Chile vai bem, mas chilenos exigem mais

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03 Novembro 2012

Os chilenos historicamente votam em partidos de centro-esquerda, justificou o presidente Sebastián Piñera para explicar a derrota, nas eleições municipais no fim de semana, da Coalizão, aliança de centro-direita que o levou ao poder em 2010 - na primeira vez em mais de meio século que a direita chegou ao poder pelo voto no Chile. Mas o motivo, aponta ele, também pode ter sido o novo sistema eleitoral. O registro eleitoral tornou-se automático e, com isso, um contingente de novos eleitores foram incorporados. Ao mesmo tempo, eliminou-se a obrigatoriedade do voto. Segundo Piñera, a abstenção, que cresceu e chegou aos 60%, aconteceu principalmente entre os eleitores da Coalizão, que teve cerca de 38% dos votos, ante 43% da centro-esquerda.

A reportagem é de Vera Brandimarte e publicada pelo jornal Valor, 01-11-2012.

O resultado das urnas não deveria surpreender. Nos últimos meses, foram vários os sinais de descontentamento da população com o governo de Piñera. Em sua expressão mais ruidosa, milhares de estudantes protestaram nas ruas este ano, pedindo ensino de qualidade e gratuito.

O presidente e seu gabinete de vários empresários e ex-executivos de sucesso e bem formados, alguns com passagens por Harvard, como o próprio presidente e seu chanceler, Alfredo Moreno, definitivamente não conseguiram conquistar os corações dos chilenos. Enquanto a economia segue de vento em popa, com o Chile exibindo os melhores indicadores de crescimento da América Latina, uma invejável resiliência à crise internacional, taxas de desemprego em recorde de baixa e uma situação fiscal bastante saudável, a população, por sua vez, sente-se cada vez mais segura para apresentar demandas ao governo.

Com um PIB per capita de US$ 17.360 em 2011, "os chilenos estão cada vez mais exigentes", comentou Piñera, em café da manhã na terça-feira no Palácio de La Moneda com diretores de redação dos jornais econômicos da América Latina que compõem a Ripe, Rede Ibero-Americana de Jornalismo Econômico.

Por duas horas, o presidente chileno manteve um discurso objetivo, com números para reforçar seus argumentos. Mas seu tom é ainda o de um executivo de empresa, sem o carisma necessário a um político e nem os recursos a que eles recorrem em seus subterfúgios para dourar a pílula.

O que acontece é um divórcio entre o momento da economia chilena e as demandas da sociedade, reforçou ontem o ministro da Fazenda, Felipe Larraín, durante o primeiro congresso promovido pela Ripe, em Santiago. "As demandas da sociedade são as de países desenvolvidos, mas a receita do Chile não", disse ele, apontando os riscos de o Chile perder-se nesse processo. Nos anos 1960, contava-se mais de 100 países emergentes. Destes, em 2000, só 10 chegaram à condição de país desenvolvido. Muitos descarrilaram, disse ele, porque, para chegar ao desenvolvimento, é preciso ter responsabilidade, não é possível atender a todas as demandas sociais.

Larraín gastou estatísticas para mostrar que os chilenos deveriam ter paciência pois falta pouco para o país chegar ao clube dos ricos. O Chile cresce 5,1% este ano, só perde para o Peru (6%) na América Latina, o investimento em capital fixo foi de 23,8% do PIB no segundo trimestre, a taxa de desemprego (que em 2010 estava em 9%) caiu a 6,5% em setembro e o país tem captado recursos no mercado internacional a taxas recordes de baixa (2,38% em papéis de dez anos).

Seguindo o atual receituário, o Chile chega a 2018 com uma renda per capita de US$ 22 mil, valor a partir do qual se caracterizaria como desenvolvido. Vários dos indicadores sociais usados para definir os que chegam a esse time estão bem próximos de ser alcançados, da expectativa de vida ao nascer (79,1 anos no Chile, contra 80,3 nos países desenvolvidos), mortalidade infantil (7 por mil no Chile, para a meta de 4), população com ensino secundário completo (51,8% para 60%), entre outros.

Ocorre que, a partir de um determinado nível de renda, já não existe mais a correlação de melhoria de renda com a melhoria dos indicadores sociais. A partir de US$ 22 mil per capita, e o Chile está próximo disso, a correlação passa a ser com a distribuição de renda. E este é o ponto. Os 25% a 30% da população chilena que nos últimos anos passaram a ter um padrão de vida melhor agora têm novas demandas.

Essa classe média, afirmou o ex-presidente chileno Ricardo Lagos, quer ensino e aposentadoria adequados, e a questão é quem pagará a conta. Esse momento do qual se aproxima o Chile requer nova organização da sociedade, que terá que definir como financiar os estudos dessa classe média e a aposentadoria de 50% da população que não tem seguro adequado, disse.

Mais bem informada e com mais poder, principalmente com o mundo que se abriu com a internet, essa classe média não se deixa impressionar pela frieza das estatísticas. Quanto mais o país cresce, mais ela vai brigar para participar da festa no andar de cima, proporcionada por essa nova riqueza. O Chile terá que fechar esse fosso.

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