maioria dos israelenses não a quer. Uma sociedade justa e igualitária também viola os desejos de muitos israelenses. Também é algo que eles não querem. Estão satisfeitos com o racismo, confortáveis com a ocupação, satisfeitos com o apartheid; as coisas vão muito bem para eles neste país. É o que disseram aos pesquisadores".

De fato, os israelenses acomodaram-se em sua zona de conforto, a partir do instante em que a construção do muro que separa os territórios palestinos de Israel (e de pedaços de terras que são legalmente palestinas) controlou o terrorismo.

Sucessivos governos israelenses foram, a partir de então, criando as condições para que Israel passasse a viver em segurança, sem se incomodar minimamente em respeitar as resoluções da ONU que exigem a retirada dos territórios ocupados, única forma de que possam de fato ser criados dois Estados viáveis.

A imposição pelo mais forte criou essa situação em que um lado acha, para citar Levy, "que as as coisas vão muito bem para eles", e o outro lado vive miseravelmente.

Aí vêm os ataques promovidos pelo Hamas e, ontem, um novo atentado a um ônibus, o que era quase rotina há alguns anos. Israel descobre penosamente que não dá para viver ao lado do inferno sem sentir o calor das chamas. Os dois lados acabam dando razão a Dante.

Veja também: Palestina e Israel. A luta pela Paz Justa. Revista IHU On-Line, no. 408

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