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16 Novembro 2012

Uma consulta canônica acerca da renomada pacifista norte-americana falecida em 1980 entra na agenda da assembleia anual de outono da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, que foi aberta no dia 12 de novembro em Baltimore, com o relatório do presidente, o cardeal Timothy Dolan.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 13-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um discurso relativamente breve, onde foram tocados exclusivamente temas pastorais, da nova evangelização aos sacramentos, sem nenhuma referência às recentes eleições presidenciais. Mas a política está longe de estar ausente da agenda dos bispos nestas semanas: depois do seminário de Washington (8-10 de novembro) sobre justiça ambiental e as mudanças climáticas na CUA (Catholic University of America) e da carta assinada por Richard E. Pates de Des Moines, presidente da Comissão Episcopal Justiça e Paz, à secretária de Estado, Hillary Clinton, para pedir uma solução de dois Estados no Oriente Médio, com a criação de um Estado independente da Palestina, é muito significativa a escolha que os bispos foram chamados a fazer sobre a continuidade do processo de beatificação de Dorothy Day, declarada "Serva de Deus" por João Paulo II. Uma das figuras femininas mais conhecidas do século XX em nível mundial pela sua ação decisiva em favor da justiça e da promoção humana, com inúmeros contatos entre uma margem e outra do Atlântico.

Nascida em 1897 no Brooklyn, em Nova York – seu pai era jornalista de origem irlandesa, e sua mãe, inglesa – Dorothy se mudou com a família para San Francisco, mas o terremoto de 1908 deixou o pai John desempregado, e o novo destino foi Chicago: a segurança econômica fornecida à família pelo trabalho do pai redator-chefe não impediu que Dorothy, então de fé episcopal, frequentasse os bairros mais degradados do South Side da cidade, onde começou a sua vocação pelos pobres.

Uma vida conturbada substancialmente dividida em duas: estudos no Urbana College, repórter em Nova York, participação na causa pacifista ainda por ocasião da Primeira Guerra Mundial (em 1917, ela foi presa e espancada na frente da Casa Branca), diversos amores, um aborto voluntário (objeto do seu romance The Eleventh Virgin [A Undécima Virgem]), a relação estável com Forrest Batterham, botânico inglês, anarquista e contrário ao casamento. Em 1927, o nascimento de uma filha, Tamar, e a decisão de batizá-la mesmo que a escolha pusesse fim definitivamente à relação com Batterham. Começa um lento processo de aproximação à Igreja Católica, vista por ela como a "Igreja dos pobres", mas ela permanece constantemente debatida entre a escolha religiosa e os valores sociais imprescindíveis para ela, como as marchas ao lado dos comunistas para pedir os subsídios ao desemprego, os tratamentos médicos, a assistência materno-infantil.

Em 1932, o encontro com Peter Maurin, imigrante francês com quem fundou – na significativa data de 1º de maio de 1933 – um jornal (onde Jacques Maritain também escreveria), o Catholic Worker (vendido a um penny por cópia "para que cada um possa se dar ao luxo de comprá-lo"), que se tornou o fulcro da ação de um movimento católico social, com a fundação de diversos abrigos para os sem-teto (em 1936, já eram 33 casas em todo o país) e também comunidades agrícolas de estilo cooperativo. Ela participou de inúmeras manifestações em defesa dos agricultores, como na Califórnia ao lado de César Chávez, para a "greve da uva."

Os artigos no jornal eram de marca eminentemente pacifista: falava-se de cruzadas e de papas em guerra, mas também de São Francisco de Assis e da necessidade para os cristãos do século XX de escolhas de paz. Assim, enquanto a Igreja oficial abençoava a ascensão de Franco na Espanha, o Catholic Worker era contrário, perdendo uma boa fatia de leitores. Com o ataque japonês a Pearl Harbor e a declaração de guerra norte-americana, Dorothy não mudou de opinião, "em nome de Cristo", assim como para a Guerra do Vietnã (e por isso foi novamente presa). Em 1963, estava em Roma com milhares de mulheres para manifestar o seu agradecimento a João XXIII pela encíclica Pacem in Terris.

Por ocasião do seu 75º aniversário, a revista dos jesuítas, America, dedicou-lhe um número especial, a Universidade Católica de Notre Dame conferiu-lhe a Medalha Laetare pela sua ação em apoio dos marginalizados. Madre Teresa de Calcutá, em visita aos Estados Unidos, quisera encontrar-se com ela. A hierarquia da Igreja a suportou, mais frequentemente ignorada.

"Não me chamem de santa", exclamara um dia. "Eu não quero ser arquivada tão facilmente: se obtive alguma coisa ao longo da minha vida, foi porque eu não hesitei em falar de Deus e da sua vontade".

Rosemary Lynch, uma irmã franciscana que a conheceu, se lembra dela pelo que Romano Guardini escreveu: "Dorothy Day fez para a Igreja da sua época o que outros grandes fizeram em outras épocas: chamou a Igreja à fidelidade às suas raízes".

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